Participante um tanto assídua das Copas do Mundo desde 1998, a Tunísia obteve em seu Mundial de estreia, 20 anos antes, um feito histórico nem sempre lembrado: o de ter sido o primeiro país africano a vencer uma partida na principal competição de seleções do planeta. Ainda que outras equipes do continente a tenham suplantado nas décadas que se seguiram, a ótima campanha das Águias de Cartago na Copa de 1978, realizada na Argentina, foi o verdadeiro pontapé inicial para que a África passasse a ser mais respeitada no cenário internacional do futebol.

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País independente da França desde 1956 e com sua federação de futebol fundada no mesmo ano, a Tunísia tinha histórico um tanto modesto no futebol africano até meados dos anos 1970. Disputara as Eliminatórias para as Copas de 1962, 1970 e 1974, sem sucesso, e ainda as edições da Copa Africana de Nações de 1962, 1963 e 1965 (esta, como país-sede) e do torneio olímpico nos Jogos de Roma, em 1960, mas igualmente sem resultados marcantes.

Uma das principais causas para os resultados pouco impressionantes era a instabilidade no comando técnico da seleção, entregue na maioria das vezes a estrangeiros que duravam pouco no cargo por não resistirem ao modus operandi dos cartolas locais. Isso começou a mudar apenas em fevereiro de 1975, quando Abdelmajid Chetali – um ex-meia-armador talentoso e grande ídolo do futebol nacional na década anterior – foi nomeado para o cargo.

Assim que pendurou as chuteiras, Chetali passou dois anos na Alemanha Ocidental, com o apoio do Ministério do Esporte da Tunísia, para participar de um curso de treinadores de futebol na famosa Academia de Colônia, onde foi aluno de Hennes Weisweiler, que então dirigia o Borussia Mönchengladbach e era um dos técnicos mais renomados do futebol germânico. Ao retornar, levou seu antigo clube, o Étoile du Sahel, a vários títulos nacionais e internacionais.

O técnico Abdelmajid Chetali – Foto: Imago / One Football
National coach Abdelmajid Chetali Tunisia

A experiência na Alemanha colocou o treinador em contato com os mais atualizados conceitos táticos aplicados então no futebol europeu, ajudando a moldar seu perfil como treinador. Diante disso, Chetali não chegava a ser um disciplinador intransigente, mas valorizava o trabalho duro e o esforço coletivo, sem abrir mão de barrar algum titular quando percebia que o reserva vinha rendendo melhor nos treinos e jogos. Mas também sem tolher o talento.

O caminho até a Argentina

Suas duas primeiras missões não foram bem-sucedidas: a Tunísia foi desclassificada pelo Sudão nas Eliminatórias para a Copa Africana de Nações de 1976 e pelo Marrocos no pré-olímpico para os Jogos de Montreal, no mesmo ano. Mas a experiência adquirida nas etapas anteriores também foi válida para a próxima meta: conquistar a única vaga africana em disputa nas extensas e cansativas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina.

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Nelas, a Tunísia teve de disputar dez partidas entre dezembro de 1976 e dezembro de 1977, incluindo três etapas em mata-mata e um triangular final em turno e returno – tudo isso ao mesmo tempo em que eram jogadas também as Eliminatórias para a Copa Africana de Nações de 1978. Foi ainda uma campanha marcada por muita rivalidade, já que entre os adversários que cruzaram o caminho da Tunísia estiveram Marrocos, Argélia e Egito.

Os marroquinos – então detentores do título continental – foram os primeiros, em partidas disputadas em Casablanca (em dezembro de 1976) e Túnis (em janeiro de 1977). Dois empates em 1 a 1 levaram a decisão da vaga nos pênaltis, e a Tunísia levou a melhor por 4 a 2, conseguindo afinal sua revanche do pré-olímpico. Na etapa seguinte, em fevereiro, os argelinos foram superados por 2 a 0 em Túnis, não passando do empate em 1 a 1 em Argel. 

