Todo mundo está cansado de saber: os primeiros meses do futebol brasileiro têm efeito pouco prático àquilo que se vivenciará no restante da temporada. Aos principais clubes do país, os estaduais são meros paliativos, que não significam necessariamente qual será o jogo de forças no Brasileirão ou na Copa do Brasil. De qualquer maneira, é um momento de preparação. E após semanas tão intensas no mercado de transferências, que reviraram diversas equipes, as expectativas naturalmente se elevam para saber quais os primeiros passos desses novos trabalhos. O Santos, nesta precocidade, prende a atenção. Mesmo sem contratar tanto, acrescentou bons jogadores ao elenco desde o último ano. Além do mais, possui um treinador que, fracasso na Copa à parte, está entre os melhores do continente na década. Entusiasmo que se respaldou neste domingo, com a vitória por 2 a 0 sobre o São Paulo.

Não é apenas o resultado que coloca o Santos em evidência, mas a maneira como ele veio. A maneira como o Peixe teve o domínio do jogo, como atacou com fluidez, como foi bastante intenso, como manteve a confiança ao longo dos 90 minutos. O São Paulo, assim como seus rivais, é um time em construção. No papel, possui até melhores opções que os santistas, embora nem todos os reforços estivessem disponíveis. De qualquer maneira, as peças parecem se encaixar rapidamente na Baixada. E o trabalho de Sampaoli começa a tomar forma, apesar de semanas intranquilas, seja por pressão exagerada de parte da imprensa ou realmente por entraves internos.

O mais importante é que o Santos apresenta logo de cara um plano de jogo. E isso se notou pela maneira como o time preencheu os espaços contra o São Paulo. Soube atuar com a bola e ainda mais sem ela para criar as suas ocasiões, bem mais numerosas que os tricolores. Os gols naturalmente aconteceram, mesmo que também tenham se valido de desleixos são-paulinos atrás. De qualquer forma, o jeito como os santistas neutralizaram os rivais e tiveram controle das situações representa bastante esta calmaria. A leitura que Sampaoli fez da partida, especialmente no segundo tempo, e as suas alterações bem feitas encaminharam a vitória, com gols de Luiz Felipe e Derlis González.

Se não é feito dos melhores jogadores, o Santos oferece opções a Sampaoli. Vanderlei, independentemente dos imbróglios sobre seu jogo com os pés, permanece como um dos melhores goleiros do país. Jean Mota começa muito bem o ano, Gustavo Henrique é um zagueiro de enorme potencial e Diego Pituca tende a se encaixar bastante na filosofia de jogo do argentino. Ainda assim, entre aqueles que ganham minutos, os estrangeiros merecem menção especial. Carlos Sánchez já tinha sido uma das melhores contratações do futebol brasileiro em 2018, pelas virtudes que combina. Derlis González foi um achado no mercado e não surpreenderá se virar um “Eduardo Vargas” de Sampaoli. Yeferson Soteldo tem uma qualidade técnica acima da média e isso facilita a sua adaptação. Se não tem craques badalados, o Peixe desfruta de atletas inteligentes e de bom nível. Quem podem render ao máximo, em um time bem montado. E o verdadeiro diferencial retornará em breve, Rodrygo, com a seleção sub-20.

O futebol brasileiro, é claro, não permite prognósticos tão assertivos. Ainda mais quando esse Santos supera as expectativas sobre aquilo que se projetava ver no começo do ano, não apenas por ser um time que se desenvolve, mas também por ter um treinador estrangeiro que chega ao Brasil – entre as adaptações, as cobranças normalmente exageradas e a bagagem recente que já trazia. Ao menos por enquanto, Sampaoli tira de letra. E se não dá para cravar quão longe pode chegar este Peixe, ou mesmo se chegará (considerando sobretudo a exigência física de um plano de jogo desses, algo que nosso calendário inchado pode dilapidar), o trabalho sugere atenção. Atenção que pode sair algo diferente das mesmices, atenção que pode valer o ingresso ou os minutos diante da TV – o que nem sempre é o praxe, até com alguns dos melhores times do país.