A voz dos jogadores causa impacto e já combateu o racismo na própria Bundesliga, mas os cartolas insistem em ignorar isso

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Na partida do Schalke 04, Weston McKennie usou uma braçadeira com a inscrição “Justice for George Floyd”. A mesma frase apareceu nas camisetas de Jadon Sancho e Achraf Hakimi, em comemorações que serviram muito mais como protesto no jogo do Borussia Dortmund. Enquanto isso, Marcus Thuram se ajoelhava no gramado e repetia o gesto antirracismo do quarterback Colin Kaepernick, após balançar as redes pelo Borussia Mönchengladbach. Um americano, um inglês, um marroquino, um francês. Todos eles inseridos numa realidade onde o racismo estrutural vem de séculos e independe das distintas origens. Todos eles conscientes da importância da luta, aproveitando a visibilidade do futebol para se posicionar.

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O assunto principal na rodada da Bundesliga não foi qualquer resultado. As manchetes sobre a liga estampavam principalmente as manifestações dos jogadores, que usaram o talento como plataforma para que a voz fosse mais ouvida. Se preferissem publicar uma mensagem nas redes sociais, talvez até gerassem algum impacto. Ainda assim, nada comparável à atitude de levar para dentro de campo a discussão tão urgente, tão necessária, que entra em ebulição após o assassinato de George Floyd por um policial em Minnesota. McKennie, Sancho, Hakimi e Thuram não precisaram participar de qualquer ação de marketing coordenada para declarar a importância da justiça. Para colocar em ignição uma luta contra o racismo que precisa ser geral, e depende muito mais de atitudes do que palavras.

“Eu senti que era minha responsabilidade e meu dever, especialmente sendo americano e com a situação que se vive nos Estados Unidos. Senti que era a melhor e maior plataforma que poderia usar para espalhar a conscientização. Claro, talvez algumas pessoas não concordem com isso, mas é a opinião delas. Eu senti que era meu dever e minha responsabilidade pedir justiça para George Floyd. É um problema que ocorre há muito tempo. Somos a única grande liga de futebol jogando no momento, todos os olhares estão sobre a Bundesliga. Então, senti que não havia melhor maneira ou melhor hora que agora”, declarou McKennie, em entrevista à Forbes.

Nem todos no futebol alemão, porém, concordam com o jogador do Schalke 04.

McKennie, do Schalke

McKennie também contou que Felix Zwayer, árbitro que costuma apitar jogos importantes na Bundesliga e na Champions League, pediu para que ele tirasse a mensagem da braçadeira. O americano se recusou e preferiu enfrentar as consequências. A resposta veio nesta segunda-feira, em mensagem publicada pela federação alemã. Os futebolistas que se manifestaram pedindo justiça por George Floyd correm o risco de serem punidos. O motivo? “São mensagens políticas” e, como tais, precisam passar pelo crivo dos tribunais desportivos. Apenas Thuram, que agiu, mas não apresentou qualquer frase, não será submetido ao julgamento. É o contrassenso dos dirigentes brancos que podem impor limites à expressão dos negros, quando estes são as verdadeiras vítimas.

Na letra fria da lei, a postura da DFB pode até fazer sentido para alguns. A organização age com o mesmo rigor em relação a todos os seus membros, evitando também que mensagens extremistas tomem o gramado. Entretanto, o posicionamento de McKennie ou Sancho, de Hakimi ou Thuram, está longe de ser apenas uma manifestação política. É uma questão de humanidade e de empatia, que deveria ser básica a qualquer um que tem consciência sobre o racismo e suas consequências em tantas partes do mundo. Era dever da DFB e da Bundesliga, em vez de indagarem, logo se colocarem ao lado da luta. Presidente da federação, Fritz Keller até falou que “entende absolutamente o valor moral das ações e que ninguém fica impassível ao que ocorreu nos Estados Unidos”, mas são palavras ao vento ante os atos.