Já no terceiro mata-mata, em junho diante da Guiné, a equipe de Chetali teve um pouco mais de dificuldade. No primeiro jogo, em Conakry, a seleção da casa impôs a primeira derrota aos tunisianos naquelas Eliminatórias, vencendo por 1 a 0 com gol de Bengally Sylla. Na volta, a Tunísia abriu a contagem logo no início, mas sofreu o empate em seguida. Na etapa final, porém, voltou a balançar as redes duas vezes e garantiu um suficiente 3 a 1.

O Tunísia x Nigéria nas Eliminatórias – Foto: Revista Onze

No triangular final, os adversários seriam Egito e Nigéria, com quem a Tunísia empataria sem gols em Túnis na abertura, num mau resultado para os magrebinos. A seguir, os nigerianos goleariam os egípcios por 4 a 0 em Lagos, com os Faraós dando o troco por 3 a 1 no Cairo. Os tunisianos, por sua vez, voltariam a campo na quarta partida, na revanche contra os nigerianos: a vitória por 1 a 0 fora de casa manteve as chances da Tunísia e encerrou as da Nigéria.

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Restavam então os dois confrontos diretos entre Tunísia e Egito (o primeiro no Cairo e o segundo em Túnis), que definiriam o classificado. Na partida de ida, em 25 de novembro (uma sexta-feira), os Faraós levaram a melhor e venceram por 3 a 2 num jogo disputado sob clima tenso de rivalidade. A vitória levou a equipe aos quatro pontos, contra três dos tunisianos, permitindo-a jogar pelo empate no confronto de volta, no Estádio Olímpico de Túnis.

Nos bastidores, aquele jogo seria marcado por um apoio inusitado: rompido com o presidente do Egito, Anwar Sadat, desde que este visitou Israel, o chefe de Estado da Líbia, Muamar Khaddafi, prometeu um generoso prêmio em dinheiro aos jogadores da Tunísia em caso de vitória. Outro dado curioso sobre aquela partida decisiva é que ela teve transmissão ao vivo para o Brasil pela Rede Globo, na manhã de domingo, 11 de dezembro de 1977.

Diante de mais de 70 mil torcedores, as Águias de Cartago começaram a todo vapor, apertando os visitantes e balançando as redes duas vezes ainda no primeiro tempo. Na etapa final, com os egípcios totalmente desorientados, o placar chegou a 4 a 0 para a Tunísia, antes que os Faraós pudessem apenas marcar um gol e diminuir a contagem a dez minutos do fim da partida. Uma vitória arrasadora dos tunisianos que prenunciou a comemoração efusiva pelo país.

O goleiro Attouga, então capitão da Tunísia, contra a Nigéria nas Eliminatórias – Foto: Revista Onze

Um destaque da campanha havia sido o experiente goleiro Sadok Sassi, apelidado “Attouga” (“galinha”) pelo hábito de se posicionar agachado na linha do gol, titular da seleção há 15 anos, mais de 100 partidas oficiais e não-oficiais na meta tunisiana e tido como o melhor da posição na África. Mas havia um senão: após se desentender com seu técnico no Club Africain em outubro, ele foi para a reserva e vinha atuando somente na seleção, o que prejudicava sua forma.

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O arqueiro também fora o pivô da controvérsia que marcou a participação da Tunísia na Copa Africana de Nações disputada em Gana no início de 1978. Na decisão do terceiro lugar, após um gol de empate da Nigéria muito contestado, o time decidiu se retirar de campo, sob o comando do capitão Attouga. O gesto rendeu, além da derrota no jogo, a exclusão da seleção da edição seguinte do torneio e a suspensão do goleiro por três anos em competições africanas.

O time-base

Attouga seria convocado para a Copa do Mundo. Mas já na reta final de preparação, perderia a titularidade após uma atuação desastrosa na derrota por 4 a 0 frente à Holanda num amistoso em Túnis. A surpresa maior viria quando o técnico Chetali anunciou que seu substituto não seria o reserva imediato Lamine Ben Aziza, mas o terceiro goleiro Mokhtar Naili – exatamente o antigo suplente de Attouga no Club Africain, agora o dono da posição também no clube.

