A Supercopa pode nem ser tão importante, mas é inadmissível a forma como Favre jogou fora a partida

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Lucien Favre encerrou a temporada 2019/20 sob observação. Terminar o segundo ano consecutivo de mãos abanando não era a vontade do Borussia Dortmund, especialmente em uma edição da Bundesliga que permaneceu aberta até o início do segundo turno. Os aurinegros demoraram a engrenar e, quando indicavam fôlego para lutar pela Salva de Prata, a derrota no clássico contra o Bayern de Munique se tornou definitiva. Dava para notar a melhora do BVB em certos aspectos, embora o treinador deixasse a desejar por algumas escolhas e invenções. E a quem ainda esperava uma evolução do Dortmund, este início de temporada é bem frustrante. Problemas que recaem sobre Favre, como evidenciou a derrota na Supercopa da Alemanha.

A partida na Allianz Arena não oferecia o título mais prestigiado. Que os desfalques sejam considerados, ambas as escalações não traziam o melhor que os clubes têm à disposição. Ainda assim, uma vitória do Dortmund seria importante não apenas por superar o rival que atravessa um dos maiores momentos de sua história, como também para aumentar o moral do elenco aurinegro. O Bayern abriu dois gols de vantagem, mas não era tão melhor assim. Tanto é que, no início do segundo tempo, a virada não saiu por culpa de Manuel Neuer. E quando a vitória parecia na mira do BVB, eis que Favre coloca tudo a perder.

Dá para entender que a Bundesliga é prioridade, com um jogo importante diante do Freiburg às portas de acontecer. Dá para entender que os principais jogadores precisam descansar. O que se torna incompreensível é o momento do jogo em que Favre escolheu fazer isso, quando o Dortmund era melhor e colocava o Bayern contra as cordas. É sabido que a maior fraqueza do time de Hansi Flick está na bola às costas da zaga, um mapa da mina muito bem explorado pelo Hoffenheim no final de semana. Roubando a bola na intermediária, o BVB aproveitava isso, em especial com a explosão de Haaland. Mas Favre tirou o artilheiro, além de Marco Reus, outro que vinha chamando a responsabilidade. Mandou a campo garotos que, apesar do talento, não se mostraram prontos a resolver uma partida desse calibre.

A partir de suas substituições, Lucien Favre jogou no lixo o momento favorável do Borussia Dortmund na Supercopa. Com isso, também permitiu que o Bayern acordasse e buscasse a vitória por 3 a 2, com um gol de Joshua Kimmich no final. A equipe cheia de novatos, e sem mais os protagonistas capazes de resolver jogos, mal conseguiu criar algo para superar Neuer novamente. Ficou a impressão de que, ao treinador, aquilo não passava de um amistoso. Mas era um jogo oficial e que, no fim das contas, amplia a freguesia dos aurinegros diante dos bávaros. Uma derrota seria compreensível, mas não uma com as decisões tomadas por Favre.

Quando chegou ao Signal Iduna Park, depois de um bom trabalho à frente do Nice, Favre tinha como principal missão colocar ordem na defesa do Borussia Dortmund. Assumia o clube depois de uma temporada ruim, na qual a aposta em Peter Bosz para substituir Thomas Tuchel não deu certo e Peter Stöger encerrou a Bundesliga à frente dos aurinegros. E que o aproveitamento sob as ordens de Favre seja razoável, a noção é que o BVB não saiu muito do lugar desde então.

Em sua primeira temporada, a questão nem foi tanto a defesa em si, mas a maneira como o Borussia Dortmund sucumbiu nos jogos mais graúdos. O Bayern vinha cambaleante com Niko Kovac, mas amassou os aurinegros no confronto direto do segundo turno. E as esperanças de título se esvaíram com a derrota para o Schalke 04 na reta final da Bundesliga. Para completar, a eliminação inapelável diante do Tottenham na Champions League e a queda diante do Werder Bremen na Copa da Alemanha deixavam os aurinegros de mãos vazias.

Não era por isso que o Dortmund dispensaria Favre depois do primeiro ano. E a temporada passada foi menos competitiva. A bagunça no primeiro turno da Bundesliga foi preocupante, com uma equipe que não sabia matar os jogos e concedia muitos gols, especialmente como visitante. Favre encontrou soluções táticas e houve uma melhora no rendimento. Mas não foi isso, porém, que evitou os tropeços cabais. De novo o Bayern frustrou os planos no confronto direito, de novo o Bremen serviu de carrasco na Copa da Alemanha. A queda na Champions seria mais circunstancial, quando dava para superar o Paris Saint-Germain. Mas o BVB também não soube aproveitar a vantagem construída na ida.

