Todo esportista almeja ser campeão: competir e ser reconhecido como o melhor. No futebol, não é diferente. O objetivo final de tudo que um clube faz, todos os acordos de patrocínio, todas as contratações, todos os treinos, todos os jogos, é ganhar um título. Marcar seu nome nos livros de história ou, em sua versão mais moderna, nas páginas da Wikipedia – fazer o quê?

Nos últimos dez anos, teve tempo para tudo: conquistas emocionantes, improváveis, há tanto tempo desejadas, quebras de jejum e exuberâncias técnicas sendo premiadas com um troféu. A eleição da Trivela de melhores da década consultou especialistas para chegar a dez, as quais apresentamos a seguir para você discutir, relembrar e apontar qual a sua favorita, mesmo que não esteja na lista.

Colégio eleitoral

Felipe Portes – Revista Relvado
Mauro Beting – Esporte Interativo, UOL
Leandro Iamin – Central 3
Taynah Espinoza – Esporte Interativo
Nathalia Perez – Trivela
Mário Marra – ESPN, CBN
Renata Mendonça – Dibradoras
Bruno Formiga – Esporte Interativo
Leo Escudeiro – Trivela
Bruno Bonsanti – Trivela
Joshua Law – Football Yellow
Douglas Ceconello – Impedimento, Globoesporte.com
Ubiratan Leal – ESPN, Trivela
Vitor Birner – ESPN, Central 3/Trivela
Paulo Júnior – Central 3
Felipe Santos Souza – Espreme a Laranja, Trivela
Victor Canedo – Globoesporte.com
Vitor Sérgio – Esporte Interativo
Matías Pinto – Central 3
Leandro Stein- Trivela
Felipe Lobo – Trivela

10º – Manchester City – Premier League 2011/12

O voto do Manchester City se dividiu. O time de 100 pontos e 106 gols de 2017/18, batendo todos os recordes da Premier League, foi muito mencionado e ficou em 11º lugar. Também houve uma citação ao título da temporada seguinte, cabeça a cabeça contra o Liverpool. No fim, pesou os contornos épicos da rodada final de 2011/12. Os Citizens estavam em primeiro lugar no saldo de gols. O Manchester United enfrentaria o Sunderland fora de casa. Bastava derrotar o Queens Park Rangers, brigando contra o rebaixamento, em seus domínios, para ser campeão inglês pela primeira vez desde 1967/68. O problema: o QPR vencia por 2 a 1 até o segundo minuto da prorrogação, quando Edin Dzeko empatou. Ainda não era suficiente, o United ganhava e o relógio corria. Aos 48 minutos e 15 segundos, com o árbitro prometendo jogo até os 50, Balotelli, caído, conseguiu dar um toque na bola, recolhida por Agüero. O argentino teve a frieza de limpar a marcação antes de bater cruzado de perna direita. O gol do milaaaaagre.

9º Barcelona – Champions League 2010/11

Menos o título em si, porque o Barcelona havia sido campeão europeu duas vezes nas cinco temporadas anteriores, e mais a maneira como ele foi alcançado. O mata-mata começou com uma virada relativamente emocionante contra Arsenal, seguiu com goleada contra o Shakhtar Donetsk e chegou às semifinais com dois duelos históricos diante do Real Madrid. A vitória por 2 a 0 no Bernabéu, com dois gols de Messi, no jogo de ida, encaminhou a passagem à decisão em Wembley. Enfrentaria um inglês, o Manchester United, mas quem mandou no lendário estádio foram os catalães. O time de Guardiola atingiu um pico de desempenho naquele ano, muito visível na final europeia. O United até se segurou no primeiro tempo, mas a orquestra regida por Xavi embalou depois do intervalo e dois gols de fora da área de Messi e Villa asseguraram o quarto dos cinco títulos do Barcelona.

