A Supercopa Libertadores serve de memória imediata ao futebol dos anos 1990. Criado em 1988, o torneio da Conmebol estava distante da importância da Libertadores, mas possuía seu peso. A competição ajudava a preencher o calendário durante o segundo semestre e contava apenas com clubes que já haviam faturado o principal título continental. Embora tenha surgido como uma medida eleitoreira de Nicolás Leoz, em seu projeto de expandir o número de competições, a Supercopa garantia uma porção de jogos grandes em mata-matas. Viveu seus momentos áureos, mas também perdeu fôlego e terminou suplantada pela também finada Copa Mercosul em 1998. No entanto, por mais lembranças boas que possa oferecer, soa como algo restrito ao passado. Pois é esse projeto anacrônico que a Conmebol pretende resgatar.

A recriação da Supercopa foi pauta da Conmebol nesta quinta-feira, durante o evento que revelou o Maracanã como sede da final da Libertadores de 2020. Alejandro Domínguez vislumbra o torneio como um dos caminhos da América do Sul rumo ao Mundial de Clubes que a Fifa planeja. O subcontinente terá direito a seis vagas na competição quadrienal, marcada para junho de 2021. Na estreia do novo Mundial, estariam presentes os dois campeões anteriores da Libertadores (2019 e 2020) e também os dois campeões anteriores da Sul-Americana. A Supercopa seria complementar, como uma seletiva ao Mundial. Ficaria com as duas últimas vagas e ainda lugares extras, caso pintem campeões repetidos na Libertadores ou na Sul-Americana.

Porém, como muitas outras ideias que vêm da cabeça de Alejandro Domínguez, há várias contestações nestes planos. O primeiro está na desvalorização da Libertadores. A principal competição continental ganha o mesmo peso da Sul-Americana como classificatório ao Mundial. Parece óbvio que esses quatro representantes não serão necessariamente os mais fortes da América do Sul. Pior a quem for vice-campeão da Libertadores ou ganhá-la nos “anos ruins”. Grêmio e River Plate, campeões em 2017 e 2018, se deram mal nessa. Mas Colón ou Independiente del Valle, quem vencer, estará lá.

A quem aprecia camisas pesadas, a princípio, a Supercopa nem parece tão ruim. Possivelmente, garantiria dois clubes tradicionais no Mundial – com uma brecha extra a brasileiros e argentinos, sobretudo. Como uma seletiva quadrienal, também poderia movimentar o continente de maneira excepcional. Quem não gosta de ver um bom mata-mata? Mas a teoria não demora a cair por terra quando se pensa na prática.

Primeiro, porque a Conmebol deseja ocupar mais datas no calendário. A nova Supercopa aconteceria entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, sem tomar concessões da Libertadores e da Sul-Americana. O problema é que este período “vazio” representa justamente as férias dos jogadores. Das dez competições nacionais, a única que atualmente não adota um calendário anual é a Argentina – mas, ainda assim, diminui o ritmo na virada do ano. De resto, os demais clubes estariam ou descansando ou em pré-temporada. A nova Supercopa, além de afetar o próprio direito dos atletas às férias, não respeitaria as festas de fim de ano. Se respeitar, precisará sofrer uma quebra bem no meio.

Logicamente, a primeira federação a levantar a mão para reclamar do calendário foi a CBF. A nova Supercopa, afinal, também esbarra nos interesses da confederação brasileira. A agenda inchada do Brasil é a que menos oferece margem de manobra a uma nova competição continental. Se isso acontecer, atrapalharia o sustentáculo político de sua estrutura, os estaduais. Segundo o repórter Martín Fernández, do Globo Esporte, a CBF até já se manifestou pela falta de datas. Dos 25 times que possuem o título da Libertadores, dez são brasileiros.

Além do mais, o interesse à nova Supercopa esbarraria na ampliação recente da Copa Libertadores. Uma das virtudes da Supercopa nos anos 1990 estava na oportunidade um tanto quanto rara que oferecia. Com o número de clubes limitado na Libertadores, a Supercopa garantia uma cota anual de jogos grandes a alguns clubes. Valeu bastante a times que não viviam exatamente o seu momento mais esplendoroso. Agora, que até o nono colocado do Brasileirão pode aparecer no torneio continental, esse fator se dilui – a não ser que a Conmebol buscasse dar um passo atrás na própria Libertadores, com a diminuição de equipes. Seria bom à variação, mas não vai acontecer por óbvios interesses comerciais.

A Conmebol até poderia tentar acomodar melhor as datas da Libertadores e da Sul-Americana em 2020, para antecipar um pouco a Supercopa, ao menos em suas fases iniciais, e deixar só a reta final para dezembro. Sabe por que isso não vai acontecer? É claro, pela ganância de fazer desnecessariamente duas Copas América em dois anos. O próprio Alejandro Domínguez já tinha superlotado seu calendário e perdeu a chance de moldá-lo. Com a Copa América nos anos anteriores ao novo Mundial de Clubes, nem parece possível essa acomodação. Até dá para pensar em uma seletiva, talvez envolvendo vice-campeões da Libertadores e campeões da Sul-Americana, mas só seria possível com um calendário mais enxuto.

No fim das contas, apesar de todos os empecilhos, não é impossível que a Supercopa saia do papel. Ela representa um grande interesse à Conmebol: mais dinheiro. E a confederação continental já mostrou que não se importa com clubes ou atletas quando tem a oportunidade de encher os bolsos. A resposta ao projeto deverá vir em 8 de novembro, quando os presidentes das dez federações se reunirão no conselho da Conmebol. Com os calendários já delineados para 2020, será mais um “planejamento” feito nas coxas.

Caso a Supercopa de 2020/21 venha a se concretizar, parece já prever um futuro parecido com o de sua antecessora: a chance de virar um torneio tampão, que não dura mais que um punhado de anos e terminará extinto. Isso até que outro cartola resolva ressuscitá-lo para garantir seus interesses.