A Bundesliga já tem data para recomeçar: 16 de maio. Após a permissão do governo alemão para que as duas primeiras divisões sejam reiniciadas, nesta quinta-feira a organização da liga divulgou sua nova tabela. A retomada terá logo no sábado o clássico entre Borussia Dortmund e Schalke 04, no Signal Iduna Park. O primeiro final de semana ainda verá um interessante choque entre Union Berlim e Bayern de Munique. As nove rodadas restantes serão distribuídas por sete finais de semana, até 27 de junho, com duas rodadas deslocadas para a quarta-feira. No entanto, ainda que os dirigentes abram o sorriso, a posição está longe de ser uma unanimidade. O futebol fica entre a vanguarda ou o laboratório, o privilégio ou o front.

O maior interesse da DFL (a entidade que administra as duas primeiras divisões na Alemanha) se concentrava sobre o dinheiro da televisão. Por mais que não existam perspectivas de reabrir os portões nos estádios a curto prazo, a organização da Bundesliga desejava diminuir o impacto financeiro da crise com a manutenção dos contratos de transmissão. Isso será possível e, com o retorno do Campeonato Alemão antes das outras grandes ligas na Europa, é provável que novas alternativas comerciais surjam aos clubes locais. Apesar do abalo na estrutura econômica mundial, a Bundesliga se coloca na dianteira e aumenta sua visibilidade. Poderá se restabelecer mais rapidamente, em comparação aos demais torneios.

Com os estádios vazios, a própria oferta do futebol na televisão aberta aumentará na Alemanha. Principal detentora dos direitos de transmissão, a Sky Sports confirmou que transmitirá os jogos nas duas próximas rodadas em seu canal aberto, e não apenas aos assinantes dos seus serviços. Uma das justificativas é “evitar aglomerações nas imediações dos estádios”, como ocorreu no clássico entre Colônia e Borussia Mönchengladbach, único jogo-fantasma anterior à paralisação. Por tabela, também amplia-se o mercado da liga, sem perder a possibilidade de ganhar novos assinantes na sequência da competição, quando a exclusividade voltar ao canal fechado.

“Logicamente, isso é uma história bacana. Estou feliz com a decisão da Sky. Acredito que eles estão tomando um passo muito especial, ao levarem em consideração essas condições. Mesmo durante a paralisação, a Sky reagiu muito rapidamente”, declarou Christian Seifert, chefe da DFL. A próxima rodada não terá o tradicional horário da sexta-feira na Bundesliga. Em compensação, a competição retomará as partidas de segunda-feira – uma alternativa interrompida por conta dos seguidos protestos das torcidas nas arquibancadas.

Um ponto de fricção acontece ao redor da Copa da Alemanha. Organizadora da competição, a DFB (a federação alemã) se sentiu ignorada pelas discussões entre liga e autoridades governamentais. Restam apenas mais três partidas para a conclusão do torneio, mas nenhuma data foi realmente apontada. A Pokal deverá se encaixar nas quartas-feiras livres do calendário. Outra disputa que segue em aberto são os playoffs contra o rebaixamento, entre o 16° colocado da primeira divisão e o terceiro da segundona. A tendência é que esses duelos ocorram durante o mês de julho, quando as demais equipes estarão em férias, descansando para a retomada das atividades em agosto.

Alguns clubes também foram contrários à volta da Bundesliga já na próxima semana. Embora os treinos tenham recomeçado juntos, em abril, nem todos os governos estaduais concederam permissão para que os elencos voltassem a realizar suas atividades normais. Algumas equipes seguem restritas a exercícios em grupos menores e separados. Há uma clara desvantagem na preparação, que deixa alguns times à frente de outros em nível competitivo.

Nos estádios, apenas 322 pessoas serão permitidas a cada partida. Esse contingente se dividirá não apenas entre os clubes, mas também contará os profissionais de imprensa, de segurança, de serviços emergenciais e até mesmo os gandulas. Aglomerações nas arquibancadas permanecem proibidas na Alemanha até agosto, pelo menos. Torcedores que vão ao estádio são deixados à parte e, até por isso, se colocam como os principais opositores ao projeto de retorno. Diversos grupos de ultras se posicionaram contra a ideia, especialmente pela forma como a Bundesliga acaba sendo dependente do dinheiro da televisão.

Vale lembrar também que a roda da fortuna não girará de maneira igual dentro do futebol. Clubes da terceira divisão para baixo e do futebol feminino seguem sem perspectivas, já que dependem muito mais do público em seus estádios para fazer dinheiro. Além disso, sem gente se dirigindo às arquibancadas, há uma parte paralela da economia boleira que segue sem funcionar – como restaurantes, lojas e outros estabelecimentos ligados ao futebol. A retomada da Bundesliga, é sim, importante para que milhares de empregados não percam seus empregos ou sofram cortes salariais. De qualquer forma, sustenta a parte mais abastada do esporte.

Quem segue em risco são jogadores e funcionários. O plano sanitário da DFL, autorizado pelo governo da Alemanha, se volta principalmente aos procedimentos de prevenção aos clubes. A liga promete realizar cerca de 25 mil testes durante as próximas semanas, para manter a situação controlada. Na primeira bateria de exames, foram dez casos positivos em 1,7 mil resultados. Nesta quinta-feira, a segunda bateria revelou mais duas pessoas infectadas. Os elencos deverão se manter isolados, para evitar o contágio. E que a situação da doença na Alemanha apresente um cenário favorável, o programa da Bundesliga possui suas lacunas.