8º – Atlético de Madrid – La Liga 2013/14

Ganhar o Campeonato Espanhol sem se chamar Barcelona e Real Madrid, historicamente, é para poucos. Depois dos títulos do Valencia e do Deportivo La Coruña, à medida que a superioridade financeira dos dois gigantes se dilatou, parecia cada vez mais difícil quebrar a hegemonia. O Atlético de Madrid conseguiu em 2013/14. Chegar à final da Champions League foi impressionante o bastante, mas o estilo de Diego Simeone, sempre no limte, com base em uma defesa excepcional, bola parada e as escapadas de Diego Costa, encaixa com torneios eliminatórios. Fazer 90 pontos daquele jeito ao longo de 38 rodadas, em uma das principais ligas do mundo, é outra história. O empate contra o Barcelona no confronto direto no último fim de semana, quando uma derrota entregaria o título aos catalães, acrescentou mais emoção a uma excepcional campanha.

7º – Flamengo – Libertadores 2019

A Conmebol não poderia ter ficado mais satisfeita. Nada melhor para promover a primeira final única da Libertadores do que uma massa flamenguista sedenta pelo título que lhe era estranho desde 1981 e empolgada com o exuberante futebol dos comandados de Jorge Jesus. O adversário ser o River Plate de Gallardo, grande time do continente nos últimos anos, deixou a disputa ainda mais pesada. E o roteiro daquela tarde em Lima levou tudo a um outro nível. O River Plate era campeão até os 44 minutos do segundo tempo, quando Gabigol começou a fazer os dois gols que mais serão lembrados em sua carreira. O Flamengo virou e coroou um ano fantástico, no qual seria também campeão brasileiro – no mesmo fim de semana.

6º – Chapecoense – Copa Sul-Americana 2016

O avião carregando o elenco da Chapecoense e profissionais de imprensa nunca chegou a Medellín, onde seria disputada a primeira partida da final da Copa Sul-Americana. Na queda, 71 pessoas morreram. Entre todos os atos de solidariedade do mundo do futebol naquele momento, o Altético Nacional solicitou à Conmebol que o título do torneio fosse cedido à Chapecoense “como homenagem à sua grande perda e em homenagem póstuma às vítimas do acidente fatal que deixou o esporte em luto”. Estamos acostumados a feitos dentro de campo, mas um ato de tanta grandeza fora dele é muito mais raro.

5º – River Plate – Libertadores 2018

A final que todos esperavam. Não haveria mais futebol depois dela – e, para ser justo, a previsão errou por menos de um ano meio. River Plate e Boca Juniors decidiram a Libertadores de 2018 naquela que foi chamada de “A Última Final”. Apelido apropriado, a começar porque foi a última decisão com partidas de ida e volta, mas, principalmente, porque o derrotado sabia que será muito difícil acontecer outra ocasião como aquela para poder se vingar. Que o jogo de volta tenha sido realizado no Santiago Bernabéu a gente tenta ignorar, embora seja difícil. As partidas não deveram em emoção e tensão e, ao fim delas, o River Plate se sagrou o grande campeão com dois gols na prorrogação.

4º – Corinthians – Libertadores 2012

O São Paulo ganhou no começo da década de noventa. O Palmeiras, no final. O Santos a havia conquistado nos anos sessenta. Durante mais de uma década, o corintiano teve que conviver com as piadas de que o seu time não era campeão da Libertadores. Até a libertação, em 4 de julho, coincidentemente o dia da Independência dos Estados Unidos. Toda a campanha foi épica, com Cássio versus Diego Souza e o gol de Paulinho contra o Vasco, a vitória diante do Santos de Neymar na semifinal e o gol de Romarinho na Bombonera. No Pacaembu, Emerson Sheik assegurou para sempre o status de ídolo ao marcar os dois gols de um dos maiores títulos da história do Corinthians.

