O Leicester City aparece na história do Campeonato Inglês como um clube que viveu na gangorra entre as duas principais divisões. As Raposas são, ao lado do Manchester City, a equipe com mais títulos (7) e mais acessos (11) na Segundona, além de também ter uma conquista da Terceirona em 2009. Assim, mais do que o título da Premier League, o time de Claudio Ranieri persegue o ápice dos 132 anos do clube. Uma conquista inédita, mas que chegou a ser palpável em décadas passadas.

VEJA TAMBÉM: Jogador por jogador, como o Leicester montou o time que surpreende na Premier League

Em 48 temporadas na elite do Campeonato Inglês, o Leicester já figurou três vezes entre os quatro primeiros da tabela. As duas primeiras aconteceram no fim da década de 1920. A equipe terminou em terceiro na Football League de 1928/29, cinco pontos atrás do campeão Everton. Já na temporada seguinte, as Raposas viveram a melhor campanha de sua história com o vice-campeonato nacional, a um ponto de superar o Sheffield Wednesday. Por fim, a terceira aparição no Top 4 foi alcançada por um time que, para muitos torcedores, é o melhor do Leicester em todos os tempos. Os célebres ‘Reis do Gelo’ de 1962/63, que compartilham várias semelhanças com o grupo atual.

Durante os anos 1960, o Leicester atravessou a sua década de ouro. O clube desfrutou sua maior estabilidade na primeira divisão, com 12 participações consecutivas. Além disso, também conquistou o seu primeiro título de elite, a Copa da Liga Inglesa de 1963/64 (que voltaria a erguer em 1997 e 2000), e chegou a três decisões da Copa da Inglaterra. Já a grande campanha na Football League aconteceu em uma temporada completamente atípica. Naquele ano, a Inglaterra viveu o inverno mais rigoroso do Século XX. E a capacidade para jogar nos gramados castigados, assim como para lidar com os transtornos no calendário, manteve as Raposas no topo durante uma parte da competição.

1963 4

O Leicester City surgia em ascensão desde o final da década de 1950, quando o ex-capitão Matt Gilles logo se tornou treinador. Respeitando a tradição escocesa, o novo comandante trouxe um estilo de futebol mais solto ao time, inspirado por aquilo que a Hungria havia feito anos antes. As Raposas atuavam na tradicional formação WM, mas sem posições tão fixas. O jogo da equipe se potencializava pela capacidade dos jogadores em se adaptar a diferentes funções, o que costumava causar rombos nas defesas adversárias. Além disso, trabalhava a bola com passes rápidos, de maneira bastante vertical.

VEJA TAMBÉM: O Leicester ofereceu um sábado especial a pequeno torcedor que acabara de perder a mãe

Individualmente, aquele Leicester também contava com grandes valores. A começar pelo mítico Gordon Banks, trazido do Chesterfield e que começava a se projetar aos 24 anos.  O sistema defensivo funcionava principalmente pela capacidade de leitura Frank McLintock na direita, avançando bastante e contando com a inteligência de Graham Cross (recordista em jogos pelo clube) para ocupar seu espaço. Trazido do Hibernian, Dave Gibson assumiu o papel de cérebro das Raposas na armação. Já o ataque dependia do faro de gol do centroavante Ken Keyworth, enquanto Mike Stringfellow se sobressaiu como incisivo ponta direita.

No entanto, assim como o elenco atual, o Leicester de 1962/63 era composto de ilustres desconhecidos para o resto do país. O ponta Howard Riley veio do time do exército; o capitão Colin Appleton chegou a conciliar os treinos com os serviços como aprendiz de carpinteiro; Ian King trabalhava em uma mina de carvão até se profissionalizar; e McLintock ainda fazia expediente como pintor quando o time foi vice da FA Cup, em 1961 – ajudando até a pintar os refletores do antigo estádio. E se a contratação de Riyad Mahrez só aconteceu quando, por acaso, o olheiro do clube tinha ido observar Ryan Mendes na França, o mesmo aconteceu com o “Mahrez de 1962/63”. A transferência de Gibson, na verdade, atravessou outro negócio antes planejado pelas Raposas.