As entidades futebolísticas na Alemanha costumam se engajar em diversas iniciativas contra o racismo e a discriminação. Há exemplos de ações com mensagens nas camisas, com doação de dinheiro, com a participação em programas sociais. São medidas importantes, mas que acabam perdendo seu vigor quando a federação decide abraçar um legalismo que não compreende o outro e que rebate os atletas em seu protesto, apenas para ponderar uma punição que sequer deveria ser cogitada. A Bundesliga já deveria ter percebido, há tempos, que a atitude dos indivíduos transmite uma mensagem muito mais forte que as ações de marketing planejadas. O campo potencializa a voz.

Jadon Sancho, do Borussia Dortmund, com a mensagem de “Justiça para George Floyd”

O próprio passado da Bundesliga serve de exemplo. Até os anos 1980, raros jogadores negros haviam atuado no futebol profissional alemão e não ficavam por muito tempo. A virada rumo à década de 1990 seria importante nesse processo, não apenas pelos jogadores estrangeiros contratados pelos clubes locais, como também pelos descendentes de imigrantes que ascendiam nos gramados. Todavia, aquele também era um momento turbulento na vida política e social da Alemanha. Enquanto o país atravessava sua reunificação, lidou com uma série de atentados xenofóbicos em diferentes regiões. A discriminação não era nada velada e se notava também nos estádios, onde muitos racistas se sentiam livres para expressar seus pensamentos mais execráveis.

O ano de 1990 seria emblemático neste sentido, tanto para escancarar o racismo institucionalizado quanto para fortalecer o combate antirracista. Um episódio paralelo ao futebol aconteceu com Erwin Kostedde – atacante com passagens por Dortmund, Werder Bremen e outros clubes de peso na Bundesliga. Filho de um soldado americano e de uma alemã, o veterano fez sucesso nos anos 1970, a ponto de se tornar o primeiro negro a atuar pela seleção local. Fã de Muhammad Ali na juventude, lidou com o racismo dentro dos estádios, embora já aposentado tenha sofrido o pior caso de discriminação. O ex-jogador foi preso em 1990, acusado de ser o responsável por um assalto armado a um fliperama.

Durante a averiguação, Kostedde foi a única pessoa apresentada como suspeito à testemunha, quando a lei requeria outros cinco indivíduos lado a lado para identificação. Segundo o chefe do departamento de polícia, “seria impossível encontrar outros cinco negros na região”, quando a única descrição era de que um negro teria sido o autor do crime. “Identificado”, Kostedde passou seis meses encarcerado, até provar sua inocência. O artilheiro ainda perdeu suas economias e, como indenização do estado, recebeu 3 mil marcos – uma quantia insignificante para a época. “Eles deveriam ter me dado mais de 10 milhões, minha vida foi arruinada. Nunca pensei que algo assim poderia acontecer na Alemanha. Ainda penso nisso, eu me tornei uma pessoa diferente”, declararia, anos depois.

Erwin Kostedde, o primeiro negro a atuar pela seleção da Alemanha Ocidental

Enquanto Kostedde lutava por sua liberdade, a Bundesliga também viu três jogadores importantes levantarem sua voz contra o racismo. Os protagonistas negros se tornavam mais frequentes em diferentes clubes. Anthony Baffoe nasceu em um distrito de Bonn, filho de um diplomata ganês. Começou a carreira no Colônia, mas só ganhou sequência na primeira divisão após se transferir ao Fortuna Düsseldorf em 1989. Souleymane Sané tinha origem parecida, filho de um funcionário da embaixada senegalesa na França. Mudou-se à Alemanha enquanto servia ao exército e por lá se firmou, até chegar à Bundesliga em 1988, levado pelo Nuremberg. Já Anthony Yeboah nasceu em Gana e atuou por clubes locais até 1988, negociado com o Saarbrücken na segundona. O salto para a elite aconteceu em 1990, pelo Eintracht Frankfurt.

Outros jogadores negros atuavam na Bundesliga em 1990/91, a exemplo do brasileiro Leonardo Manzi, mas os três mais importantes eram Baffoe, Sané e Yeboah. Todos eles lidavam com o racismo insistente, de diferentes maneiras. Não era só a torcida que vociferava frases discriminatórias, audíveis na televisão. A própria imprensa usava termos preconceituosos e os adversários ofendiam os atacantes negros em campo. Além do mais, os três percebiam a inação das autoridades do futebol local – não apenas da liga e da federação, mas também dos próprios clubes. Então, eles se uniram e escreveram uma carta em conjunto contra o racismo. Era um pedido de ajuda principalmente ao público, para que os apoiasse na luta contra o preconceito.