3º – Real Madrid – Champions League 2013/14

Títulos que ganham apelidos são normalmente importantes, como já demonstramos neste texto. Após conquistar a sua nona copa europeia em 2002, o Real Madrid adquiriu uma obsessão: a décima. Ou La Décima, que é a mesma coisa, mas em espanhol. E parecia haver uma maldição. Foram seis anos seguidos perdendo nas oitavas de final. Depois três temporadas parando nas semis. Ela foi quebrada apenas em 2014, abrindo os cofres para acrescentar Gareth Bale a um time que já tinha Cristiano Ronaldo, Benzema, Modric e Di María. Um título tão esperado precisava vir com emoção. O Atlético de Madrid vencia por 1 a 0 até 48 minutos do segundo tempo, quando Sergio Ramos forçou a prorrogação. Sem pernas, os colchoneros foram presas fáceis no tempo extra. Quebrada a maldição, o Real Madrid também não parou mais de ganhar a Champions League. Foram três títulos seguidos com Zidane, também bastante mencionados nesta eleição, que levaram seu total a 13.

2º – Alemanha – Copa do Mundo 2014

O fim de um processo de revolução da seleção alemã, motivado pelos fracassos dos anos noventa e que foi pouco a pouco tomando forma. Os dois terceiros lugares nos Mundiais de 2006 e 2010 foram bons sinais, mas o país que protagonizou a famosa frase de Gary Lineker – “futebol é um jogo simples, com 22 jogadores perseguindo a bola e a Alemanha ganhando no final” – queria mais. A campanha não foi um passeio. Joachim Löw precisou fazer ajustes e viu seu time ser seriamente pressionado pela Argélia nas oitavas de final. Passou pela França na conta do chá. Mas fazer 7 a 1 no dono da casa em uma semifinal, sendo este dono da casa o maior campeão do mundo de todos os tempos, foi marcante. Ganhar uma final no Maracanã contra a Argentina de Lionel Messi com gol na prorrogação também. Sem nem falar em Schweinsteiger e Neuer cantando o hino do Bahia.

1º – Leicester – Premier League 2015/16

As casas de aposta chegaram a dar cotações de 5.000/1, o que no linguajar da indústria significa que nunca, nem se o inferno for congelado por uma vaca voadora, aquilo vai acontecer. Faltou combinar com Claudio Ranieri e sua turma do barulho. Em uma liga na qual o dinheiro manda, em que a tabela de classificação quase sempre reflete a tabela de salários e orçamentos, o Leicester foi semana a semana adiando a transformação em abóbora com um futebol super-eficiente, bem organizado e comandado pelos talentos de Riyad Mahrez, Jamie Vardy e N’Golo Kanté. Até a época das festas de fim de ano, o discurso ainda era escapar do rebaixamento. Depois, ver se garantia a vaga na Champions League antes de acordar do sonho. Como o despertador demorou a tocar, deu tempo de mirar o título. Um conto de fadas perfeito, com um líder carismático, um artilheiro que produzia próteses e o filho de uma lenda da Premier League debaixo das traves, para ficar apenas em algumas. Mais do que isso: um milagre que dificilmente se repetirá em um futebol cada vez mais ordenado pelo dinheiro – ou que pelo menos estava assim antes da pandemia.

Também foram citados:

Manchester City Premier League 2017/18, Real Madrid Champions League 2017/18, Atlético Mineiro Libertadores 2013, Portugal Eurocopa 2016, Liverpool Champions League 2018/19, Bayern Champions League 2012/13, Chile Copa América 2015, Monaco League One 2016/17, Barcelona Champions League 2014/15, Real Madrid Champions League 2016/17, Chelsea Champions League 2011/12, Uruguai Copa América 2011, River Plate Libertadores 2015, Ajax Eredivisie 2018/19, Flamengo Brasileirão 2019, Al Ahly Champions da África em 2012, Manchester City Premier League 2018/19, Santos Libertadores 2011 e Juventus Serie A 2011/12