O clássico entre o Brasil e Argentina é recheado de histórias. Algumas destas, longe de fomentarem o orgulho. Todavia, foi a partir delas que se forjou a rivalidade futebolística entre os países. E, na primeira metade do século passado, não foram poucas as vezes em que o confronto terminou em confusão. Antes do jogo decisivo desta quarta, relembramos três desses episódios, todos válidos pelo Campeonato Sul-Americano, precursor da atual Copa América. O futebol acabou sendo pano de fundo a um sem fim de imbróglios entre as seleções.

1925: Um conto natalino com futebol, boemia e confusão

Já imaginou um Brasil x Argentina em pleno Natal? Válido pela Copa América? E ainda colocando a taça em jogo? Pois aconteceu, há nove décadas. Cerca de 30 mil testemunhas presenciaram o jogo histórico em Buenos Aires.

O Campeonato Sul-Americano de 1925 foi bastante esvaziado. Em tempos nos quais os países ao norte do continente não participavam do certame, Uruguai e Chile optaram por não entrar na disputa. Enquanto os uruguaios viviam conflitos internos na federação, os chilenos desistiram diante dos maus resultados em 1924. Assim, o torneio acabou limitado a Argentina, Brasil e Paraguai, que se enfrentaram em turno e returno a partir de novembro.

O calendário de jogos se estendeu durante semanas. E guardou o desfecho justamente para 25 de dezembro. A Argentina chegou à última rodada com dois pontos de vantagem sobre o Brasil, fruto da goleada por 4 a 1 no primeiro confronto. Porém, aquela derrota causou uma punição disciplinar sobre os jogadores brasileiros, acusados de boemia em Buenos Aires – “na véspera do jogo contra os argentinos, tínhamos passado a noite rodando pelos cabarés, em meio a muita bebida, tango e chicas”, confessou o zagueiro Floriano Peixoto, em sua biografia.

Com a vigilância bem mais rígida do técnico uruguaio Ramón Platero, que comandou o elenco naquela ocasião, os brasileiros venceram os paraguaios pela segunda vez e seguiram com chances para a rodada decisiva. Precisavam vencer o clássico para se igualar aos argentinos e forçar um jogo de desempate. O que criava um enorme clima de decisão no Estádio Sportivo Barracas, em Buenos Aires.

O palco do primeiro gol olímpico não trazia boas lembranças ao Brasil. Em 1920, a Seleção disputou o seu primeiro amistoso em Barracas sob protestos. A equipe visitante entrou em campo com apenas sete jogadores, depois que um jornal local os chamou de “macacos”. Em partida que sequer é considerada oficial, a vitória da Argentina por 3 a 1 foi o de menos. E tão condenável quanto a atitude do veículo foi a reação do presidente da república, Epitácio Pessoa. Na volta ao estádio de Barracas para o Sul-Americano de 1921, o governante pediu para que “jogadores de pele mais clara e cabelos lisos fossem convocados”. De novo a Seleção perdeu para a Albiceleste, desta vez por 1 a 0.

A discriminação institucionalizada cessou a partir de 1922, quando o governo parou de interferir na miscigenação do elenco e o Brasil conquistou o Sul-Americano disputado no Rio de Janeiro, em meio às comemorações do centenário da Independência. Entretanto, o histórico desfavorável aumentava as tensões para o duelo decisivo em 1925. O time liderado pelo lendário “El Tigre” Friedenreich enfrentaria um clima intenso no segundo clássico com os argentinos.

A torcida da casa abarrotou as arquibancadas para a final. E, embora tenha recebido os jogadores sob aplausos, não dava para esperar que se contivesse. O Brasil teve que aturar a pressão dos argentinos, que vibravam e urravam em Barracas. Apesar disso, o ambiente não pesou contra a objetividade dos brasileiros no início do confronto, partindo para cima do time da casa e buscando a vitória. Friedenreich abriu o placar aos 27 minutos, enquanto Nilo ampliou a vantagem três minutos depois.

Naquele momento, o Brasil ia forçando o jogo-extra. E, com os ânimos exaltados, o zagueiro Muttis deu uma entrada desleal em Friedenreich, além de insultá-lo. El Tigre não aceitou a agressão e revidou com um pontapé no argentino. Gerou uma confusão entre os jogadores. Além disso, alguns torcedores invadiram o campo, em relato impreciso das fontes da época. Os atletas foram protegidos por um círculo formado pela polícia e por soldados do exército presentes.

