O Sport é clube de Série A. Foi assim durante a maior parte de sua história e voltará a ser a partir de 2020. Depois de alguma espera, o Leão consumou o acesso na segunda divisão do Brasileirão nesta quarta-feira. Diante da Ilha do Retiro lotada, os rubro-negros viveram certo receio, ao saírem vaiados para o intervalo, com a derrota parcial contra a Ponte Preta. No entanto, a ascensão se confirmaria com festa plena no Recife. Os pernambucanos precisavam só do empate, mas arrancaram uma vitória emocionante nos acréscimos do segundo tempo. O triunfo por 2 a 1 tornou ainda mais trepidante a comemoração ensandecida dos recifenses, com direito a uma invasão massiva do gramado. É dia de celebrar a grandeza do Sport, que reafirma sua importância no cenário nacional, mesmo depois das incertezas recentes.

O Sport vinha de anos consistentes na primeira divisão, até o rebaixamento em 2018. Foram cinco campanhas consecutivas até a queda, que escancarava tempos turbulentos de crise financeira e política na Ilha do Retiro. Apesar dos temores quanto à receita reduzida e aos salários atrasados, o Leão da Ilha superou os percalços para se colocar no topo da Segundona. Em uma edição do campeonato na qual o Red Bull Bragantino pintava como uma exceção, por todo o seu investimento, os recifenses conseguiram se manter acima dos demais concorrentes. O acesso veio com uma rodada de antecedência.

O Sport nem sempre apareceu no G-4, é verdade. A campanha começou um tanto quanto errante, pelo excesso de empates durante o primeiro turno. Até o 14° jogo, os pernambucanos haviam empatado oito vezes. Apesar das oscilações, Guto Ferreira se segurou no cargo, após conquistar o estadual. E o treinador cumpriu seu objetivo com os votos de confiança. Logo no início do segundo turno, o Leão da Ilha se firmou na zona do acesso. Passou garantir vitórias de maneira mais constante e aos poucos galgou degraus. Assumiu a terceira colocação em setembro, passou à vice-liderança em outubro e a espera em novembro era mesmo pela festa.

No domingo, a Ilha do Retiro havia se preparado à comemoração. O Sport recebia o Vila Nova, vice-lanterna, e garantiria o retorno à elite com uma vitória. Porém, a equipe não passou de um empate sem gols e precisou adiar a invasão do gramado. Nesta quarta, outra vez, a Ilha estava cheia. Um empate bastaria contra a Ponte Preta, sem pretensões no campeonato. Mas a Macaca não queria ser apenas convidada da festa e assustou ao longo do primeiro tempo. Roger abriu o placar aos indigestos visitantes. Na melhor chance dos rubro-negros, Guilherme perdoou. E a torcida vaiou, diante dos erros excessivos da equipe desconcentrada. De novo, o time dava sinais de falhar na hora decisiva.

Não seria assim no segundo tempo. O Sport voltou com mais agressividade e empatou aos 14 minutos. Guilherme apareceu. O grande destaque do time na campanha pegou a bola na entrada da área e mandou no cantinho. Já era suficiente ao acesso. A Ponte não se entregou. Luan Polli realizou uma grande defesa, antes de um gol anulado dos ponte-pretanos. Já aos 30 minutos, uma confusão generalizada rendeu duas expulsões para cada lado. O tumulto pareceu tirar o embalo da Macaca, que teria outro expulso aos 39. A vantagem numérica iniciou a contagem regressiva na Ilha.

A torcida do Sport sabia o que aconteceria. Começou a celebrar o retorno à Série A bem antes do apito final. E teria mais motivos para gritar nos acréscimos, com mais uma participação decisiva de Guilherme. O atacante aproveitou um rebote de Ygor e confirmou tudo de uma só vez: a vitória era o complemento perfeito para a euforia do acesso.

Por fim, bastava o apito final. E o som tão esperado permitiu que centenas de torcedores corressem desenfreadamente ao gramado. Uma cena bonita, que sublinha a paixão ao redor do Sport. Até houve certa correria dentro de campo em um momento, mas sem nenhuma confusão aparente. A multidão estava lá para descarregar sua alegria. Será assim durante o resto de uma madrugada sem hora para terminar em Recife. O Leão da Ilha voltará ao lugar que merece.

Sem muito dinheiro em caixa e com dívidas pesadas, o Sport ainda conseguiu montar um elenco com vários nomes conhecidos. A lista de jogadores com passagens por outros grandes clubes é considerável. Muitos dos reforços neste ano vieram por empréstimo, em estratégia para enxugar a folha de pagamentos. Contudo, a equipe não tinha margem aos erros, sob o risco de passar mais um ano sem as receitas da primeira divisão, o que renderia uma conta mais cara depois. Por toda a injeção financeira que representa, a Série A era uma necessidade.

Emprestado pelo Grêmio, Guilherme se confirmou como principal herói da campanha. O ponta de 24 anos anotou 17 gols, se isolando na artilharia da Série B. Seu rendimento cresceu especialmente nesta reta final. Ao longo do último mês, marcou cinco gols e deu uma assistência aos sete tentos do Leão da Ilha no período. Hernane Brocador foi outro a brilhar. O centroavante correspondeu com gols e balançou as redes 14 vezes. Em compensação, a campanha na Segundona marcou a saída litigiosa do ídolo Magrão, que entrou na justiça por conta de seus direitos trabalhistas.

Antes de começar a planejar o ainda instável futuro, o Sport está no direito de farrear. E poucos sentimentos são tão bons quanto conquistar um acesso. Mais do que uma erupção, é um alívio. Os rubro-negros terão outros desafios a cumprir em 2020, mas não precisarão mais se preocupar com a purgação que é passar um ano longe dos principais clubes do país. Voltam em grande estilo, abrem horizontes e fortalecem a presença do Nordeste na primeira divisão. Pernambuco precisava.