O jogo da vida de Vinicius Bail aconteceu há pouco mais de um ano, em abril de 2014. O menino de 12 anos batia bola com seus amigos no colégio em Guarapuava, cidade paranaense a 250 km de Curitiba. E a chance de fazer um gol, sem querer, o colocou em risco. Daquelas histórias que, de tão impressionantes, fazem a gente se perguntar se estamos dentro de um filme ou um livro. Vinicius chutou a bola no travessão adaptado, preso na parede a uma corrente. A estrutura já desgastada não aguentou o impacto e ia caindo em cima do colega. Por reflexo e preocupação, o atacante empurrou o goleiro para evitar o desastre, mas ele mesmo não conseguiu escapar. A trave despencou na sua testa.

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Nestas linhas imprevisíveis que o roteiro da vida segue, Vinicius continua apaixonado por futebol. Ele já não se lembra mais do que aconteceu naquele momento, ainda que tenha se mantido consciente por cerca de cinco horas. Após desmaiar com o impacto, foi carregado até a secretaria nos braços de outro colega, Eduardo, que agiu assim por ter um pai com problemas de saúde. Já no hospital, descobriu fraturas no crânio, além de hemorragia interna no cérebro. Naquele mesmo dia passou pela primeira das duas cirurgias em decorrência do acidente. Permaneceu 22 dias em coma. Depois, atravessou dois meses em uma cadeira de rodas. Mas a principal sequela aconteceu no principal sentido que o fazia se encantar com o futebol: a pressão intracraniana afetou o nervo óptico e o fez perder totalmente a visão.

Mais de um ano depois do acidente, Vinicius já retomou a sua rotina de garoto de 13 anos. Com as adaptações que sua nova realidade lhe impôs, é claro. Entre aulas de braile, academia, fisioterapia e outras atividades, a agenda do menino é bastante cheia. Incluindo também a mesma escola, o Colégio Estadual Visconde de Guarapuava, onde reencontrou os antigos colegas e conheceu novos. E, claro, existe espaço ao futebol. Uma paixão não se abandona por qualquer limitação. Ele continua acompanhando os jogos, como fazia antes do acidente.

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“O Vinicius é um menino bastante alegre, bastante esforçado. No colégio, ele era líder da turma. Agora ele está aprendendo a ler em braile, usa o computador, usa o celular. E voltar à escola foi uma das melhores coisas que aconteceram com ele, enfrentando os problemas. Apesar da falta de visão, o cérebro vai se readaptando, vai orientando um caminho”, conta Edvilson Santos, o pai do menino. Ao lado da mãe, Solange, e dos três irmãos (um mais velho, de 16 anos, e dois gêmeos de oito), é o eletrotécnico quem ajuda a cuidar de Vinicius. Ele e a esposa também alimentam a maior esperança do filho recuperar a visão, ou pelo menos parte dela.

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Solange e Edvilson levaram Vinicius a alguns dos maiores especialistas em oftalmologia do país. A resposta era quase sempre a mesma, de que não existia nenhum medicamento ou cirurgia que ajudaria o menino. Só o tempo, a recuperação natural. Então, os pais resolveram rodar o mundo através da internet, para ver se existia alguma solução possível. Descobriram um tratamento com células-tronco na Tailândia, que poderia auxiliá-lo. Depois de verificarem a qualidade do Hospital Beike e explicarem para o filho a possibilidade que se abria, começaram a correr atrás dela, com o apoio do próprio colégio. O problema é o custo: R$ 150 mil reais, para bancar a viagem e os cuidados médicos.