O jogo permaneceu paralisado por cinco minutos. Os demais jogadores convenceram Friedenreich e Muttis a se abraçarem, dando carta branca para o árbitro Manuel Chaparro seguir em frente, sob ânimos mais calmos também nas arquibancadas, que aplaudiram o gesto. Entretanto, a hostilidade fez com que a Seleção se desencontrasse em campo. A Argentina diminuiu a diferença ainda no primeiro tempo, com Cerrotti. Já no início da etapa complementar, Seoane anotou o tento que garantiu o empate por 2 a 2. Que consagrou o título à Albiceleste.

Só que o jogo não acabou com o gol, embora o nível técnico não fosse dos melhores. Os brasileiros ainda precisaram lidar com a tensão. Segundo o livro ‘Deuses da Bola – 100 anos da seleção brasileira’, pedras foram arremessadas contra dirigentes brasileiros e o diretor técnico Joaquim Guimarães terminou atingido por um saco de água na cabeça. “Pelo menos não foi de mijo”, afirmou, depois do confronto. Cenas de um jogo histórico. Parte dos jornais da época e os dirigentes, contudo, apaziguavam o ocorrido.

Todavia, a Seleção demorou a ter uma chance de revanche. O Itamaraty decidiu que o melhor era se ausentar do Campeonato Sul-Americano – conforme relatam Antônio Carlos Napoleão e Roberto Assaf no livro ‘Seleção brasileira: 1914-2006’. Além disso, por conta das costumeiras brigas entre paulistas e cariocas na CBD, o Brasil disputou apenas quatro partidas até a estreia na Copa do Mundo de 1930, todos amistosos contra clubes estrangeiros.

1937: O estopim da rivalidade

O Brasil demorou 12 anos para se reencontrar com a Argentina. O próximo duelo aconteceu em 1937, pelo Campeonato Sul-Americano realizado novamente em Buenos Aires. E não seria uma partida qualquer: serviria para decidir o título da competição continental, podendo dar a taça aos brasileiros em pleno (Viejo) Gasómetro. Obviamente, não terminou bem – especialmente porque o troféu dependeria de um jogo-extra, após o triunfo albiceleste naquele primeiro encontro. A segunda peleja terminou marcada como a primeira decisão entre brasileiros e argentinos.

Treinada por Adhemar Pimenta, a Seleção preparava o time que chegaria às semifinais da Copa do Mundo de 1938. Não contava com Leônidas e Domingos da Guia no torneio continental, mas trazia um elenco forte o suficiente, encabeçado por nomes como Tim, Patesko, Niginho, Brandão e Carvalho Leite. A Argentina, porém, era uma carne de pescoço ainda mais difícil de mastigar. Tinha um dos melhores times de sua história, ao menos no papel.

Velho carrasco de 12 anos antes, Manuel Seoane agora comandava a equipe. Em campo, os albicelestes viviam o florescimento dos ídolos de seus primeiros anos profissionais. Ficava até difícil encaixar tantos craques, sobretudo no ataque. Francisco Varallo, Alberto Zozaya, Roberto Cherro, Carlos Peucelle, Bernabé Ferreyra e Vicente de la Mata davam um punhado de opções fantásticas. Todos passaram dos 100 gols por seus clubes e quatro deles foram artilheiros do Campeonato Argentino. Como se não bastasse, outra alternativa ofensiva era o ‘oriundi’ Enrique Guaita, campeão do mundo em 1934 com a Itália, ou os não menos renomados Enrique García e Alejandro Scopelli. Um pouco mais atrás, ainda aparecia Antonio Sastre.

O esquadrão da Argentina, no entanto, perdeu o clássico contra o Uruguai na penúltima rodada do hexagonal. Seria obrigado a derrotar o Brasil na última partida, se não quisesse ver os oponentes comemorando dentro de sua casa. Além do mais, um empate bastava para consagrar os brasileiros. Os 80 mil presentes no Gasómetro intimidavam. E a Albiceleste conquistou a vitória necessária, se impondo contra os rivais. O time de Manuel Seoane foi superior durante os dois tempos e garantiu o triunfo por 1 a 0 logo na volta do intervalo, com Enrique García. Não seria uma ocasião tranquila aos brasileiros, entretanto. Revoltados com a “arbitragem parcial”, partiram para cima de Aníbal Tejada e precisaram ser contidos por policiais. O uruguaio seria acusado dias depois de ofender os atletas com termos racistas.