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Ainda que nas bolsas de apostas a Tunísia fosse colocada com a cotação mais baixa entre as 16 seleções da Copa, os observadores internacionais reconheciam que se tratava de um time mais forte e organizado que o Zaire que disputara o Mundial anterior e até que o Marrocos de 1970, o único dos três participantes africanos até ali (o outro havia sido o Egito em 1934) a conseguir somar um ponto na história das Copas, num empate em 1 a 1 com a Bulgária.

Primeiro técnico africano a dirigir uma equipe do continente num Mundial, Chetali se mostrava cauteloso: “Não tenho ilusões. Vencer o México já seria um grande feito. O importante é que marquemos nossa presença com um bom futebol e não permitamos que aconteça, depois do Mundial, um esvaziamento. Marrocos e Zaire, por exemplo, classificaram-se como nós, em Copas anteriores, e hoje em dia o futebol dos dois caiu muito”.

Mas o que se veria na Argentina confirmaria a boa impressão: uma equipe formatada inicialmente num 4-3-3 simples, com uma zaga firme, laterais bons no apoio, um meio-campo leve e habilidoso e um ataque de muita movimentação. Tinha ainda um ótimo preparo físico e evitava “rifar” a bola, preferindo os passes de pé em pé. Era também muito disciplinada: o único cartão amarelo seria recebido no último jogo, e por reclamação num lance confuso.

A Tunísia comemora a classificação à Copa, contra o Egito – Foto: Revista Onze

A Tunísia que faria sua estreia na Copa do Mundo contra o México no Gigante de Arroyito, em Rosário, na sexta-feira, 2 de junho (um dia após a abertura da competição), entraria em campo com o já citado Mokhtar Naili sob as traves, um arqueiro que se mostraria surpreendentemente seguro, de mãos firmes, estilo sóbrio, sempre bem colocado e tranquilo no jogo aéreo. Seria uma das gratas revelações tunisianas daquele Mundial.

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Na linha defensiva, os laterais eram Mokhtar Dhouieb pela direita e Ali Kaabi pela esquerda, dois marcadores aguerridos e apoiadores velozes. Pelo centro, havia o desfalque inicial de Khaled Gasmi, titular absoluto que havia se lesionado num amistoso preparatório contra a Ponte Preta, às vésperas da chegada à Argentina, e ficaria de fora da estreia. Seria substituído pelo vigoroso Mohsen “Jendoubi” Labidi, mas voltaria mais adiante numa outra função.

Ao lado de Jendoubi, jogava outra surpresa daquela reta final de preparação: o jovem Amor Jebali, de apenas 21 anos, o “caçula” entre os convocados. Zagueiro bastante ágil, de boa recuperação, valente no combate e inteligente para jogar na sobra, tomou o lugar do mais experiente Kamel Chebli, dono da posição durante as Eliminatórias. A ele também caberia liderar uma estratégia a qual a Tunísia aplicaria muito durante o torneio: a linha de impedimento.

O meio-campo era o ponto alto do time. O trio era composto pelo volante Néjib Ghommidh, que não se limitava a ficar postado à frente da zaga e gostava de avançar, e pela dupla de talentosos armadores Hamadi Agrebi (mais pela direita) e Tarak Dhiab (à esquerda). Segundo mais jovem do time e eleito o Jogador Africano do Ano em 1977, Tarak era um meia cerebral, de técnica refinada, enquanto Agrebi era perigoso nas cobranças de faltas, pelo seu chute poderoso.

Mais adiante, atuava o principal nome da Tunísia e capitão do time, Témime Lahzami. Vestia a camisa 7, embora não se limitasse a atuar na ponta-direita. Driblador, transitava por todo o setor ofensivo, ligando o meio ao ataque, municiando, ditando o ritmo da equipe. Quando atuava no futebol local, semi-amador, dividia seu expediente com o trabalho como gerente de banco. Até se transferir para o rico futebol da Arábia Saudita para defender o Al-Ahli.