Já outra característica compartilhada em relação ao time atual está no espírito do grupo. A união promovida por Gilles é ressaltada por todos os veteranos do antigo elenco. “O espírito era ótimo. Nós costumávamos sair juntos após as partidas. Nós éramos muito ligados. Éramos amigos, em campo e fora dele, e continuamos amigos até hoje. Isso é algo enorme. Se os times são assim, é meio caminho andado”, pontuou o defensor Richie Norman, em entrevista ao jornal Leicester Mercury. Visão complementada por Stringfellow: “Ganhávamos todos juntos e perdíamos todos juntos. Não havia estrelas. Bons jogadores sim, mas nenhuma estrela”.

1963 3

Ao longo da primeira metade da temporada, o Leicester apareceu como um bom figurante no Campeonato Inglês. O toque de bola pregado por Matt Gilles dava os resultados e o time conquistou 11 vitórias e sete empates nas primeiras 23 rodadas. A vitória por 5 a 1 sobre o Leyton Orient no Boxing Day colocou as Raposas na quinta colocação. Até que o inverno virasse a liga do avesso a partir do segundo turno.

VEJA TAMBÉM: Ranieri dá lição em entrevista para explicar sucesso do Leicester: simplicidade e vontade

O frio rigoroso no mês de janeiro deixou as temperaturas costumeiramente abaixo dos – 10º C. E o clima intenso, que chegou a congelar até mesmo uma parte do mar próxima à costa, prejudicou os estádios. Um total de 261 jogos entre equipes profissionais precisou ser adiado. O Blackpool chamou o exército para descongelar o seu gramado com lança-chamas, enquanto o Halifax Town transformou sua casa em um rinque de patinação. Assim, outro personagem fundamental para o sucesso do Leicester não calçava chuteiras ou usava pranchetas. Bill Taylor, o homem que cuidava do campo no Estádio Filbert Street, soube lidar melhor com o inverno do que qualquer outro colega do Campeonato Inglês – embora tenha prejudicado o solo para as temporadas posteriores.

Taylor replantou o gramado no início da temporada e passou a utilizar uma mistura de fertilizantes com herbicidas para mantê-lo. Pois a química na vegetação resistiu melhor às baixas temperaturas de janeiro. Durante 10 dias de nevasca, o campo permaneceu inutilizável. Entretanto, o Leicester convocou os seus torcedores, que tiraram a neve do gramado, e permitiram ao jardineiro conseguir recuperar o seu estádio antes da maioria dos adversários da primeira divisão. Assim, enquanto alguns clubes passaram mais de dois meses sem jogar em casa, as Raposas voltaram em 45 dias – treinando em quadras ou na litorânea Brighton neste intervalo. Em 9 de fevereiro, o time de Matt Gilles voltava a Filbert Street derrotando o Arsenal por 2 a 0. Os Reis do Gelo surgiam naquele momento.

1963 2

Desde o triunfo sobre o Leyton, o Leicester emendou sete vitórias seguidas na liga e 12 jogos de invencibilidade, assumindo a segunda colocação. Gilles mudou um pouco o estilo de sua equipe atuar, privilegiando mais as bolas longas a partir da defesa, já que os gramados não ajudavam os passes mais curtos. Enquanto isso, Bill Taylor continuava fazendo a diferença no cuidado com o campo. Os jogadores conheciam os atalhos, incluindo a parte que permaneceu congelada por causa da sombra das arquibancadas. A ponto de Banks levar para as partidas duas chuteiras com travas diferentes, esperando saber qual lado do campo defenderia, para se adaptar melhor ao solo.

VEJA TAMBÉM: Já está na hora da Fifa criar o Prêmio Banks e exaltar também a lenda que luta contra câncer

A vitória mais emblemática da sequência aconteceu em 3 de março, batendo o Liverpool de Bill Shankly por 2 a 0 em Anfield. Segundo Dave Gibson, em sua biografia, o time “silenciou a torcida com um triunfo soberbo, de grande técnica e futebol fluido”. Já a imprensa passou a cunhar o Leicester como os ‘Campeões da Era do Gelo’ e os ‘Mágicos de Midlands’. “Os heróis de £ 65 mil do Leicester City desencadearam 90 minutos do mais fantástico e original futebol que eu já vi. É um privilégio ter assistido a esse domínio da técnica e a esse disciplinado trabalho coletivo”, definiu Sam Leitch, no Daily Express. Já o Sportsmail comparou o padrão de jogo das Raposas com o Real Madrid, o Benfica e o Santos, “produzindo o mais avançado método do futebol britânico em três décadas e, se a surpreendente campanha continuar, podendo fazer mudanças tão revolucionárias quanto Herbert Chapman nos anos 1920”.