“Os clubes, a federação e a liga mal se sensibilizavam com o racismo. Foi por isso que Yeboah, Baffoe e eu decidimos que precisávamos fazer algo. Escrevemos essa carta, que foi publicada no Bild. Depois disso, ficou um pouco melhor”, contou Souleymane Sané, em entrevista à revista 11 Freunde. Algumas organizações foram fundadas para falar sobre racismo nos estádios e os clubes também começaram a agir. “Eu tive várias oportunidades para sair da Alemanha, recebi propostas do Sochaux e do Metz. Mas então eu sempre pensava no que um amigo me dizia: ‘Samy! Olhe para todos os outros africanos, eles vão embora porque não se adaptam à cultura e à mentalidade. Ou sofrem por causa do racismo. Mas você, meu amigo, pode mudar isso. Pode se tornar o primeiro a fazer a diferença’. Esse se tornou meu objetivo”.

Souleymane Sané foi um atacante importante na Bundesliga não apenas por seus gols, mas também por sua resistência. O senegalês não costumava se intimidar com os racistas, após crescer em uma realidade bem mais multicultural na França. Certa vez, após um jogo contra o Gladbach, um torcedor começou a insultar o artilheiro adversário na saída do estádio. Sané, que caminhava até o ônibus, mudou sua direção e foi tirar satisfação. O rapaz engoliu as palavras, ao se fazer de desentendido. Já quando Sané chegou ao Nuremberg, um jornalista criticou a “contratação delicada”. Alegava até mesmo que “torcedores ligaram ao clube ameaçando cancelar os carnês de temporada se um negro fosse contratado”.

Sané seguiu em frente no Nuremberg, mas os artigos continuaram, difamando também a família e a esposa do atacante – a ginasta rítmica Regina Weber, dona do bronze olímpico em 1984. Dias depois, o encontro com o tal jornalista ocorreu no centro de treinamentos do clube. Sané se colocou no caminho do repórter até a sala de imprensa e o rapaz demorou cerca de meia hora até resolver passar pelo atleta. “Este é um país livre, escrevo o que quero”, declarou. O artilheiro, então, acertou uma cabeçada que quebrou o nariz do racista imbecil. Quando viu o técnico Hermann Gerland, Sané disse: ‘Se quiser me afastar, eu lido com isso’. O treinador ficou ao seu lado, assim como os companheiros. A multa aplicada pela liga foi paga pelo próprio clube.

“Eu tinha vontade de sair de campo, mas meus companheiros mudaram minha ideia várias vezes. Eles me apoiavam e me motivavam para os racistas não acharem que tinham vencido, para fazê-los se sentirem tolos comigo dentro de campo. Todo mundo era racista? Penso que não. Os estádios os transformavam em animais. Havia um ódio no estádio que eu nunca encontrava nas ruas. Minha esposa dizia que eles deixavam lá a raiva de casa ou do trabalho”, contaria Sané.

“No começo, eu não entendia o que eles estavam falando. Mais tarde, quando dominava melhor a língua, é claro que isso passou a me atingir. Pelo menos não me abalava. Às vezes, tentei expor esses gritos com ironia. Certa vez, quando marquei um gol contra o Hamburgo, corri à bandeira de escanteio e dancei. Atiraram bananas e laranjas contra mim. Peguei uma banana, descasquei e comi”, complementou. “Eu conseguia silenciar os gritos com gols e bons jogos. Sempre que esses sons de macaco começavam, eu pensava: vou marcar gols e vocês ficarão em silêncio!”. Sané anotou 51 tentos em seis temporadas na elite da Bundesliga, vivendo sua melhor fase no Wattenscheid 09. Além disso, foi artilheiro na Áustria, na Suíça e também com o Freiburg na segundona.

