A trajetória brilhante de Valdir Espinosa em seus três grandes atos: Grêmio, Botafogo e Cerro Porteño

Sobretudo entre as décadas de 1980 e 1990, Valdir Espinosa se colocou entre os melhores treinadores do país. Jovem e com ideias arejadas, o gaúcho tinha muitas qualidades para sustentar seu prestígio. Prezava por uma relação próxima com os seus jogadores, professava um futebol técnico que não perdia a garra e tinha uma ótima leitura tática, não só para ajustar o coletivo, mas também para tirar o melhor de suas peças. Assim, trabalhou em boa parte dos maiores clubes do país e conquistou títulos importantes.

De norte a sul, Espinosa abriu portas com seu talento. A carreira extensa inclui trabalhos por Flamengo, Vasco, Fluminense, Corinthians, Palmeiras, Portuguesa, Coritiba, Atlético Mineiro, Vitória, Fortaleza, Santa Cruz e por aí vai. Conquistou estaduais à frente de Ceará, Athletico Paranaense e Brasiliense, além de ser vice do Gauchão com o Esportivo de Bento Gonçalves. Entretanto, seu status de lenda acaba restrito a três agremiações principais: Grêmio e Botafogo, além de Cerro Porteño, sua experiência mais bem-sucedida no exterior.

Com o Grêmio, Espinosa rompeu fronteiras, ao revolucionar o clube a partir das conquistas da Libertadores e do Mundial. À frente do Botafogo, o treinador encerrou as penúrias, com o título do Carioca que botou um ponto final ao jejum de 21 anos. Já no Cerro Porteño, também findou uma fila amarga à torcida no Campeonato Paraguaio, assim como se projetou à seleção nacional. Não parece mera coincidência que, em todos esses trabalhos, Espinosa lançou talentos e viu alguns jogadores importantes chegarem ao ápice de suas carreiras.

Nesta quinta-feira, Valdir Espinosa faleceu aos 72 anos. O veterano passou por uma cirurgia recente no abdômen e não resistiu às complicações decorrentes da operação. Seguia na ativa, trabalhando como gerente de futebol do Botafogo. Seu velório acontecerá no salão nobre de General Severiano.

Para exaltar a memória de Espinosa e recontar um pouco de sua história, retratamos os feitos nos três principais clubes de sua carreira. De maneira breve, tentamos apresentar a importância dos momentos que viveu em Grêmio, Botafogo e Cerro Porteño. A grandeza de Espinosa estará preservada pelos feitos que construiu.

Grêmio: A América e o Mundo são tricolores

A relação de Valdir Espinosa com o Grêmio começa ainda dentro de campo, nos tempos em que o gaúcho atuava como lateral. Nascido em Porto Alegre, o jovem iniciou sua carreira nas categorias de base tricolores e ganhou as primeiras chances no time profissional em 1968. Esteve presente no elenco que conquistou o título do Campeonato Gaúcho daquele ano, antes que o Inter começasse a dominar o estadual. Todavia, foi a partir de 1969 que Espinosa assumiu o posto de titular. Enquanto o lendário Everaldo atuava na lateral esquerda, o novato cumpria sua função pelo lado direito, com boas doses de qualidade técnica – apesar de certa acomodação nos treinos, como ele mesmo avaliaria anos depois.

Valdir Espinosa permaneceu no Grêmio até 1973. Disputou mais de 200 partidas pelo Tricolor. Rodaria por outros clubes, com passagens por Vitória, CSA e CRB, antes de se transferir ao Esportivo de Bento Gonçalves. E o clube do interior gaúcho seria fundamental à carreira do treinador, de diferentes maneira. Após um ano ocupando a lateral direita, Espinosa se aposentou e assumiu a prancheta. Virou técnico do Esportivo quando tinha apenas 32 anos. Disposto a vender imóveis na Serra Gaúcha, aceitou o novo emprego entre uma cerveja e outra, durante um churrasco com dirigentes de Bento Gonçalves. Meses depois, já protagonizou uma campanha histórica, ao terminar na segunda colocação do Gauchão de 1979, à frente do Inter. Naquela época, conheceria um garoto que despontava na base, chamado Renato Portaluppi.