Com aquela vitória, a Argentina terminava o hexagonal do Campeonato Sul-Americano empatada em pontos com o Brasil. Seria necessária, então, a realização de um jogo-extra para determinar o campeão. O duelo aconteceu apenas dois dias depois, no próprio Gasómetro. Ganharia a alcunha de “Jogo da Vergonha” pelos jornais brasileiros. Tejeda se recusou a apitar o reencontro e a arbitragem ficou sob a batuta de Luís Alberto Mirabel.

Diante dos ânimos aflorados, seria uma partida pegada do início ao fim. Os argentinos já haviam reclamado da violência dos brasileiros no duelo anterior. E é difícil determinar precisamente quem começou a “troca de gentilezas”, entre relatos divergentes da imprensa de ambos os países. Britto foi um dos protagonistas. Após se estranhar com Zozaya no embate anterior, o defensor desta vez se enroscou com García. Zozaya também tirou Jaú momentaneamente de campo com uma pancada. Depois, Britto perdeu a cabeça e deu um pontapé em Cherro, o que paralisou a partida. Mas o estopim viria depois, aos 35 minutos, quando Varallo tomou um chute – segundo a Revista El Gráfico, desferido por Afonsinho, embora o Jornal dos Sports mencione Carnera. O artilheiro caiu no chão, mas logo se levantou e revidou. A partir de então, uma confusão generalizada aconteceu.

A polícia entrou em campo para intervir. E, segundo o Jornal dos Sports, também agrediu os brasileiros Carnera e Cardeal, além do jornalista Thomaz Mazzoni, célebre nome de A Gazeta Esportiva. Por conta do “sururu” (como classificou o periódico na época), parte dos jogadores da Seleção se retiraram de campo. Ficaram mais de meia hora nos vestiários, exigindo que a polícia se retirasse do campo para que o jogo recomeçasse. Só aceitaram voltar quando dirigentes argentinos deram suas garantias. O público presente clamava por uma vitória por W.O.

Mas engana-se quem pensa que a paz estava garantida. Oito minutos depois do reinício, Zozaya estava caído e Cherro fez uma falta intencional em Roberto, para que o companheiro fosse atendido. Luisinho então partiu para cima de Cherro e, logo depois, Britto se atracou com o argentino. Segundo o Jornal dos Sports, o brasileiro recebeu pontapés enquanto estava no chão, algo não registrado pela El Gráfico. A polícia teve que se meter no meio outra vez, desta vez para proteger os visitantes até o local onde estavam os jornalistas estrangeiros. De novo o Brasil ameaçou se retirar, mas as portas dos vestiários do Gasómetro estavam fechadas, o que os levou a mudar de ideia. A esta altura, o Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Saavedra Lamas, que estava nas tribunas, já tinha se retirado do estádio.

Findado o interminável primeiro tempo, o jogo se acalmou a partir de então. Segundo a El Gráfico, nos vestiários aconteceu uma grande reconciliação entre os jogadores. Pediram desculpas, trocaram frases amistosas e se abraçaram. Ainda aconteciam entradas mais duras, mas as agressões finalmente cessaram. Os dois times levaram perigo, mas a segunda etapa também terminou sem gols. O herói da noite só apareceu nos 30 minutos de prorrogação, quando a peleja já adentrava na madrugada. Vicente de la Mata era uma jovem promessa naquela época, aos 19 anos, antes de se tornar uma verdadeira lenda do Independiente. Deu a maior prova de sua grandeza, com dois gols no segundo tempo extra. O último tento foi alvo de reclamação dos brasileiros, afirmando que estava impedido, mas o árbitro manteve a decisão. Ao final de uma extensa labuta, a Argentina conquistou a taça com o triunfo por 2 a 0. Alguns brasileiros se juntariam à volta olímpica e o chefe da delegação, José Maria Castello Branco, que retirou o time de campo ambas as vezes, reconhecia a vitória merecida dos vizinhos.

O Jornal dos Sports ainda conclamou uma vingança dos compatriotas. Em sua capa no dia seguinte, botou na manchete que os brasileiros foram “quase chacinados”. Seguiu polemizando nos dias seguintes, com acusações aos argentinos, dizendo que as agressões de Cherro e Varallo eram premeditadas. Ao final, a CBD decidiu botar panos quentes na situação, tratando amistosamente o entrave com as autoridades argentinas e saudando publicamente a paz, em anúncio na capa do periódico esportivo. Cerca de 10 mil pessoas foram ao porto de Santos recepcionar os vice-campeões.