Os jogos contra o Hamburgo, aliás, estavam entre aqueles com maior incidência de cânticos preconceituosos. Sané causou a ira dos racistas em dezembro de 1990, pouco antes de publicar o texto no Bild. Num duelo pela Copa da Alemanha em que foi bastante ofendido, o senegalês marcou o gol da classificação contra os Dinossauros aos 42 do segundo tempo e provocou os adversários nas declarações depois da partida. Mas um sinal da mudança viria logo, na volta do Wattenscheid 09 a Hamburgo. Antes do novo confronto no Volksparkstadion, os torcedores locais enviaram uma carta assinada por centenas de pessoas pedindo desculpas a Sané. Um reflexo do artigo escrito ao lado de Baffoe e Yeboah.

Baffoe teve a carreira mais modesta entre os três na Bundesliga, mas se valeu bastante de seu ativismo. O meia costumava responder aos racistas com inteligência e também com ironia, sem se calar. Não à toa, continuou trabalhando no futebol, através do desenvolvimento de projetos contra o racismo – atuando inclusive na Fifa. Já Yeboah foi quem mais brilhou dentro de campo. O atacante virou um ícone no Eintracht Frankfurt, ocupando a artilharia da Bundesliga e fazendo as Águias sonharem com o título. Idolatrado por sua torcida, também contribuiu para uma mudança na visão em toda a Alemanha.

Grafite pintado em homenagem a Yeaboah com as palavras: “Temos vergonha de todos que gritam contra nós”

“Yeboah foi um dos melhores atacantes que jogaram na Alemanha. Ele teve um grande impacto na sociedade. No futebol, nós nunca pensamos em racismo. Se alguns idiotas estavam gritando alguma coisa, você percebia, mas isso não recebia a mesma atenção que tem hoje”, afirmaria Jürgen Klopp, em livro recente sobre jogadores africanos. Em 2014, um grande grafite com o rosto de Yeboah seria pintado em Frankfurt. “Temos vergonha de todos que gritam contra nós”, dizia a inscrição. O ganês esteve presente na inauguração da arte e se disse emocionado.

Em 1992/93, Yeboah seria um dos principais rostos na campanha que (enfim) marcou o início de uma ação mais incisiva da Bundesliga e da DFB contra a discriminação. Nos meses anteriores, vários atentados foram registrados no país contra estrangeiros, enquanto o discurso xenofóbico se reforçava entre partidos políticos extremistas. Os principais ataques aconteceram em Rostock, onde houve um cerco de centenas de neonazistas a um prédio onde viviam refugiados (sobretudo vietnameses) em busca de uma nova vida. O confronto com a polícia, que protegia o edifício, durou cinco dias. Ao todo, 370 pessoas foram presas e 204 policiais se feriram. Apesar das pedras e dos coquetéis Molotov atirados contra o prédio, nenhum refugiado morreu. A partir de então, houve uma ação mais dura do governo contra movimentos neo-nazis.

DFB e Bundesliga lançaram na época a campanha “Mein Freund ist Ausländer” – ‘meu amigo é estrangeiro’, em tradução livre. A seleção alemã disputou um amistoso contra um time formado pelos melhores jogadores estrangeiros da Bundesliga, destinando a arrecadação a iniciativas sociais. Além disso, em uma rodada do campeonato, os 18 clubes substituíram seus patrocínios pelo slogan da campanha. Jogadores como Sané e Yeboah estamparam a mensagem, assim como outros negros que começavam a brilhar no país, como Jay-Jay Okocha e Paulo Sérgio.

Paulatinamente, os casos de racismo se reduziram nos estádios da Alemanha. Ver jogadores negros em campo na Bundesliga deixou de ser algo excepcional ainda na década de 1990. A integração se ampliaria dentro do futebol e da sociedade, e a própria seleção local se tornou um símbolo da diversidade – com a presença de Leroy Sané, um dos filhos de Souleymane. Não quer dizer, porém, que o futebol alemão está livre da discriminação ou que não possa entrar em debates mais amplos. Há uma necessidade de mudança na própria estrutura, afinal, para ser cada vez mais inclusiva e representativa.

Campanha “Mein Freund ist Ausländer”, da DFB e Bundesliga, na temporada 1992/93

Desde 1992/93, a Bundesliga e a DFB encabeçaram outras ações contra o racismo e o preconceito. Há diferentes projetos que as entidades apoiam e também doações regulares a causas sociais. Por si, entretanto, estes atos não deveriam deixar a consciência dos cartolas limpa. Pelo contrário, a organização do futebol alemão se mostrou razoavelmente permissiva com casos de racismo recentes no país.