A partir dos anos 1980, Espinosa começou a subir degraus e a acumular títulos em sua carreira como treinador. Ele chegou a treinar brevemente o Grêmio em 1980, mas saiu por não admitir a intromissão de um dirigente. Deu tempo de indicar Renato como contratação ao Tricolor. Na sequência do ano, o jovem técnico faturou o estadual com o Ceará. Também passou pelo Londrina, onde iniciou a temporada que renderia o título do Paranaense em 1981, já sob as ordens de Urubatão. No entanto, a história no Olímpico estava fresca na memória e o promissor treinador retornou ao Grêmio em 1983. Assumiria o lugar de Castilho, que suplantara Ênio Andrade, campeão brasileiro com os tricolores em 1981.

Valdir Espinosa contava com uma base forte em mãos, que havia disputado duas finais consecutivas no Campeonato Brasileiro e estaria na Libertadores de 1983. Ainda assim, a participação do treinador no ajuste fino da equipe seria fundamental. Primeiro, por adicionar jogadores e recuperar outros. Talvez o melhor exemplo seja o próprio Renato, escanteado com “Seu Ênio”, que corria risco de ser emprestado quando foi bancado pelo antigo companheiro de Esportivo. Tarciso, outro que jogou com Espinosa, também desistiu de se transferir para se tornar um coringa e uma liderança com o novo técnico. Além do mais, o comandante arredondou um time bastante competitivo, que largava mão da “escola gaúcha” de futebol. Ainda que aguerridos, os gremistas também praticavam um futebol mais solto e vistoso.

Em matéria de março de 1983, após três meses do trabalho de Valdir Espinosa, a revista Placar destacava como o Grêmio praticava um “futebol carioca”. “Cansado do futebol-força à base de muitos chuveirinhos e algumas trombadas na área, o Olímpico resolve adotar o que sempre abominou: o futebol-arte do Maracanã”, destacava a publicação. Admitidamente admirador do Flamengo de 1981, Espinosa propunha um jogo mais cadenciado e com toques curtos, o que já tentara praticar no Esportivo. Para repetir a fórmula no Olímpico, contava com a presença de jogadores mais refinados tecnicamente, como Hugo de León e Tita. Todavia, o brio também seria importante na histórica campanha pela Libertadores.

“Não era uma questão de peito chegar falando que mudaria o futebol gaúcho. A ideia ganhou força porque a torcida queria ver bom futebol e não conseguia. O Grêmio, no último Campeonato Gaúcho, não apresentou futebol: foi só garra e correria. Futebol pode ser competitivo e bonito”, explicou à Placar, em maio de 1983. “As contratações obedecem basicamente a critérios da diretoria. A filosofia de jogo, esta sim, é que é minha. Aqui achavam que um time tem de ter dois pontas e um centroavante nato. Pois o Grêmio joga sem ponta-esquerda e se comporta muito bem no ataque, porque há momentos em que avançamos com três pontas-de-lança. Subvertemos tudo. E está dando certo”.

O talento de Espinosa estava em montar uma equipe equilibrada, com suas doses de qualidade, mas também firme na marcação. Assim, o Grêmio superou adversários de peso ao longo da Libertadores. O treinador soube adaptar seu time a diferentes desafios e também se deu bem com substituições decisivas. Além do mais, tinha o mérito de domar o espírito em combustão de Renato, finalmente tornando-se o craque que todos esperavam. Após eliminar Flamengo, América de Cali e Estudiantes, o Tricolor se impôs na final contra o Peñarol, que vinha de título recente e possuía uma tradição continental maior na época. A mescla garantida por Espinosa colocava o Grêmio em um lugar no qual apenas Santos, Cruzeiro e Flamengo haviam chegado até então: o topo da América.

E tinha mais. Em dezembro, o Grêmio ampliou o tamanho de sua façanha ao derrotar o Hamburgo em Tóquio, no Mundial Interclubes. De novo, Valdir Espinosa mexeu astutamente no time e encaixou suas peças, em especial pelas contratações pontuais de Paulo César Caju e Mário Sérgio – este, seu antigo companheiro na passagem pela lateral do Vitória. Contudo, a progressão do treinador teria final logo depois, sem poder defender seus títulos com os gremistas.

O Grêmio não entrou em acordo para renovar o contrato de Valdir Espinosa depois das conquistas. O comandante entrou em rota de colisão com os dirigentes tricolores logo na volta do Japão, quando os seus superiores ordenaram que o técnico dispensasse um jogador para retornar ao Brasil antes de um amistoso contra o América do México e ele se recusou. Além do mais, também não viam com bons olhos o relacionamento aberto e democrático que mantinha com o elenco. O multicampeão começou o ano de 1984 desempregado.

