O gol olímpico é, acima de tudo, um ato de coragem. Por mais que a cobrança de um escanteio fechado possa complicar os adversários de qualquer maneira, as chances de acertar o “ponto cego” são mínimas. E a coragem se torna imensurável quando a tentativa acontece de pé trocado, com uma trivela, nos acréscimos do segundo tempo de uma partida fora de casa. A obra-prima de Leandro Carvalho é única não apenas por sua beleza, mas pela dificuldade e por aquilo que representa, no empate por 2 a 2 do Ceará na Arena Corinthians.

Se havia um fator favorável à tentativa, era a surpresa. Cássio certamente não esperava um adversário tão corajoso naquele quarto de círculo e se antecipava na área ao chuveirinho desesperado pelo empate. Aí esteve sua maior falha. Só foi perceber o que realmente acontecia quando a bola passou a linha da grande área e tomava o rumo de volta à linha de fundo. Tarde demais para reagir. O pecado do arqueiro, entretanto, não diminui os méritos muito maiores do jogador do Ceará. Leandro Carvalho ainda tinha as probabilidades contra si. Foi cirúrgico. Mesmo se o arqueiro estivesse em sua posição habitual, seria difícil evitar o golaço.

As medidas milimétricas do ponto cego, afinal, se tornaram ainda menores quando a bola resvalou na trave, quase no ângulo. Foi uma curva perfeita para encaminhar o escanteio diretamente às redes. Em boa parte das vezes, o gol olímpico conta com o desvio de um zagueiro ou do próprio goleiro em cima da linha. Não foi o caso. A pintura de Leandro Carvalho é daquelas praticadas de brincadeira nos treinamentos. Desta vez, ela provou o talento do alvinegro pra valer, nos últimos instantes da partida. Vai ser difícil ver outra dessas tão cedo.

E se as câmeras da televisão oferecem todos os ângulos para se analisar o lance, para se entender os cálculos mirabolantes da geometria da bola, nada substitui a emoção das arquibancadas. O setor visitante ficava logo atrás da meta de Cássio. Com uma visão aberta, os cearenses puderam ver tudo de camarote – mesmo que, daquele ponto, tenha se demorado um pouco a perceber que a bola não iria realmente para o meio da área. Tiveram o gosto de comemorar um empate heroico e também um gol histórico.