“Não é nenhum tratamento milagroso, que vai garantir a visão completa do Vinicius de volta. Mas temos fé, acreditamos que possa garantir uma resposta positiva, principalmente porque os maiores sucessos aconteceram justamente em tratamentos do nervo óptico. Confiamos que possa melhorar a situação dele. Nós sentimos a obrigação de ajudá-lo buscando esses recursos e indo atrás do que é possível. A gente pode não conseguir, mas não vai deixar de tentar”, explica. A solidariedade já começou. A vaquinha começou a ser compartilhada por várias páginas no Facebook, com a ajuda do amigo Marcel Bely. Em três dias, arrecadou mais de cinco mil reais, com o auxílio de 115 pessoas. (Para acessá-la, basta clicar aqui)

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Enquanto a família se esforça para a arrecadação, Vinicius mantém o sorriso no rosto. Faz tudo o que um menino de 13 anos costuma fazer, independente das limitações. A diversão está no computador e no celular adaptados, assim como na bateria, que começou a aprender a tocar depois do acidente. Mesmo sem gostar tanto de rock, toca o AC/DC, enquanto também curte o regionalismo de Teixeirinha e da banda Os Serranos. Ah, e claro, não largou o futebol. “Ele não fala que vai ouvir o jogo, sempre que vai assistir. Ele vê, mas de outra maneira”, diz Edvilson.

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Conversei com Vinicius nesta quinta, depois de uma rodada quente da Champions. E, como bom fã de futebol europeu, não deixou de palpitar. Ficou surpreso com o placar da derrota do Bayern, já que, mesmo curtindo do Messi, não tem tanto gosto pelo Barcelona. Seu clube preferido é o Real Madrid e, coincidentemente, a Juventus, com quem jogava no videogame por causa de Buffon, o melhor goleiro do mundo. Vinicius, aliás, estava jogando na linha no dia fatídico por mero acaso, já que preferia mesmo ir para o gol. Também gostava de Casillas, mas as falhas do espanhol na Copa o decepcionaram. E, independente dos 7 a 1, ficou feliz com o título da Alemanha.

Já no Brasil, Vinicius divide o coração entre duas cores: o Flamengo, clube de seu pai, e o Coritiba, dentro do Paraná. “Gosto do Alex. Acho ele gente boa. Mas nos últimos jogos da carreira ele foi ficando mais fraquinho”, analisa o menino, sem misturar idolatria e parcialidade. E, apesar da cegueira, ele prefere seguir fiel aos jogos na televisão ao invés do rádio. “Só acho ruim quando é o Galvão Bueno narrando. Ele fica comentando muito o jogo, não descreve os lances. Não dá para saber o que está acontecendo”, fala, com o discurso de um bom analista que, segundo ele mesmo, gosta de apontar para os erros.

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Por enquanto, Vinicius segue com as chuteiras penduradas. Não joga mais com os amigos na escola e nem com o irmão mais velho, no campinho de bairro que fica perto da casa da avó. E a limitação não é nem exatamente a cegueira. O menino segue com parte do crânio aberta, exigindo cuidados extras. Não pode se expor, com risco de sofrer lesões cerebrais. Enquanto isso, está na fila de espera do sistema público de saúde para realizar mais uma cirurgia.

Até o final da vaquinha, Vinicius acompanhará o início do Brasileirão, saberá quem estará na final da Champions e, talvez, até vai comemorar um título do Real Madrid ou da Juventus. Manterá também a expectativa de realizar o tratamento que pode permiti-lo ver outra vez o verde dos gramados. Voltar a fazer as coisas como antes, de jogar bola como os outros meninos de sua idade. “A gente quer mostrar para as pessoas que este é um lugar de trazer o sonho, de poder ajudar o Vinicius. Porque a coisa mais triste o que fazer diante do problema. E, com esse tratamento, ele tem”, conclui Edvilson. A Copa do Mundo da vida de Vinicius, agora, poderá acontecer na Tailândia.

Para ajudar Vinicius, é simples: basta entrar na página do site Vakinha, onde a arrecadação acontecerá até 4 de junho. A organização é feita por Marcel Bely, que também conta por lá a história do menino paranaense. Vale, e muito, a sua solidariedade. Clique aqui para acessar.