Mais branda era a conclusão da revista El Gráfico, que também criticava duramente a passividade da confederação sul-americana em conter a violência na competição: “Quem foram os culpados? Difícil dizer, mas todos os atores têm sua parte de culpa, sem distinguir argentinos e brasileiros. Talvez a confusão teve mais culpa dos nossos, mas a origem da provocação veio dos brasileiros. Não desçamos a procurar mais. A verdade é que ninguém poderia cumprir aquele preceito: ‘Quem não for culpado que atire a primeira pedra’. Resta esperar que o tempo faça desaparecer o rancor criado por essa rivalidade, que passou dos limites, e que as futuras contendas constituam uma mostra superior de cultura esportiva”. Ficou a história de uma grande batalha.

1946: Duas fraturas e dez anos de separação

A partir de 1939, Brasil e Argentina retomaram a Copa Roca. O clássico se tornou frequente naquela virada de década, com amplo domínio da Albiceleste. Foi neste período que aconteceram as maiores goleadas do duelo, com direito a um 6 a 1 dos argentinos em 1940. Os brasileiros apareciam abaixo dos vizinhos, até que o cenário começasse a mudar na segunda metade dos anos 1940. Em dezembro de 1945, a Seleção chegou a golear por 6 a 2 pela Copa Roca, em resultado que forçava um terceiro jogo para definir o campeão. Deu Brasil de novo, com triunfo por 3 a 1 marcado pela violência. Naquele momento, apesar do timaço da Argentina, ficava claro que os brasileiros poderiam bater de frente e sonhar com o título do Campeonato Sul-Americano de 1946, semanas depois. Realmente, foram os dois principais concorrentes do torneio ocorrido em Buenos Aires. De novo, para que o certame terminasse em uma baita confusão, maior que as anteriores.

Flávio Costa convocou um time que se concentrava principalmente no futebol carioca, já com futuros craques da Copa de 1950 despontando. Entre os titulares, apareciam nomes como Zizinho, Jair, Chico e Danilo. Ademir era reserva, mas porque competia com Heleno de Freitas no comando do ataque. Além disso, entre os “reforços” de outros estados, craques do calibre de Domingos da Guia e Tesourinha. De qualquer maneira, esperar o título do Brasil estava longe de ser uma aposta segura. Além de jogar em casa, a Argentina possuía um elenco bem mais tarimbado e que havia erguido o troféu no ano anterior.

A Albiceleste já era treinada naquela época por Guillermo Stábile, grande comandante da seleção naquela metade de século. Sua base principal vinha da célebre Máquina do River Plate, incluindo Adolfo Pedernera, Félix Loustau e Ángel Labruna na linha de frente. O trio era reforçado ainda por Vicente de la Mata, velho conhecido dos brasileiros, e por Norberto Méndez, então destaque do Huracán que havia sido artilheiro do Sul-Americano de 1945. Intimidavam, apoiados mais atrás por ídolos locais como José Salomón e Natalio Pescia.

O filme daquele Sul-Americano lembrou um pouco o que se viu em 1925 e 1937. Desta vez, a Argentina atropelou os concorrentes e chegou à rodada final do hexagonal com oito pontos. O Brasil tropeçou contra o Paraguai, sua pedra no sapato durante o período, mas ficou em condições de sonhar com a taça na rodada final. O clássico fechava a competição, dentro do Monumental de Núñez. Um empate já selaria a festa da Albiceleste, confiante. Ao final, a partida seria bem menos lembrada pelo triunfo por 2 a 0 dos anfitriões.

A primeira cena emblemática aconteceu antes mesmo que a bola rolasse. Na tal vitória brasileira por 3 a 1, aquela marcada pela violência, José Battagliero fraturou a perna em um choque com Ademir de Menezes – descrita como casual pela imprensa tupiniquim, mas classificada como criminosa pelos cronistas vizinhos. Para incitar a torcida no Monumental, os argentinos deram uma volta olímpica com o zagueiro antes do pontapé inicial, com a perna engessada e carregado em uma maca. A atmosfera em Núñez, que já seria naturalmente quente, terminou incendiada pelo gesto – demonstrando claramente como os albicelestes não haviam engolido o episódio. Antes do clássico, os brasileiros até tentaram visitar o adversário para evitar qualquer rusga, algo que ele mesmo recusou. Faria pior, motivando um incontornável clima hostil.

