A Síria atravessa uma realidade cruel nos últimos anos. A situação caótica do país se desdobra em diferentes frentes: a sangrenta guerra civil, a multilateral disputa política, os crimes contra a humanidade, os milhões de refugiados, as cidades completamente destruídas. Em meio a esse massacre, também psicológico, fica muito difícil de pensar em futebol. Mas o esporte pode servir de alento. A seleção síria faz bom papel nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Mesmo com todas as limitações, briga pelas primeiras posições do Grupo A. E conquistou uma vitória heroica sobre o Uzbequistão nesta quinta, buscando o 1 a 0 no placar aos 45 do segundo tempo.

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As complicações na preparação síria são amplas. A começar nos obstáculos para reunir o grupo de jogadores. Embora a maioria atue no exterior, sete membros do atual elenco defendem os próprios clubes locais da Síria. E os jogos precisam acontecer, por motivos óbvios, longe de casa. A seleção tem mandado as suas partidas a cerca de 7 mil quilômetros de distância, na Malásia – raro país a abrir as portas aos representantes de uma nação que gera tantas controvérsias ao redor do mundo.

Nesta quinta, diante de 350 espectadores, a Síria se impôs contra o Uzbequistão. Precisou perseverar para conquistar a vitória. O gol saiu nos instantes finais, em pênalti a favor dos sírios. Atacante do Al Hilal, da Arábia Saudita, Omar Kharbin foi ousado o suficiente para cobrar com cavadinha e determinar o triunfo de sua seleção, o segundo na terceira fase das Eliminatórias. Resultado fundamental no confronto direto com os uzbeques, um dos principais concorrentes na briga pelo topo da tabela.

A Síria ocupa a quarta colocação do Grupo A, com oito pontos. Está a um ponto do Uzbequistão, na zona da repescagem, e a dois da Coreia do Sul, que já conquistaria uma vaga direta na Copa do Mundo. Restando quatro rodadas, os sírios têm uma agenda difícil pela frente: visitam Coreia do Sul e Irã, além de “receberem” Catar e China. Os confrontos fora de casa com os líderes, contudo, podem ser determinantes para o sucesso da equipe.

Na coletiva de imprensa após o jogo, o técnico Ayman Hakeem chegou a chorar, dedicando a vitória “ao povo sírio”. E se há um sentimento que torna a seleção realmente forte na disputa das Eliminatórias é este: a vontade de oferecer orgulho à população, diante de tanto sofrimento. Pelas dificuldades na preparação ou mesmo pelo nível de seus jogadores, a Síria poderia ser colocada em segundo plano. Entretanto, há uma garra que faz o elenco a se superar. Os 23 convocados a cada compromisso, no fim das contas, representam 23 milhões de pessoas – incluindo cerca de cinco milhões de refugiados.