Há uma clara pressão para a criação de uma “Superliga Europeia”. As revelações realizadas pelo Football Leaks podem ter desacelerado o processo, apresentando uma postura unilateral e egoísta dos grandes clubes, que agiam na surdina. No entanto, se não será possível romper com o sistema, eles tentarão moldá-lo conforme os seus interesses. E, segundo os documentos divulgados pela Associated Press nesta quinta-feira, a Uefa tende a endossar os planos. A entidade considera criar uma “nova Liga dos Campeões” com 24 participantes fixos, além de acesso e descenso. As ideias foram apresentadas a representantes das ligas nacionais durante a última quarta-feira.

A proposta da Uefa foi alinhada ao longo dos últimos dois meses com a Associação de Clubes Europeus (ECA), entidade encabeçada por Andrea Agnelli, presidente da Juventus. Embora devesse representar uma série de clubes da Europa, a ECA se agarrou à causa dos grandes, tentando repaginar a Champions como uma Superliga. As mudanças se projetam ao triênio que começa a partir da temporada 2024/25. E os rascunhos, cedendo à pressão, favoreceriam uma elite de clubes das principais ligas do continente. Conforme os documentos acessados pela AP, 24 dos 32 clubes na fase de grupos seriam fixos. Não importaria a colocação nos campeonatos nacionais, eles permaneceriam na Champions seguinte.

A própria classificação na Champions determinaria o acesso e o descenso. Quatro times seriam rebaixados para a Liga Europa, enquanto outros quatro conquistariam a promoção a partir da competição secundária. Além disso, somente quatro lugares seriam destinados aos campeões das ligas menores. Eles teriam que se digladiar nas preliminares, até sobrarem quatro sobreviventes para encarar os “grandes” na fase de grupos.

A Liga Europa, por sua vez, seria reduzida a 32 clubes. Seriam quatro fixos, oito determinados por sistemas de acesso e descenso, além de outros 20 vindos das ligas nacionais. E vale lembrar que, a partir da temporada 2021/22, existirá uma terceira competição continental, algo já confirmado pela Uefa. Esse torneio, em 2024, poderia se dividir em quatro divisões de 16 times. Os quatro melhores deste certame ascenderiam à Liga Europa, o segundo nível na pirâmide prevista pela Uefa.

A pirâmide da nova Champions (Fonte: Rob Harris / AP)

Ainda não está claro como seriam determinados os participantes iniciais desta “nova Champions”. O documento indica que cada país teria, no máximo, cinco representantes. Há um risco enorme que o ranking histórico no torneio seja levado em consideração, enquanto o mérito esportivo tende a ser deixado de lado. Algo que certamente protegerá gigantes em crise, como Manchester United ou Milan, embora também cristalize a elite com “novos ricos”, a exemplo de Paris Saint-Germain e Manchester City.

Além disso, a Uefa estuda ampliar o calendário. No novo formato, a fase de grupos seria dividida em quatro chaves de oito equipes. Os quatro primeiros colocados avançariam aos mata-matas. Com isso, a entidade continental poderia aumentar seus lucros com negociações comerciais e venda dos direitos de transmissão. A intenção, obviamente, é maximizar os rendimentos e ampliar a competitividade financeira dos clubes da Europa continental – os maiores interessados nas pressões realizadas por Agnelli.

Presidente da Uefa, Aleksander Ceferin declarou que são apenas “ideias e opiniões” apresentadas às ligas. A entidade continental não quis comentar os documentos revelados pela AP. Haverá uma reunião com membros das 55 federações na próxima semana e as transformações na Champions também entrarão na pauta. Nos últimos anos, a Uefa tem se aproximado da ECA e aumentado a abertura às grandes ligas. Há uma pressão clara, especialmente financeira, sob a ameaça de uma cisão dos times mais poderosos – justamente o que se alinhava com a Superliga descoberta pelo Football Leaks. Se não entrar no ritmo da dança, a entidade europeia corre o risco de ser ignorada pelos insatisfeitos.

A organização idealizada pela Uefa (Fonte: Rob Harris / AP)

Os clubes da Premier League já declararam que se opõem à ideia de uma nova Champions League nestes moldes. Afinal, são os próprios ingleses que tendem a perder mercado com uma mudança drástica na competição continental. Além disso, a European Leagues (European Professional Football Leagues, que envolve a organização das ligas nacionais) também indicou sua oposição. O novo projeto custará o espaço aos países de segundo e terceiro escalão no continente, que podem sentir de maneira mais supressiva os abismos financeiros. Além disso também há o temor pelo que acontecerá com os médios e pequenos das ligas principais.

Mais de 200 clubes se fizeram presentes na reunião da European Leagues, realizada nesta terça, antes que o documento da Uefa fosse entregue. Em compensação, em boicote convocado por Agnelli, dirigentes de times como Real Madrid e Barcelona não compareceram. São agremiações como estas, assim como Juventus e Bayern de Munique, que devem se beneficiar com a nova Champions. As hegemonias nacionais construídas nesta década não auxiliam em acordos comerciais e o interesse à Premier League é maior – sobretudo fora da Europa. Neste bolo de interessados, também aparecem clubes históricos como Milan e Internazionale, pouco competitivos em seus países, mas que ganhariam um salto graças às relações nos bastidores.

O mais irônico é que a atual temporada europeia levanta seus próprios questionamentos ao que se planeja nesta nova Champions. O Tottenham não estava previsto inicialmente à Superliga desmantelada pelo Football Leaks, enquanto o vice-campeão holandês sequer teria oportunidade de figurar numa Liga dos Campeões com este formato. Além disso, também não se premiaria as campanhas espetaculares de clubes como Atalanta, Eintracht Frankfurt e Getafe em seus países. Em compensação, os quatro finalistas ingleses na Champions e na Liga Europa apresentam uma motivação às potências que desejam um rompimento tão drástico.

A princípio, as ideias da Uefa afunilam as oportunidades pautadas nos méritos esportivos, sobretudo pelas 24 vagas fixas. Para acessar a elite, será necessário um investimento contínuo, que costuma ser possível através da participação de magnatas na jogada. Que o atual sistema tenha seus poréns, e que seja realmente necessário repensar as estruturas, a ideia da ECA / Uefa parece longe do ideal. Ela só repagina e cristaliza os problemas. A concentração de dinheiro e de craques tem tudo para se agravar.