Quando a bola rolou, começou o pega pra capar. Entre as jogadas ríspidas e os empurrões trocados, a partida seguia, até que a batalha estourou aos 28 minutos. Mais uma vez, um lance sobre qual as versões não batem. Em uma disputa pelo alto com Jair, o capitão José Salomón conseguiu afastar a bola, mas acabaria sofrendo uma fratura dupla na perna. Segundo seu próprio relato, causado por uma solada do brasileiro. O capitão argentino permaneceu estirado no chão, enquanto a pancadaria tomava conta do gramado no Monumental. Os visitantes se uniram em um grupo para evitar as pancadas, mas Chico não conseguiu se juntar a eles – teria batido por trás em Natalio Pescia. O ponta recebeu uma surra coletiva dos oponentes, até se recuperar. A polícia teria escoltado a equipe, embora Antônio Carlos Napoleão e Roberto Assaf digam que ela também agrediu o atleta.

“Fonda e Strembel perseguiram Chico e Jair; socos e pontapés; comoção geral, confusão, tropeções, paus; invasão de campo por inúmeros agentes da polícia; Chico, depois de pegar Pescia, era perseguido por Marante, recebe um pontapé, segue sua corrida até o túnel; os policiais, ante a possibilidade de alcançá-lo com os braços, pretendem derrubá-lo; cai Chico diante da tribuna da imprensa e recebe uma saraivada de golpes, até que o deixam retomar sua caminhada até os vestiários, tomando a cabeça dolorida e olhando com expressão de terror; no resto do campo, amarga ironia, se prolonga a confusão. São cinco ou dez minutos de loucura incrível. A polícia, excessivamente numerosa, também foi excessiva e desnecessariamente enérgica”, escreveu a revista El Gráfico. Assaf e Napoleão chegam a apontar que o ponta brasileiro desmaiou, amparado pelos companheiros.

O Brasil se refugiou nos vestiários, enquanto Chico se recuperava. Os jogadores já tiravam o uniforme, quando chegou o chefe do policiamento. Afirmou que, se os brasileiros não voltassem a campo, ele não conseguiria conter a revolta popular dos 80 mil presentes no Monumental. Não havia outra escolha. Segundo o próprio Labruna, seria o capitão Domingos da Guia o responsável por convencer seus companheiros a aceitar o retorno, sob garantias das autoridades. Com cada jogador brasileiro escoltado por outro argentino ao seu lado, o clima se apaziguou, permitindo que a bola voltasse a rolar. Chico havia sido expulso, assim como Vicente de la Mata, outro que perdeu a mão na confusão.

Sem cabeça para futebol, o Brasil naturalmente terminou derrotado. Aos 39 minutos, Loustau fez grande jogada em cima de Domingos e passou a Pedernera. O craque então serviu Méndez, que soltou uma bomba para abrir o placar. Já aos 14 minutos da segunda etapa, mais uma boa jogada de Loustau permitiu a Méndez ampliar. O fim do jogo ainda teria o destempero de Heleno, que atirou a bola no bandeirinha, sem grandes consequências. O título era mesmo da Argentina. A torcida invadiu o gramado para celebrar, mas os brasileiros puderam sair ilesos. Os vizinhos estavam mais interessados em festejar a conquista.

Aquele Campeonato Sul-Americano, porém, marcaria a cisão entre CBD e AFA. As duas entidades cortariam relações, em entraves com amplas consequências. Por conta do imbróglio, o Brasil se tornou o único ausente no Sul-Americano de 1947, que consagrou o tri da Albiceleste, enquanto a Argentina não esteve presente no Sul-Americano de 1949 e na Copa de 1950. O futebol argentino sofreria outras consequências, afetado pela greve de jogadores de 1949 e pela saída massiva de seus craques rumo ao El Dorado Colombiano no mesmo período. O clássico só voltaria a acontecer em 1956, pelo Sul-Americano, com Luizinho determinando a vitória tupiniquim por 1 a 0. A partir de então, a rivalidade seria mais sobre bola e menos sobre pancadas.

Como dica de leitura complementar, vale conferir também o material publicado no Futebol Portenho sobre as três partidas – uma das referências ao conteúdo acima e que serve de leitura extra, com outros detalhes:

– 90 anos de um tumultuado Brasil-Argentina na Copa América

– 80 anos da 1ª final entre Brasil x Argentina, que ganhou graças a um menor de idade

– 70 anos da mais tumultuada final Brasil x Argentina: a Copa América de 1946