Témime Lahzami em ação contra o Egito

Témime era um dos dois únicos atletas do elenco a atuar em um clube estrangeiro. O outro era o atacante Mokhtar Hasni, que defendia o La Louvière belga, mas sequer saiu do banco durante a Copa. No setor ofensivo, além do capitão, uma presença certa era a do centroavante Mohamed Akid, do CS Sfaxien, um dos principais clubes do país e detentor do título nacional. Outro que atuou na estreia, pela esquerda, era o versátil Abderraouf Ben Aziza.

Na estreia, um resultado histórico

Apesar do favoritismo do México, a Tunísia começou mais incisiva e antes dos dez minutos já havia tido uma grande chance num chute de fora da área do zagueiro Jebali que o goleiro José Reyes espalmou com dificuldade. Mais tarde, por volta dos 26 minutos, o arqueiro voltou a entrar em ação quando Agrebi finalizou com um chute mascado, mas perigoso, da entrada da área. Houve ainda o cruzamento de Témime que Akid concluiu por cima com o gol quase aberto.

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Ao longo da primeira etapa, o México até conseguia trocar muitos passes no campo de ataque, mas tinha pouca penetração em virtude do forte bloqueio tunisiano na entrada da área, somado à atuação segura de Naili no gol. Consequentemente, quase não chutou a gol. Houve apenas uma finalização de Antonio De La Torre que resvalou na zaga e levou perigo perto dos 30 minutos e outra de Leonardo Cuéllar, após boa trama pela esquerda, já nos minutos finais.

Porém, já nos acréscimos, o México teve uma chance de ouro para abrir o placar quando De La Torre cruzou da esquerda e a bola tocou no braço de Jebali. O árbitro escocês John Gordon não hesitou em apitar o pênalti, assim como o lateral-esquerdo e capitão mexicano Arturo Vázquez Ayala também não fugiu da responsabilidade. A cobrança calma, rasteira, de pé direito, no canto de Naili deixou os astecas em vantagem, talvez antecipando uma folgada vitória.

Naili e Labidi, da Tunísia – Foto: Imago / One Football

A Tunísia voltou melhor no segundo tempo, mas o México esteve muito perto de ampliar o placar logo aos sete minutos quando, após um escanteio, Naili saiu em falso e quase foi encoberto por uma cabeçada de Hugo Sánchez, que descaiu na rede, mas por cima do gol. Os africanos deram o troco logo em seguida com Ben Aziza, também numa cabeçada, exigindo a intervenção do goleiro Reyes. E o gol de empate não demoraria a sair.

Aos dez minutos, Agrebi arrancou pela direita num contra-ataque, trocou passes com Tarak e cruzou para Kaabi. Dentro da área, o lateral-esquerdo teve tempo de ajeitar e girar para chutar ao gol de pé direito, bem no canto de Reyes, que pulou atrasado. Nos minutos seguintes, as ocasiões de gol se sucederam de parte a parte. Mas a Tunísia, com suas velozes jogadas ofensivas puxadas pelos laterais, nitidamente já ditava o ritmo da partida.

O México, no entanto, poderia ter passado de novo à frente aos 31 minutos, quando uma falha da linha de impedimento feita pelos tunisianos permitiu a De La Torre avançar e entrar sozinho na área. Frente a frente com Naili, o meia mexicano chutou cruzado, para fora. Essa sucessão de chances era o que deixava a partida ainda em aberto. Um gol para qualquer um dos lados naquele momento, a cerca de dez minutos do fim, poderia definir o resultado.

A Tunísia em campo na Copa de 1978 – Foto: Imago / One Football

E ele veio, premiando o jogo mais solto e incisivo da Tunísia: Témime iniciou a jogada no círculo central passando a Tarak, que abriu na esquerda para a chegada de Ghommidh. Na saída do goleiro, o meia finalizou tocando de cobertura. Se o empate já deixava o México sob pressão, sofrer a virada aos 34 da etapa final levava os astecas quase ao desespero, até porque a Tunísia se posicionava bem e demonstrava lucidez nas ações e bom controle de bola.