Espinosa ganharia uma chance de dirigir o Al Hilal pouco depois, mas não demorou a voltar ao Grêmio. Em 1986, ele seria mais uma vez campeão, ao faturar o Campeonato Gaúcho. Nesta passagem, ficou conhecido pelas trocas de posições constantes em seu quadrado no meio-campo, chamado de “carrossel”. Também reeditou a parceria bem-sucedida com Renato, com este arrebentando no ataque. A demissão aconteceu em novembro, após uma sequência de resultados ruins durante o Campeonato Brasileiro.

Anedoticamente, Valdir Espinosa faria parte de outro capítulo fundamental do Grêmio, mesmo quando estava do lado oposto. Em 1991, ele era o treinador do Botafogo na partida que rebaixou os tricolores no Brasileirão, algo inédito aos chamados grandes. Ele reassumiu os gremistas um mês depois, encerrando com o vice no Gauchão. Também iniciou a campanha na Segundona, mas a sequência ruim logo de início culminou em sua saída. E, curiosamente, quase encarou o Grêmio nas quartas de final da Libertadores de 1995. O gaúcho permaneceu à frente do Palmeiras até a classificação contra o Bolívar nas oitavas, mas seu trabalho não andava prestigiado e ele terminou suplantado por Carlos Alberto Silva – o comandante alviverde presente nos famosos 5×0 e 1×5 ao Tricolor.

As pontas da história de Valdir Espinosa no Grêmio seriam fechadas a partir de 2016. O veterano retornou ao clube, mas não para ser treinador, e sim para assumir o posto de coordenador técnico. Tornou-se um braço direito de Renato, na reconstrução do Tricolor campeão continental. O velho mestre teve influência direta em escolhas táticas e na montagem do time que faturou a Copa do Brasil, antes de ser desligado pela diretoria durante a campanha na Libertadores de 2017. Enquanto Renato assumia a linha de frente, o comandante campeão em 1983 deixou sua contribuição com ideias. Um último momento para ser lembrado ainda com mais carinho pelos gremistas.

“Hoje o dia amanheceu mais triste. Perdi meu segundo pai, meu irmão mais velho, meu exemplo, meu grande e  fraterno amigo. Foi pelas suas mãos que cheguei ao Grêmio e consegui dar para a minha família tudo que sempre quis.  Vai ser difícil superar mais essa perda, mas temos de seguir em frente. E tenho certeza que ele sempre estará nos olhando, cuidando e guiando. Vai com Deus, meu grande amigo”, declarou Renato, em sua despedida de Valdir Espinosa nesta quinta.

Botafogo: Invicto no fim do jejum

Valdir Espinosa conquistou seu primeiro título nacional com o Cerro Porteño em 1987, antes de assumir o Coritiba no retorno ao Brasil, em 1988. O treinador teve uma passagem razoável pelos alviverdes, antes de dirigir outro clube que marcou sua carreira: o Botafogo. Não era um momento simples aos alvinegros, principalmente pelo jejum de títulos no Campeonato Carioca que superava as duas décadas. Até por isso, o treinador sustentaria uma imagem de salvador em General Severiano, ao romper o tabu com o emblemático título de 1989.

“No momento em que cheguei, não eram os adversários, mas sim os próprios torcedores do Botafogo que não acreditavam que aquele pesadelo fosse acabar. Era comum ouvir pessoas dizendo que a passagem não daria certo, que muitos treinadores chegaram ao Botafogo com a mesma vontade de vencer e não conseguiram alcançar o objetivo. O início foi algo que preocupava bastante”, declarou Espinosa, em entrevista recente ao Lance.

Parte da base do Botafogo já estava montada desde o Brasileirão de 1988. Ainda assim, a campanha quase culminou no rebaixamento dos alvinegros, sob as ordens de Pinheiro e depois de Jair Pereira. Entretanto, a vinda de Espinosa mudou a qualidade do jogo apresentado pelos botafoguenses. Com adições pontuais, a evolução foi notável, apresentando um futebol mais ofensivo e de bom trato com a bola, mas sem perder a pegada. E não dá para negar que vários jogadores daquele plantel tinham talento, por mais que alguns ainda não fossem tão renomados.

Enquanto a zaga do Botafogo reunia a dupla formada por Mauro Galvão e Wilson Gottardo, além da presença de Josimar na lateral, o ataque se valia da parceria entre o ponta Maurício e o ponta-de-lança Paulinho Criciúma. Espinosa também trabalhou para criar um ambiente mais leve entre os jogadores. Ele promovia encontros entre as famílias e tratava os comandados de uma maneira bastante franca, uma marca de seus trabalhos. Isso fortaleceu o próprio conjunto, pela parceria entre os atletas, que se doavam mais em campo.

