Abel Braga deixou o comando do Flamengo nesta quarta-feira. Antes que fosse demitido logo menos, em uma relação desgastada desde o início, o treinador preferiu se adiantar aos movimentos e pedir o boné. Foram cinco meses de pouco impacto real sobre o time, muito mais marcados pelas cobranças e pelos brilhos esparsos. Abelão não parecia o homem certo aos rubro-negros durante toda esta segunda passagem pela Gávea e a insatisfação da torcida foi praticamente instantânea. Deixa a equipe sob a impressão de que o primeiro semestre foi pouco proveitoso, entre o alto investimento e as expectativas que não se cumpriram.

A escolha de Abel Braga ao comando do Flamengo sempre soou como uma medida eleitoreira em tempos de pleito presidencial no clube. Aparecia como uma “promessa de campanha”, um nome forte para blindar a nova diretoria, após mudanças constantes na casamata e muitas opções por comandantes mais jovens. O trabalho do veterano, de qualquer forma, não se casava com as expectativas criadas. Depois das contratações de janeiro, havia uma pressão para que o Fla exibisse um futebol ofensivo e vistoso. Não era a de Abel e, em consequência, não foi o que aconteceu.

Obviamente, Abel não é o único culpado por jogadores que não renderam de imediato e nem pelas lacunas que permanecem no elenco. De qualquer maneira, o Flamengo pareceu mesmo regredir nestes cinco meses. Se ao longo dos últimos anos foi um time de posse de bola, que pecava na hora de decidir as partidas, desta vez optou por jogar de maneira mais reativa e direta. Raramente deu certo. As boas atuações contavam-se nos dedos, mesclando-se com tropeços sentidos e exibições inconsistentes. A defesa permanecia exposta, não havia compactação entre os setores e muitos resultados dependeram da qualidade individual, sem organização ou repertório ofensivo. E a falta de regularidade recaía sobre o comandante. Coletivamente, o Fla pouco existiu.

O Flamengo conquistou o Campeonato Carioca, o que não foi alívio para Abel. A classificação na Copa Libertadores também veio, mas só depois de um enorme sufoco. As atuações fracas do time e a impotência dos adversários contra o Fla geraram questionamentos. Já o Brasileirão, que parecia a chance de salvar a lavoura, viu mais oscilações. A equipe conquistou vitórias emocionantes, ao mesmo tempo em que desperdiçou pontos custosos. Mesmo com a classificação encaminhada na Copa do Brasil, tudo indicava para uma mudança já durante a pausa da Copa América. Ela veio antes, por decisão de Abel.

Abel Braga não precisa provar mais nada. Sua história no futebol fala por si. Mas entre a pressa ao redor para que o time rendesse e o desacerto de suas escolhas, o trabalho rapidamente ruiu. O treinador alternou momentos e muitas vezes pecou por decisões, sobretudo por suas insistências e inversões com algumas peças. Além do mais, também viu as críticas se ampliarem por declarações infelizes nas coletivas de imprensa. Seu único sustentáculo neste momento eram os jogadores, com quem mantinha uma relação próxima. Mas, diante daquilo que não andava, com os questionamentos inescapáveis e movimentações nos bastidores, o comandante optou por sair de cena.

A pressão agora recai sobre a diretoria do Flamengo. Foi ela que dispensou Dorival Júnior no final de 2018, quando o trabalho dava bons sinais, e escolheu Abel Braga como seu para-choques. Não deu certo, também por muitos erros do comando do Fla, com menção honrosa às desastrosas notas e declarações feitas por seus membros nos últimos meses. Soam risíveis e como um desrespeito à torcida. Agora, com a paciência esgotada, não poderão dar um tiro na água. A cobrança por resultados aumentará.

Do ponto de vista do futebol, a saída de Abel Braga tende a ser benéfica. O time realmente não dava sinais acentuados de melhora, por mais que não faltasse atitude dos jogadores, e a pausa para a Copa América deve ser providencial para o novo comandante. Resta saber quem será a aposta. O nome mais forte na imprensa é o de Jorge Jesus, um caminho diferente – mas de altos custos, temperamento intempestivo e falta de resultados recentes. De qualquer maneira, se a diretoria deseja se blindar, parece mesmo uma alternativa palpável, dentro das opções escassas no Brasil e da falta de olhares aos vizinhos na América do Sul.

A direção do Flamengo, aliás, já teria iniciado as conversas com Jesus durante uma viagem à Europa. A informação chegou a Abel Braga e o treinador expressou seu descontentamento em carta de despedida: “Sempre estive preparado para as grandes pressões e os grandes momentos. Sempre me dei bem com isso. E me habituei a encarar esses desafios de cabeça erguida. Mas jamais estive preparado para covardias e articulações. O que não suporto é traição”. Por mais que o trabalho não fosse bom, o treinador tem toda a sua razão. É mais um erro crasso da atual gestão dos rubro-negros, que precisará confiar bastante em sua próxima cartada.

Quem chegar pega um ótimo elenco, que precisa de ajustes coletivos e adições pontuais. E com boas perspectivas, caso acerte os ponteiros. A situação no Brasileirão é razoável, a Copa do Brasil está cômoda neste momento e a Libertadores promete um duelo mais acessível no início. Enquanto o time manterá um comando interino neste primeiro momento, até a Copa América, Abel pelo menos deixa uma última impressão feliz, com a emocionante vitória sobre o Athletico Paranaense. Um sorriso de canto de rosto em meio à decepção geral.