Quando os africanos já administravam o resultado, veio o terceiro gol, aproveitando um buraco deixado pelo capitão mexicano Vázquez Ayala, um lateral que apoiava por dentro, como um meia. Témime cobrou lateral no campo de ataque pelo lado esquerdo, e a bola chegou a Ghommidh. O meia então abriu o jogo no espaço vazio pela ponta direita, por onde o lateral Dhouib avançava em velocidade. E o camisa 2 entrou na área e fuzilou Reyes, definindo o placar.

A vitória por 3 a 1 foi antes de tudo um resultado histórico: a primeira vitória de uma seleção africana em uma Copa do Mundo. O fato de ter sido obtida de virada também indicava o poder de concentração e organização da equipe. E, ainda que apenas para efeito de primeira rodada, também alçava a Tunísia à liderança do grupo diante do empate entre alemães e poloneses. Ali o mundo do futebol passou a olhar para o time – e o futebol africano – com outros olhos.

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O que mais impressionava ao se observar o desempenho físico e técnico do elenco era saber que ele mal tivera chance de treinar nos primeiros dias na Argentina. O primeiro coletivo, que seria realizado dois dias após o jogo com o México, foi cancelado após o técnico Chetali amanhecer com o corpo todo dolorido e um dos tornozelos muito inchado. Além disso, o craque Témime, com fortes dores abdominais, foi dispensado de treinar durante toda a Copa.

A torcida da Tunísia na Copa de 1978 – Foto: Sven Simon / Imago / One Football

Para o jogo contra a Polônia, na tarde de terça-feira, 6 de junho, de novo em Rosario, o técnico Chetali poderia contar com o zagueiro Gasmi, recuperado de lesão. Ele seria confirmado entre os titulares, mas não no lugar de um dos dois zagueiros, e sim no do ponta-esquerda Ben Aziza. A ideia do treinador era reforçar o sistema defensivo e também dar mais liberdade ao trio de meio-campo, soltando principalmente Ghommidh, vértice mais recuado do setor. 

Assim, na defesa, Jebali atuava na sobra com Gasmi um pouco mais adiantado, quase como um volante, e Jendoubi pelo lado esquerdo da zaga, cobrindo os avanços de Kaabi. Enquanto isso, no setor de criação, Tarak passou a atuar caindo mais pela esquerda para compensar a ausência do ponteiro por aquele flanco. Essa alteração também alterou ligeiramente o posicionamento de Témime, que passou a flutuar mais pelo centro, na ligação com o ataque.

Por um triz de uma nova surpresa

Em campo, a Tunísia levantou a torcida no Gigante de Arroyito logo de início com jogadas de efeito. Mas a primeira ocasião perigosa veio da parte da Polônia, num chute de fora da área de Adam Nawalka. Os africanos, no entanto, não se intimidaram e começaram a tomar conta do meio-campo e levar perigo em triangulações nas costas dos laterais poloneses, fazendo Jan Tomaszewski trabalhar para cortar os cruzamentos que sobrevoavam sua área. 

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Naili, por sua vez, brilhou pela primeira vez aos 11 minutos, ao defender uma cabeçada à queima-roupa de Henryk Kasperczak após jogada ensaiada em escanteio. Mais tarde, por volta dos 20, os poloneses chegaram a ter um gol bem anulado com Wlodzmierz Lubanski finalizando em posição irregular. Daí em diante, a partida se concentrou mais nas intermediárias, com a Polônia tentando encurralar a Tunísia em seu próprio campo, mas sem levar perigo.

Isso até os africanos terem uma ótima chance – sua melhor em toda a etapa inicial – aos 36 minutos: na intermediária da Polônia, Ghommidh ganhou uma dividida, deu um belo drible em Jerzy Gorgon e, da meia-lua, finalizou com perigo, obrigando Tomaszewski a espalmar para ao lado. A Polônia também teve uma ocasião clara, com Andrzej Szarmach recebendo livre na entrada da área, mas o chute não saiu com muita força, e Naili agarrou sem dificuldades.