Mais de dois anos depois, o Dortmund de Favre diminuiu o caos na defesa, embora tenha muitas contratações frustradas no setor. Em compensação, vê o ataque sofrendo lapsos e muitas vezes depende das individualidades para resolver. Neste sentido, a derrota para o Augsburg no final de semana anterior é exemplar. Por mais volume de jogo que tivessem, os aurinegros pouco construíram para sair com a vitória. E, naturalmente expostos aos contra-ataques, sofreram diante de um adversário cirúrgico. Coletivamente, os adversários anularam os talentos individuais do BVB. Já nesta quarta, quem os anulou foi o próprio Favre.

A formação do Dortmund com o 3-4-3 é o esquema abraçado por Favre. E tem seus pontos positivos, como a maneira como a defesa se expõe menos à falta de velocidade dos zagueiros ou mesmo a liberdade que oferece aos alas. Mas não é isso que garante um time coeso e funcional. Tantas vezes nos últimos meses, os resultados vieram na dependência direta de Jadon Sancho ou Haaland. Os aurinegros também perdem um pouco mais de qualidade no meio-campo por isso, ainda que Axel Witsel seguisse carregando o piano muito bem. Soa mais como uma solução aos problemas do que um sistema para resolver jogos nos quais os aurinegros não conseguem imprimir tanta velocidade.

E o maior ponto de questionamento sobre Favre fica em suas escolhas durante as partidas, com substituições que nem sempre ajudam os problemas ou até mesmo criam novos. Estagnado, o técnico não faz muito além do feijão-com-arroz de seu sistema já estabelecido. A derrota na Supercopa da Alemanha é escancarada neste sentido, mas a equipe teve dificuldades para reverter o placar nos últimos meses, inclusive contra adversários mais fracos. Há um elenco jovem e com potencial à disposição, mas não que isso seja aproveitado da melhor maneira durante as partidas do Dortmund.

O plantel nas mãos de Lucien Favre é melhor que na temporada passada, não apenas por oferecer mais opções, como também por garantir o amadurecimento de jogadores importantes. E a pressão sobre um desempenho superior aumenta, até pelo tempo que o treinador leva à frente do time e pelos naturais desgastes que surgem. Perseguir o Bayern ainda é muito difícil, e não ganhar todos os compromissos é natural. Mas o Dortmund não se ajuda quando abre mão de um confronto direto, mesmo que menos importante que a Bundesliga, e quando desperdiça pontos contra adversários mais frágeis, sobretudo pela diferença de segurança fora de casa.

Se ganhar a Bundesliga hoje parece um sonho distante, especialmente diante dos recursos que o Bayern tem, o Dortmund ainda assim precisa aumentar sua competitividade e ser mais consistente, sobretudo para brigar pelos títulos paralelos – ou fazer uma campanha longa na Champions. Tão escorado em seus prodígios, Favre não dá a impressão de ser capaz de tirar o melhor do elenco – ou tentar reduzir o abismo em relação aos bávaros. A reconstrução tende a ser uma constante no Signal Iduna Park, até pela aptidão que o clube possui para atrair promessas e manter seu sistema funcionando com as vendas posteriores. Sancho e Haaland não devem ficar por tanto tempo e, quando saírem, a única previsão é a de que o time desmontaria sem ambos.

Favre merece respeito pela maneira como transformou o Borussia Mönchengladbach no início da década e também pelo impulso que deu ao Nice. Em Dortmund, não indica ter cacife para administrar um clube com tais possibilidades e tamanha grandeza. Não é o homem ideal para ocupar a posição à beira do campo no Signal Iduna Park, sem um perfil vencedor para garantir resultados marcantes e transformar jogos a partir das suas ideias. Apesar de tudo, é difícil acreditar em uma troca de comando neste momento de temporada. No entanto, a não ser que Favre descubra uma fórmula secreta ou transforme sua personalidade, anda complicado imaginar um crescimento paulatino do BVB. Depois do que aconteceu na Supercopa, a esperança é mais nas oscilações do Bayern que no próprio potencial. O treinador, afinal, boicotou a própria equipe ante as perspectivas de um triunfo simbólico.