Não houve uma punição efetiva ao presidente do Schalke 04, com declarações racistas em evento fora do clube, e os gritos discriminatórios contra Jordan Torunarigha no duelo entre Schalke x Hertha, pela Copa da Alemanha, renderam apenas uma multa por parte da federação. Por exemplo, não se notou uma reação tão contundente quanto nos insultos contra Dietmar Hopp, presidente do Hoffenheim. E, em fevereiro, o próprio presidente da DFB chegou ao cúmulo de dizer que “o racismo é um problema mais antigo na Inglaterra e na Holanda”.

Se a federação raciocinar o mínimo e usar o obrigatório bom senso, as manifestações dos jogadores neste final de semana não resultarão em punições. No entanto, a mera dúvida já representa um erro tremendo, que faz as demais ações da DFB e da Bundesliga soarem como hipocrisia. Há algumas semanas, os dirigentes agiram incessantemente junto ao poder público, defendendo que a volta do campeonato garantiria uma “alegria” à população alemã – embora todos soubessem que o interesse era financeiro. Já quando o Campeonato Alemão desfruta de uma visibilidade inédita e poderia reforçar exatamente esse papel social do futebol, um esporte feito para todos, a cartolagem age de forma insensível. O julgamento vai contra si mesmo.

O posicionamento, além do mais, reforça a ideia de que os jogadores são apenas peças na máquina de fazer dinheiro da Bundesliga. Isso já tinha sido questionado durante o retorno das atividades, quando os riscos à saúde se tornaram menos importantes que as perdas de milhões de euros pela liga. Agora, a federação transmite que o dever dos atletas é apenas cumprir sua função em campo, sem o direito de se manifestar e apresentar o lado do futebol que vai muito além do mero jogo. Os dirigentes pensam que eles são mais importantes ao esporte que os futebolistas, quando é justamente o contrário. E essa expressão dos protagonistas é que verdadeiramente enriquece o futebol.

Marcus Thuram se ajoelha em homenagem a George Floyd após gol pelo Borussia Mónchengladbach

“Se você vê isso realmente como uma afirmação política, não sei o que dizer. A liga e todos no futebol pregam o ‘não ao racismo’. Então, não pensei que haveria problema. Se precisar assumir as consequência de expressar meus sentimentos, defender o que acredito, é algo que tenho que fazer”, declarou ainda McKennie. “Continuarei prestando tributo a George Floyd de alguma maneira e não só a ele, mas a todas as mortes sem sentido que acontecem nessas situações. Acredito que os atletas têm uma das maiores plataformas para influenciar e, se as pessoas não gostarem, não precisam seguir. Eu não deveria mudar minha crença e minha opinião com base nas pessoas que me seguem. Não funciona assim”.

Por sorte, o futebol alemão não é feito apenas pelos engravatados da DFB e da Bundesliga – que preferem a hashtag de um publicitário sob o ar condicionado de seu escritório a uma manifestação autêntica sobre o gramado, atingindo com muito mais força as pessoas que assistem àquilo. McKennie, Sancho, Hakimi e Thuram receberam amplo apoio por seus posicionamentos, sobretudo de outros personagens do futebol. Como afirmou Oliver Kahn, atual membro da diretoria do Bayern: “Por vezes, desejo que os jogadores assumam ainda mais responsabilidades. Eles devem falar e expressar suas opiniões sobre questões sociais. Podem enviar sinais muito, muito importantes”.

Os clubes são ainda mais ativos que as entidades em suas responsabilidades sociais. Da mesma forma, as torcidas realizam uma série de ações em suas comunidades, como bem visto durante a pandemia. E, neste contexto, felizmente há um ambiente majoritariamente aberto ao que pensam os jogadores para ampliar o debate e a luta. Não é a repreensão da federação que calará McKennie, Sancho, Hakimi e Thuram. Assim como não foi a inação da organização que impediu Sané, Baffoe e Yeboah de encabeçarem aquela faísca da transformação nos anos 1990.