Quase no lance seguinte, aos 42 minutos, Kasperczak retomou a bola na intermediária tunisiana e passou a Grzegorz Lato, que avançou e tabelou com Lubanski. A devolução, porém, ficou mais para Kaabi, que se preparou para afastar. Não contava, no entanto, que furasse bisonhamente a rebatida, permitindo a Lato – que passava às suas costas – capitalizar no erro grosseiro e tocar para as redes, sem chances para Naili. Um gol inesperado.

A Tunísia se via na mesma situação da estreia, tendo cumprido boa atuação na primeira etapa, mas sofrido um gol pouco antes do intervalo. E assim como diante do México, não se abateria, voltando disposta a incomodar os poloneses. O adversário, no entanto, teve ótima oportunidade para ampliar a vantagem aos 12 minutos, quando Dhouib salvou quase em cima da linha uma chance de Szarmach, quando a bola já passara por Naili.

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Naquele momento, a defesa africana chegou a se perturbar e passou por outro susto já no lance seguinte, em uma cabeçada de Kazimierz Deyna que Naili foi buscar no ângulo. Mais tarde, outra finalização de Lato obrigou o goleiro da Tunísia a fazer outra defesa firme. A partir da metade da etapa final, porém, os africanos acordaram: encaixaram uma série de perigosas tramas ofensivas e trouxeram de volta a torcida de Rosário a seu favor.

O técnico polonês Jacek Gmoch tentou injetar sangue novo no time, substituindo os medalhões Szarmach e Lubanski pelos atacantes novatos Andrzej Iwan (o jogador mais jovem da Copa, com apenas 18 anos) e Zbigniew Boniek. Mas a Tunísia, por sua vez, adiantou suas linhas e, nos 15 minutos finais, amassou os europeus, envolvendo o adversário com seus toques curtos, rápidos e objetivos e perdendo uma chance inacreditável atrás da outra.

Tunísia x Polônia em 1978 – Foto: Revista Onze

A primeira grande oportunidade veio aos 34: após um contra-ataque veloz e uma ótima troca de passes, Témime chutou da meia-lua encobrindo Tomaszewski, mas a bola caprichosamente tocou o travessão e quicou a poucos centímetros da linha, enquanto o estádio inteiro gritava um misto de surpresa e lamentação. Quase no lance seguinte, após cobrança de falta para a Tunísia, Gasmi recebeu na esquerda e cruzou. A bola acertou Kaabi na pequena área e subiu.

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E o jogo seguiu nessa toada: aos 37, Jebali fez um longo lançamento para a área, Akid escorou de cabeça e Agrebi se aproveitou da indecisão da defesa polonesa para se infiltrar e também tocar de cabeça, encobrindo o Tomaszewski. Inacreditavelmente, a bola raspou o travessão. No fim, ainda houve tempo para Kaabi perder outra grande chance após um escanteio, numa cabeçada para o chão na pequena área que passou ao lado do gol polonês.

Saindo de cabeça erguida

No sábado seguinte, 10 de junho, era a vez de se deslocar até Córdoba para enfrentar a cabeça-de-chave Alemanha Ocidental no estádio Chateau Carreras. A escalação foi mantida em relação à partida anterior, a despeito do agravamento das condições físicas do craque Témime, com uma distensão nos músculos abdominais. Mas, depois de ter chegado tão perto de um ótimo resultado contra os poloneses, a confiança dos africanos crescera consideravelmente.

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“Muitos de nossos jogadores ainda não acreditavam que pudessem realmente enfrentar equipes fortes, como a da Polônia, em igualdade de condições. Ficaram nervosos quando notaram que isso era possível e acabaram desperdiçando excelentes oportunidades. Agora, tenho certeza, eles já têm consciência de que podem até ganhar dos alemães”, comentou Chetali no dia seguinte ao segundo jogo, em declarações publicadas pelo Jornal do Brasil.

