A Espanha encara o aumento exponencial no número de casos e vítimas da COVID-19, mas seu futebol parece desconsiderar as perspectivas limitadas e já começa a mirar datas para o seu recomeço. Nesta terça-feira, Javier Tebas declarou que La Liga está preparando um protocolo sanitário para os clubes retomarem os treinamentos, com três datas possíveis ao recomeço do Campeonato Espanhol: 28 de maio, 6 de junho ou 28 de junho. O presidente da entidade também afastou a possibilidade de anular a competição. Até esta terça, são 140 mil testes positivos no país, com 13,8 mil mortes.

“Um protocolo está sendo elaborado por três equipes médicas nas duas últimas semanas, para que os jogadores retornem aos treinamentos. Isso envolve testes e isolamento nos vestiários. Quando? Não podemos dizer no momento. As autoridades médicas nos dirão. Há um estado de emergência até 26 de abril e não podemos começar os treinos até esse ponto. As opções mais prováveis para o retorno das partidas são 28 de maio, 6 de junho e 28 de junho”, afirmou Tebas.

Caso os jogos sejam retomados, acontecerão com portões fechados. Diante dessas medidas, Tebas calcula um prejuízo de €300 milhões. O encerramento precoce da temporada, porém, custaria €1 bilhão aos cofres de La Liga – em valor compartilhado pelos próprios clubes das duas primeiras divisões. No entanto, em contato com as entidades gestoras do futebol europeu (Uefa, associação de clubes, associação de ligas), o cartola se mostra confiante sobre o término da campanha de 2019/20 em agosto.

“Os estudos estão ocorrendo e sinto segurança que tanto as ligas quanto as competições continentais serão completadas. Nenhuma das ligas grandes ou médias está considerando terminar a temporada antecipadamente. Não voltar não é uma opção”, declarou Tebas. “Anular os campeonatos é algo que eu só contemplaria se estivesse dormindo. Acordado, de maneira nenhuma penso nisso. Não estamos levando em consideração, é algo que será estudado apenas se não houver absolutamente qualquer outra solução. Não quero começar o debate agora, porque é sem sentido e gera apenas um conflito de interesses”.

Um entrave central na Espanha ocorre ao redor dos salários dos jogadores, sem uma posição uniforme dos clubes quanto aos cortes. Tebas pressiona por reduções nas folhas de pagamento, para que as equipes não recorram à ajuda estatal. O dirigente, assim, vê aberta a possibilidade de negociar o quanto antes o retorno com as autoridades espanholas. De qualquer maneira, outros entraves persistem aos atletas, como a própria lacuna contratual daqueles cujo vínculo se encerra no final de junho.

“Estamos em um momento de crise excepcional, imprevisível e de enorme impacto. Todos perdem dinheiro, me parece normal que os salários dos jogadores também se reduzam. Na Espanha, não tivemos um acordo com o sindicato, nossa negociação encalhou. No momento, oito clubes das duas primeiras divisões suspenderam contratos de trabalho, mas durante os próximos dias todas as equipes ativarão protocolos de redução de salários”, comentou Tebas. “Será necessário modificar os contratos dos jogadores que expiram no fim de junho. Não é simples, mas não tão complicado. Acho que eles concordarão”.

Por outro lado, o sindicato dos futebolistas se reuniu com a federação espanhola – que, durante os últimos meses, virou adversária política de La Liga. As duas entidades representativas reforçaram as condições de saúde dos jogadores como prioridade neste momento, se contrapondo à pressa de Tebas. Além disso, quando for possível retornar ao futebol, determinaram que o intervalo de 72 horas é o mínimo para a realização de duas partidas por uma mesma equipe. Há um risco que La Liga determine intervalos de 48 horas entre os jogos.

O sindicato ainda defende que os contratos dos jogadores sejam renovados além de 30 de junho caso a caso, conforme acordo entre ambas as partes, e não por imposição superior. “Defendemos o direito individual do trabalhador. Existem direitos individuais que deverão ser respeitados, salvo acordo entre as partes. A Fifa não tem competência legal nas relações laborais entre clubes e futebolistas”, manifestou a entidade. Mais um ponto de fricção que coloca panos quentes sobre o planejamento anunciado por Tebas.