“A primeira coisa é valorizar o diretor Emil Pinheiro, que foi extraordinário. Ele tinha condições e queria contratar vários jogadores, só que a primeira coisa que eu disse foi para não contratar ninguém, que deveríamos conhecer o grupo e comprar apenas aquilo que fosse necessário. No dia a dia nós fomos conhecendo os jogadores e chegamos à conclusão que precisávamos de um lateral-esquerdo e um homem de ataque, porque o resto nós já tínhamos no elenco. A cada momento eu senti que nós tínhamos que aliviar essa pressão, que estava em cima de cada jogador. Eles não eram responsáveis por esses 21 anos, mas seriam os responsáveis por terminar esses 21 anos. Trabalhamos em cima disso”, complementou Espinosa.

Taticamente, aquele Botafogo também funcionava com o dedo de Espinosa. O treinador passou a jogar com três volantes, o que era raro no futebol brasileiro. Paulinho Criciúma recuava para a armação, enquanto os pontas Maurício e Gustavo ganhavam mais liberdade à frente. O esquema deu bastante certo, mesmo para bater de frente com adversários que possuíam elencos mais renomados. Vale lembrar que, enquanto o Flamengo tinha um time fortíssimo, o Vasco se encorparia na sequência daquele ano e alcançou o título do Brasileirão.

Vice-campeão da Taça Guanabara de 1989 mesmo invicto, o Botafogo se assegurou na decisão do estadual ao faturar a Taça Rio – ainda sem registrar uma derrota sequer. Os alvinegros somavam 14 vitórias em 22 compromissos, com 40 gols marcados e apenas 14 sofridos. Durante a decisão, o Flamengo pintou como adversário do Botafogo. Os rubro-negros contavam com talento de sobra, em elenco que incluía Jorginho, Aldair, Leonardo, Zinho, Bebeto e Zico. No comando técnico, Telê Santana. E as duas equipes já tinham feito um jogaço semanas antes, quando os botafoguenses buscaram o empate por 3 a 3, tirando uma desvantagem de dois gols.

Depois do 0 a 0 no primeiro jogo da decisão, o Botafogo de Valdir Espinosa fez história no reencontro com o Flamengo, diante de 56 mil presentes nas arquibancadas do Maracanã. Quis o destino que o ponta Maurício pintasse como herói, mesmo lidando com febres altas naqueles dias. Mal no primeiro tempo, o camisa 7 até sugeriu a Espinosa que o tirasse. O treinador o bancou e garantiu que “tinha sonhado que ele faria o gol do título”. Aos 12 minutos do segundo tempo, a profecia se cumpriu. Em bola cruzada na área, Maurício aproveitou para surgir às costas de Leonardo e fuzilar o goleiro Zé Carlos. O tento que representa o desafogo a uma geração de alvinegros, vários deles ilustres presentes nas arquibancadas.

“Eu vi que os caras tinham qualidade técnica e, a partir daí, desenvolvi um trabalho no aspecto tático, físico e emocional, para que pudesse vencer. Não adianta ser bom e emocionalmente não estar preparado, achando que sozinho vai resolver. Todos esses aspectos foram trabalhados dia a dia, e a confiança foi aumentando. Eu não passei isso para eles, mas eu sabia: ou éramos campeões invictos ou não ganharíamos o campeonato, porque se perdêssemos alguma partida, a imprensa e os torcedores já começariam a adotar uma postura mais negativa”, disse. “Quando cheguei, quis trazer a garra, mas não deixar a classe de fora. Nós mantivemos a categoria técnica do futebol carioca da época, mas trouxemos a garra do futebol gaúcho e aí a equipe cresceu”.

Espinosa deixou o Botafogo meses depois, antes da campanha no Brasileiro de 1989. Nem mesmo a decisão de se mudar ao Flamengo, substituindo Telê Santana, atrapalhou seu moral em General Severiano. A passagem pela Gávea seria curta, tendo como ponto alto a participação na despedida de Zico. Também dirigiria o Internacional neste ínterim. Mas o gaúcho estaria de volta aos alvinegros ainda em 1990, permanecendo à frente da equipe até 1991, sem resultados tão relevantes. Já a terceira passagem aconteceu entre 1998 e 1999, na sequência de trabalhos mais decepcionantes do gaúcho. Com times fortes, não conseguiu engrenar à frente da “SeleGalo”, do Palmeiras e do Corinthians. Também não durou nesta volta ao Rio, dando lugar a Gílson Nunes antes do vice na Copa do Brasil.