Por exemplo, nem todos os profissionais envolvidos com os jogos foram testados. Restando pouco mais de uma semana à retomada, os árbitros não passaram por exames. Também são vagos os termos sobre os atletas que testarem positivo já na concentração às partidas. Os clubes não necessariamente deverão botar seu elenco inteiro em quarentena. A decisão caberá ao estado da federação no qual o time está sediado e, caso o plantel mantenha um número mínimo de futebolistas à disposição, suas partidas não deverão ser remarcadas. Até existe margem a manobras no calendário, considerando as cinco quartas-feiras livres. Contudo, postergar jogos rumo a julho também poderá significar implicações legais à Bundesliga, considerando que os contratos de muitos atletas se encerram em 30 de junho.

Os entraves jurídicos ou de datas, ainda assim, parecem questões menores quando se pensa nas consequências à saúde que o coronavírus pode trazer. Mesmo com os protocolos estritos, os jogadores e funcionários não estão livres dos riscos, assim como isolamento parcial também pode afetar pessoas próximas. Até o momento, poucos atletas se posicionaram contra a retomada da Bundesliga e a conclusão da temporada –  o que não significa que estão isentos das preocupações. A maioria se submete a um “laboratório”, dentro de uma realidade que não garante todas as respostas em caso de contágio.

As declarações mais repercutidas nos últimos dias foram de Birger Verstraete, meio-campista do Colônia. “Saúde primeiro, depois futebol. A saúde da minha família, da minha namorada e de todo mundo, na verdade, é o mais importante. Não cabe a mim decidir o que fazer com a Bundesliga, mas posso dizer que minha cabeça não está no futebol”, declarou o belga a um canal de televisão de seu país, ao comentar que trabalhou com pessoas que testaram positivo no Colônia e que sua namorada faz parte do grupo de risco. Posteriormente, o clube se posicionou para esclarecer o episódio e Verstraete voltou a falar, dizendo que “talvez fosse melhor conversar com o médico do que dar uma entrevista emocionada”. Mas é um lado humano que acaba eclipsado.

E o grande volume de testes direcionado aos jogadores também gera outros entraves. O futebol se insere dentro de um privilégio que não se nota em outros setores da sociedade, inclusive a trabalhadores essenciais. Policiais ou profissionais de saúde não são tão testados quanto ocorrerá com os futebolistas, mesmo atuando em áreas que os colocam ainda mais em risco. Grupos de torcedores se posicionaram contra tal postura dos dirigentes e das autoridades, quando há necessidades maiores da população. Parte da população seguirá em casa, enquanto o futebol ganha permissão para funcionar.

Se os jogadores de futebol não deveriam ser vistos como “protegidos” e nem como “super-humanos” imunes à doença, suas opiniões e preocupações também poderiam ter sido levadas mais em conta. É verdade, o valor de seus salários cria a maior pressão para evitar o prejuízo financeiro e para voltar a campo. Mas não é o fato de receberem mais do que a maioria da população que deveria deixar à parte suas sugestões sobre o que acontecerá na Bundesliga ou mesmo negar uma possibilidade de negociação coletiva sobre o assunto. Há muito mais gente envolvida, afinal, que têm o direito à voz.

Segundo o secretário-geral da FIFPro, entidade que representa os futebolistas ao redor do mundo, “um grande número de jogadores da Bundesliga” apresentou suas preocupações à organização. “Claramente, é preciso haver mais diálogo e mais consenso em fazer com que os jogadores não apenas entendam os protocolos, mas também que se sintam confortáveis com o fato de que essas medidas são realmente apropriadas para proteger sua saúde”, afirmou Jonas Baer-Hoffmann, em entrevista à Deutsche Welle. “Eles têm o direito de expressar suas opiniões. Não precisam apenas acompanhar o fluxo que se espera deles. É uma situação muito particular e todos têm a responsabilidade de gerenciar essa crise juntos”.

A Bundesliga, é lógico, tem ganhos com sua retomada – e os principais deles são financeiros. Embora já tenham perdido dinheiro com a paralisação e com os estádios vazios, os clubes alemães evitarão um prejuízo de mais €300 milhões com a volta das duas primeiras divisões. Isso permitirá que muitas agremiações acertem suas finanças e fujam da bancarrota. Dirigentes de outros cantos da Europa, entre eles o presidente da Uefa, parabenizaram a DFL por “dar um exemplo” a outros cantos. A sensação de voltar a vida ao normal aumenta e, sem dúvidas, os jogos na Alemanha serão mais visados ao redor do mundo. O futebol se beneficia por políticas públicas e por um preparo à pandemia que, na verdade, são méritos do governo alemão.

Em contrapartida, assim como muitos dos desdobramentos relacionados ao coronavírus, o grau de incerteza é considerável. O consenso entre os médicos da liga e o Ministério da Saúde não significa que a Bundesliga está isenta dos riscos. Se algo acontecer, pelo plano atual, a consequência será mais individual do que coletiva. Agora, a saúde das pessoas envolvidas diretamente com o futebol estará mais em jogo do que os lucros. O tamanho do erro ou do acerto? A resposta virá com o passar das semanas. Mas muita gente ainda não aprova essa forma de ver o futebol como algo mais importante do que vidas.

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