Eram muitos sentimentos misturados. O susto com a aparição surpreende de um manifestante, a indignação com a falta de segurança, o medo de o tal manifestante estar armado, o constrangimento com a piada que virou a entidade que ele próprio comanda. O semblante de Joseph Blatter durante a aparição do comediante que atirou dinheiro para o alto durante um pronunciamento serviu de imagem perfeita do que tem sido os últimos meses do mandachuva da Fifa. Talvez só tenha faltado ele pular em direção às notas com cara de Gollum e falando “my precious”, mas não dá para pedir tudo.

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O importante é que o conteúdo de seu pronunciamento também foi um resumo do que se tornou a Fifa. Blatter reiterou que continuará na presidência da entidade até 26 de fevereiro de 2016, quando será realizada uma nova eleição. Em um momento mais ousado, o suíço também determinou que os presidentes de federações nacionais deverão ter limite de eleições e salários divulgados publicamente. A medida visa dar mais transparência ao comando das entidades que gerem o futebol mundial.

O que isso tudo significa? As exigências em cima dos presidentes de federações soam como uma satisfação para a opinião pública. A questão é que ela não é um regulamento que limpe a entidade, ele apenas promove um rodízio que, teoricamente, pode levar a uma melhoria nos quadros que comandam o esporte mais popular do planeta. A gestão interna da Fifa é que precisa mudar, e Blatter mostrou pouca vontade de promover isso.

Perguntado se levaria a público seu próprio salário, o suíço respondeu que sim. Mas só o faria quando outros o fizessem, como uma criança que só vai atender a ordem dos pais de comer o espinafre se o irmão fizer antes. Essa atitude quase birrenta de Blatter mostra o quanto ele não acredita realmente no que está dizendo e como ele ainda quer dar um jeito de manter as coisas como estão.

Uma sensação que fica ainda mais forte com a manutenção da data de eleição da Fifa, daqui sete meses. O prazo extremamente esticado (nem um país como a Índia demora tanto tempo para organizar uma eleição) dá ao atual presidente da Fifa mais tempo para articular sua sucessão. Dentro da própria entidade há figuras interessadas em assumir o comando (Jérôme Valcke é o exemplo mais óbvio) e é fundamental ter tempo para reorganizar a casa.

Um pleito de emergência ainda estaria influenciado pelo arrastão que o FBI realizou no segundo escalão da Fifa, o que favoreceria algum concorrente que já esteja dentro da cartolagem, mas sem envolvimento direto nos escândalos investigados pelos norte-americanos. O grupo mais provável viria da Uefa (provavelmente Michel Platini), que já tem articulação e passou relativamente ileso dessa primeira fase das denúncias de corrupção na Fifa.

Por isso, a única real surpresa de seu pronunciamento desta terça foi o manifestante atirando dinheiro. De conteúdo mesmo, Blatter não trouxe nada de novo.