De qualquer maneira, a consideração por Espinosa permaneceu forte no Botafogo. E o clube recorreria ao antigo treinador em dezembro de 2019, para substituir Anderson Barros na gerência de futebol. Seria um nome experiente para conduzir o trabalho junto ao elenco e à comissão técnica. O gaúcho prometia dedicação máxima, embora já tivesse a cirurgia marcada para o início de 2020. Infelizmente, o empenho e a vontade do veterano em reerguer os alvinegros se encerrou de maneira precoce, com a triste notícia desta quinta.

Cerro Porteño: O homem que recolocou o Ciclón no topo

A primeira experiência de Valdir Espinosa fora do Brasil aconteceu em 1985, quando conquistou o Campeonato Saudita à frente do Al Hilal. Depois do retorno ao Grêmio para faturar o Campeonato Gaúcho de 1986, o treinador aceitou uma proposta para dirigir o Cerro Porteño. Substituiria ninguém menos que Ferenc Puskás, embora o momento do Ciclón não fosse positivo, com uma seca sem títulos nacionais que já durava uma década. Após anos dominantes do Olimpia, o brasileiro conduziria os azulgranas de volta às glórias.

O título do Campeonato Paraguaio de 1987 é considerado um dos mais importantes da história do Cerro Porteño. Os azulgranas tiveram uma campanha incontestável, ao encerrarem na primeira colocação durante as três fases da competição. Foi a única vez na história do campeonato que, neste formato de turnos, não se necessitou de uma “liguilla” entre os vencedores das diferentes fases para se definir o campeão.

Espinosa tinha seus homens de confiança no forte elenco do Cerro. Inclusive, três brasileiros: o volante Robson, bem como os atacantes Joãozinho Paulista e Tarciso. O Flecha Negra, aliás, marcaria outra vez a história vitoriosa do treinador. Se o veterano já tinha sido um nome importante na Libertadores de 1983, por vezes saindo do banco, também brilharia no Paraguai. Foi ele quem marcou do título, com uma cabeçada certeira no duelo diante do Libertad. Catalino Rivarola era mais um atleta de destaque do elenco, que depois faria história em Porto Alegre. Outro a ascender foi o artilheiro Félix Brítez Román, promovido das categorias de base.

Até existia uma confiança de que o Cerro pudesse fazer um bom papel na Libertadores de 1988, mas as expectativas não se cumpriram. A equipe naufragou ainda na fase de grupos, superada pelos representantes bolivianos. Espinosa deixaria o Barrio Obrero logo depois, voltando ao Brasil. Porém, sua história com o Ciclón ainda não havia se encerrado. Ele retornou em 1992, para mais um ciclo vitorioso, que repercutiu além do próprio clube.

Espinosa substituiu Paulo César Carpegiani à frente do Cerro Porteño e contava com a base campeã nacional em 1990, sob as ordens de Sergio Markarián. O gaúcho reencontrou-se com alguns antigos pupilos do título de 1987, mas também via outros jogadores florescerem. E não era uma geração qualquer dos azulgranas, com vários jogadores que fariam história na seleção paraguaia – entre eles, Chiqui Arce, Carlos Gamarra e Estanislao Struway. A campanha seria mais apertada, mas o Ciclón goleou o Libertad por 5 a 0 no jogo-desempate das finais.

No ano seguinte, Espinosa deixou brevemente o Cerro Porteño. Com a volta de Carpegiani, os azulgranas alcançaram as semifinais da Libertadores, eliminados em jogos duros contra o São Paulo de Telê Santana. O desafio de Espinosa em 1993 seria outro: treinar a seleção paraguaia nas Eliminatórias da Copa do Mundo. A Albirroja teve chance de deixar a Argentina de fora até da repescagem, mas falhou na última rodada contra o Peru. Já em 1994, o gaúcho ainda participaria de mais uma campanha vitoriosa do Cerro, mesmo sem ficar até o final. Após levar o primeiro turno, o Ciclón venceu a finalíssima contra o Olimpia, nos pênaltis.

As manifestações carinhosas entre Valdir Espinosa e Cerro Porteño permaneceram. O técnico ainda teria uma terceira passagem no Barrio Obrero, em 2007, esta mais curta. De qualquer maneira, suas visitas a Assunção eram relativamente frequentes. Chegou a participar de uma homenagem aos campeões de 1987 nos 30 anos da conquista e também visitou as obras da reformada Olla Azulgrana. Não à toa, o Ciclón respeita o gaúcho como um dos maiores comandantes de sua história. O currículo e os feitos falam por si.