Há clubes que escondem a conquista da Série B. Que preferem acreditar na balela de “time grande não cai”, quando a realidade do futebol brasileiro e a própria alternância de forças cria momentos incertos a todos. É natural que, diante de outras taças mais relevantes, a Segundona se torne menor a alguns. Mas não deixa de ser um título de peso, especialmente a quem visa se afirmar no cenário nacional. A Série B costuma ser infinitamente mais difícil e exigente que os parcos estaduais. Sua estrela deve reluzir no peito. E reluzirá sobre o escudo do Fortaleza, após uma campanha tão imponente, alcançando o ápice no último sábado – com requintes de épico. É a primeira taça nacional do Leão do Pici, assegurada com todos os esforços e todos os méritos.

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Mesmo entre os nordestinos, faturar a Segundona é algo raro. O Fortaleza se tornou apenas o terceiro representante da região a terminar com o troféu da Série B. Igualou os feitos de Sport e Sampaio Corrêa, em celebração que não acontecia desde o título rubro-negro em 1990. Por mais que vários clubes do Nordeste tenham passado pela divisão e faturado o acesso, a excepcionalidade exalta o fato. Ainda mais quando há uma trajetória tão contundente quanto a dos tricolores, se mantendo na liderança da segunda rodada em diante.

O próprio futebol cearense se engrandece com a conquista do Fortaleza. Até então, os clubes do estado possuíam apenas dois títulos nacionais: a Série D, na prateleira de Guarany de Sobral e Ferroviário – este, se consagrando em 2018. O Fortaleza bateu na trave em 2017, quando encerrou seu calvário na Série C, perdendo a final disputada contra o CSA. Espera recompensada da melhor maneira possível, superando diversos outros clubes tradicionais em uma edição bastante equilibrada da Segundona. E, acima da corneta sobre o “jejum” do rival Ceará, o futebol local se beneficia como um todo pela competitividade crescente. O estado poderá ter o clássico na primeira divisão em breve, caso o Vozão confirme mesmo a permanência na elite.

Foi bacana perceber a ambição do Fortaleza. O acesso não bastou ao Leão do Pici. O título se tornou o grande objetivo para sacramentar o ano do centenário. Famoso por sua competitividade, Rogério Ceni declarou logo depois da promoção que só estaria plenamente satisfeito com a taça. O treinador veio para ser campeão. Mensagem compreendida pelos jogadores e transformada em realidade graças à vitória por 1 a 0 sobre o Avaí, em Florianópolis. Rodolfo contribuiu ainda mais à emoção pelo momento, anotando o gol decisivo aos 49 do segundo tempo. Pela maneira como sobrou na Série B, emendando excelentes sequências e dando pouca esperança aos concorrentes, os tricolores mereciam o troféu. A campanha será histórica não apenas ao clube, mas também à própria competição.

Por fim, a melhor prova da grandeza da Série B quem ofereceu foi a torcida do Fortaleza. Ela comemorou o acesso, lógico. Mas a mobilização pela conquista foi ainda mais perceptível. Centenas de tricolores fanáticos fizeram a longa viagem até Santa Catarina para apoiar o time na Ressacada. E a volta dos heróis para casa foi recepcionada por milhares de aficionados nas ruas da capital, neste domingo. Entupiram as avenidas num mar de gente que sequer parecia ter fim, acompanhando os campeões em carreata. Nada melhor que o orgulho, depois de tantas penúrias encaradas na Terceirona.

A apoteose se seguirá no Castelão, onde o Fortaleza disputará na próxima quinta-feira seu último jogo como mandante na Série B, recebendo o Juventude. Aproveitando a ocasião, aliás, o clube lançou uma iniciativa bem interessante. Instalou um outdoor na Avenida Santos Dumont e as estrelas presentes se acenderão a cada cinco mil ingressos vendidos. Certamente um chamariz aos tricolores, para que completem a jornada memorável na Segundona com mais uma erupção nas arquibancadas. A prova definitiva sobre o que representa esta conquista.


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