O que se viu em campo, no entanto, foi um jogo muito concentrado entre as intermediárias e com poucos lances de emoção. A Alemanha criou mais chances, mas quase sempre em chutes de média e longa distância. Naili se destacou novamente ao espalmar um córner fechado cobrado por Heinz Flohe, ao defender um petardo de Rainer Bonhof da entrada da área e ainda ao sair para agarrar uma bola aos pés de Dieter Müller, após lançamento para a área.

Témime cumprimenta Berti Vogts, capitão da Alemanha Ocidental – Foto: Ferdi Hartung / Imago / One Football

A primeira grande chance da Tunísia veio após seu primeiro escanteio, aos 37 minutos. Agrebi pegou a sobra da rebatida da defesa e encheu o pé da risca da grande área, mas Sepp Maier defendeu com firmeza. Um minuto e meio depois, houve a reclamação de um pênalti quando Agrebi arrancou desde o meio-campo, tabelou com Tarak e, ao receber de volta já dentro da área, pareceu ter sido deslocado por um empurrão de Manfred Kaltz.

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Aqueles dez minutos finais da primeira etapa foram os mais intensos da Tunísia no jogo, quando a equipe enfim passou a ameaçar mais concretamente a defesa alemã. Aos 43, após boa troca de passes, Agrebi recebeu do lado esquerdo da área e chutou cruzado. Maier fez apenas golpe de vista, e a bola passou raspando a trave. Na etapa final, porém, o ritmo caiu. A única chance real foi alemã, num chute de Bonhof da intermediária que Naili, atento, segurou bem.

Bem organizada em campo, a Tunísia não permitia aos alemães entrarem em sua área. Isso, mais os fortes ventos que sopravam no Chateau Carreras fizeram com que a Mannschaft se limitasse a arriscar de longe. Quando o cronômetro se aproximou dos 45 minutos, os tunisianos passaram a trocar passes no meio-campo, aguardando o apito final. Ao fim, o 0 a 0 não valeu a sonhada classificação. Mas deixou o orgulho por ter segurado os campeões mundiais.

A campanha deixou a Tunísia numa muito boa nona colocação na Copa (a de melhor campanha entre as que caíram na primeira fase). E seu futebol foi saudado pela imprensa internacional. No entanto, o esvaziamento temido por Abdelmajid Chetali não tardou a acontecer, em parte pela saída do próprio treinador logo após o Mundial, e também pela suspensão que tirou a seleção da Copa Africana de Nações de 1980. Começava um período de limbo.

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O time caiu logo diante do primeiro adversário, a Nigéria, nas Eliminatórias para a Copa de 1982 e também fez campanha fraca na CAN daquele ano, com só um ponto ganho na fase de grupos. Dali em diante, ficaria de fora de cinco edições consecutivas do torneio continental, retornando apenas em 1994, quando recebeu a competição. Mas, mesmo jogando em casa, decepcionou de novo, caindo na primeira fase com um empate e uma derrota.

Alemanha Ocidental x Tunísia em 1978 – Foto: Imago / One Football

Nesse ínterim, a única participação em torneio de nível mundial viria nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, em que a Tunísia empatou com Suécia (2 a 2) e China (0 a 0) e foi goleada pela Alemanha Ocidental (4 a 1). Bastante jovem, aquela equipe tinha em Tarak Dhiab o único remanescente do elenco da Copa da Argentina. O meia chegara a se juntar a Témime Lahzami no Al-Ahli saudita logo após o Mundial, ficando por duas temporadas antes de voltar ao Espérance.

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A reabilitação da seleção só se daria com a caminhada até a decisão da CAN de 1996, quando a Tunísia – levada pela boa geração que incluía o goleiro Chokri El Ouaer, o zagueiro Sami Trabelsi e os meias Adel Sellimi e Zoubeir Baya – acabou derrotada pela anfitriã África do Sul. Em seguida, viria o retorno a uma Copa do Mundo após 20 anos, com a participação no Mundial da França, posicionando novamente o país entre as forças do continente.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.