Restando oito rodadas para o final, o empate por 1 a 1 com o Blackpool levou o Leicester à liderança do Campeonato Inglês. E o time ainda fazia grande campanha na Copa da Inglaterra, sonhando com a dobradinha. Contudo, o fim do inverno deu ritmo de jogo e melhores condições aos demais concorrentes, que também puderam disputar os seus jogos adiados. Enquanto isso, as Raposas sofriam com as contusões em um elenco de pouca profundidade e com os seguidos compromissos fora de casa. Segundo Banks, ao jornal The Guardian, “o que deveria ser considerada uma temporada bem-sucedida deixou uma sensação de rebaixamento ao final”.

banksy

As últimas alegrias do Leicester aconteceram em abril. No dia 16, o time recuperou a liderança a cinco rodadas do final. Os azuis conquistaram uma marcante vitória por 4 a 3 sobre o talentoso Manchester United de Matt Busby em Filbert Street, com direito a hat-trick de Denis Law e também de Ken Keyworth – anotando os seus três tentos em apenas seis minutos. Todavia, o empate com o Wolverhampton quatro dias depois tirou as Raposas da ponta do Inglês, três pontos atrás do Everton. Já em 27 de abril, o Leicester recuperou um pouco do moral na semifinal da Copa da Inglaterra, diante do Liverpool. Graças a um contra-ataque, o time de Gilles venceu por 1 a 0. Mas os Reds de Bill Shankly mandaram na partida durante os 90 minutos. Pararam na atuação heroica de Banks, autor de mais de 30 defesas, incluindo um milagre nos acréscimos contra Ian St. John – classificado por McLintock como tão impressionante quanto o feito contra Pelé na Copa de 1970.

Só que, da possibilidade de levantar duas taças, o Leicester viu sua temporada acabar em tormenta. Os protagonistas Banks, Keyworth e Gibson se contundiram na reta final, afetando o rendimento do restante da equipe. Nas últimas quatro rodadas, as Raposas jogaram quatro vezes fora de casa e sofreram quatro derrotas, terminando o campeonato na quarta colocação, nove pontos atrás do Everton – que, por sua vez, havia emendado excelente sequência. E o abatimento afetou os azuis na decisão da Copa da Inglaterra. Apesar do favoritismo, diante da má temporada do Manchester United, foram derrotados pelos Red Devils por 3 a 1. Os Reis do Gelo derreteram logo após a chegada da Primavera.

A partir de então, o Leicester chegou a fazer figurações razoáveis no Campeonato Inglês, mas sem passar da sétima posição na tabela final. Só voltaria a ocupar a liderança 37 anos depois, de maneira efêmera, na oitava rodada da Premier League 2000/01. O time da década de 1960 ainda disputaria uma final da Copa da Inglaterra e duas da Copa da Liga, conquistando a taça desta em 1964. Mas as grandes glórias de seus destaques acabaram acontecendo com outras camisas: Banks foi herói na Copa do Mundo de 1966, enquanto McLintock capitaneou o Arsenal na dobradinha faturada em 1970/71.

Gordon-Banks-Main

Aquele time do Leicester, de qualquer maneira, deixa diversas lições para a equipe atual. É preciso se preservar fisicamente, sabendo das limitações do elenco. Além disso, as Raposas têm que criar a consciência sobre a sua missão a cada rodada. “Meu conselho é que eles joguem cada partida como se fosse a última, como se precisassem daquela vitória para ganhar o campeonato. Nós estivemos tão perto, mas tão longe. Essa é a nossa história, mas agora o Leicester tem todas as chances. Eu espero que eles consigam”, afirmou Richie Norman, ao Leicester Mercury. Essa vontade é justamente o que se observa a cada rodada, dentro e fora do Estádio King Power.

O Leicester de Claudio Ranieri, ao menos, já se acostumou a lidar com as expectativas. Os azuis somam 12 rodadas na liderança e, juntando a arrancada para se salvar da queda em 2014/15, fizeram 11 pontos a mais do que qualquer outro clube nas últimas 38 rodadas da Premier League. Desta vez, a reta final vai cobrar a sua exigência, mas sem o desgaste de qualquer outra copa no pacote. E sem que as condições atípicas do clima ou a bagunça no calendário influenciem a equipe de ilustres desconhecidos que vem surpreendendo a todos. Para honrar a memória dos velhos reis, esquecidos sem a taça.

leister