A última chance

Como eu falei semana passada, faltou pouco para o campeonato mais disputado da era dos pontos corridos terminar, ironicamente, com o campeão definido uma rodada antes do fim. O gol de Bernardo, aos 45 minutos do segundo tempo de um corrido Fluminense x Vasco acabou “salvando” o campeonato (no sentido de que ele será disputado até o seu final).

Não vou entrar no mérito da discussão sob a qualidade do campeonato. Eu discordo de quem acha que o campeonato é nivelado por baixo, assim como discordo de quem apregoa que é “a melhor liga do mundo”. O campeonato tem um nível bacana, com jogos muito bons, apesar de não termos aqui um supertime. Mas está longe de ser a melhor liga do mundo. Pode ser uma das mais equilibradas, principalmente no topo, isso é consenso.

Corinthians e Vasco se mantêm no topo e em condições de brigar pelo título porque montaram, ao longo do ano, times competitivos, com razoáveis opções no banco de reservas. Pesa em favor do time paulista o início avassalador (com 28 pontos conquistados de 30 possíveis, marca não igualada por ninguém ao longo do campeonato) que o mantiveram na liderança durante dois terços do campeonato. E mesmo quando tropeçou, os rivais mais próximos também o fizeram.

O Vasco teve uma boa temporada, e a união entre time e torcida se fortaleceu no AVC sofrido por Ricardo Gomes, justamente contra o Flamengo, no último jogo do turno. O que poderia ser um baque serviu para juntar mais o grupo. Cristóvão Borges fez o que se espera de um interino: não cedeu às pressões e manteve o trabalho no prumo. O desgaste nesta reta final acabou sendo natural, já que o principal articulador no meio-campo nos jogos decisivos tem sido Felipe, com 34 anos.

Se a gente olhar pela matemática, o Corinthians tem oito resultados em nove para ser campeão, uma vantagem nada desprezível. Porém, a CBF “mirou no que viu e acertou no que não viu” ao marcar a rodada final repleta de clássicos. Concordo que no caso de Rio e São Paulo, os clássicos poderiam ser mais espaçados (se a gente analisar, as tabelas de Vasco/Palmeiras e Corinthians/Flamengo são similares), mas por sorte, o campeonato chega ao final com um clássico paulista e um carioca pra definição. Melhor que isso, para o campeonato, só se o título estivesse em disputa em um desses clássicos.

Assim como para o título, clássicos locais podem selar o rebaixamento de Cruzeiro e Atlético Paranaense, na dependência ainda do duelo regional entre Bahia e Ceará. Não, não vou entrar nesse papo de mala branca, preta, azul, lilás. Isso é muito chato.

Que corra tudo bem no domingo. Que os árbitros interfiram o mínimo possível no andamento dos jogos. Que as torcidas saibam comemorar seus títulos. É só o que eu desejo.

E o craque do campeonato?

Com o fim do campeonato, começam as listas que apontam os melhores de cada posição no torneio, além do craque do ano. Os dois prêmios mais concorridos são a Bola de Prata, da revista “Placar”, com notas dadas por jornalistas da revista e da rede ESPN; e o “Craque do Brasileirão”, com votação de treinadores e jornalistas da Rede Globo.

Se nada sair do script, Neymar receberá todos os prêmios possíveis: um dos melhores atacantes e melhor jogador do campeonato nas duas disputas. Muito disso se deve ao ano espetacular que o camisa 11 do Santos teve, principalmente na Libertadores, quando foi decisivo na conquista santista.

Em que pese ter tido duas das melhores atuações individuais do campeonato (na derrota diante do Flamengo, 4 a 5 no primeiro turno; e na vitória sobre o Atlético Paranaense no segundo turno, 4 a 1), Neymar jogou poucas partidas no torneio – e oscilou em boa parte delas.

Daí olhamos para os times que estão no alto da tabela. Quem é o craque do Corinthians? Em um time em que o coletivo sobressai sobre o talento individual, fica difícil apontar um só jogador. No Vasco, embora Dedé seja o preferido absoluto da torcida, quem realmente dita o ritmo do time é o veterano Felipe, 34 anos. Diego Souza teve grandes atuações, mas na reta final, como de costume, tem deixado sua equipe na mão.

No Fluminense, Fred teve excelentes atuações na reta final, mas foi igualmente inconstante no campeonato como um todo. O mesmo se aplica a Ronaldinho e Thiago Neves, em um Flamengo que foi o símbolo de instabilidade no campeonato.

É fácil a gente analisar com a “muleta do se”. Mas quem estava vindo em uma crescente pra ficar com esse título até com unanimidade era Leandro Damião. Estava voando e carregando o Inter nas costas quando veio  a lesão. Se não fosse a contusão, tanto o atacante quanto o Colorado estariam vivendo dias melhores.

A minha seleção do campeonato, depois de ter refeito esta lista uma porção de vezes, e tentando analisar a competição como um todo (difícil para um torneio que dura seis meses e meio) é a seguinte: Jefferson (Botafogo), Bruno Vieira (Figueirense), Dedé (Vasco), Leandro Castán (Corinthians) e Bruno Cortês (Botafogo); Marcos Assunção (Palmeiras), Paulinho (Corinthians), Felipe (Vasco) e Wellington Nem (Figueirense); Neymar (Santos) e Leandro Damião (Inter). Jorginho, do Figueirense, foi o melhor técnico.

CURTAS

Acabou ficando mesmo com o Sport a última vaga na série A do ano que vem. Em um jogo que ganhou ainda mais dramaticidade por conta da tempestade que caiu sobre Goiânia no sábado, o rubro-negro pernambucano bateu o Vila Nova por 1 a 0 e garantiu acesso. No balanço final, dois paulistas e dois pernambucanos voltam à primeira divisão.

Para o descenso, acabou também dando a lógica: o Icasa, que tinha o compromisso mais difícil, perdeu para a campeã Portuguesa e acabou se juntando a Salgueiro, Vila Nova e Duque de Caxias no caminho difícil para a série C.

Recaem sobre Wilson Seneme e Péricles Bassols as atenções da última rodada. Os dois árbitros foram escalados para apitar Corinthians x Palmeiras e Vasco x Flamengo. Bassols apitou o clássico carioca também no primeiro turno e ignorou um pênalti de Léo Moura em Bernardo, aos 46 minutos do segundo tempo.

Semana que vem farei uma análise sobre as mudanças no calendário a partir de 2013 para a Copa do Brasil. De antemão, minha opinião: é melhor que nada. Mas enquanto os Estaduais tiverem 23 datas, não pode dar certo.

E com o fim iminente da temporada, começa a dança dos técnicos. Inacreditavelmente demitido do Botafogo a três rodadas do término do campeonato, Caio Junior está apalavrado com o Grêmio, no lugar de Celso Roth.