Camarões encararia um enorme desafio logístico para realizar a Copa Africana de Nações a partir de junho de 2019. Pela primeira vez na história, o certame contará com a presença de 24 seleções. Em 2014, os Leões Indomáveis venceram a disputa para receber a competição, em concorrência que também envolveu Argélia, Guiné e Costa do Marfim. A sete meses do pontapé inicial, porém, os camaroneses perderam o direito de organizar o evento. A Confederação Africana de Futebol anunciou nesta sexta-feira que a CAN não acontecerá no país e que uma nova sede deverá ser escolhida nas próximas semanas. A entidade aponta que autoridades governamentais foram ouvidas, mas a lacuna nos requisitos se torna empecilho. Apesar disso, a confederação reitera que os camaroneses seguem como “sérios candidatos” a futuras edições, após “mobilizar recursos significativos e trabalhar incansavelmente”.

Dois problemas principais barraram Camarões. Um deles é a segurança. Duas cidades que iriam receber os jogos estão situadas na chamada Ambazônia, região no oeste do país com forte movimento separatista. A origem do conflito está na partilha do território após a Primeira Guerra Mundial. Reino Unido e França dividiram entre si a maior parte da antiga colônia da Alemanha. Já em 1960, quando ocorreu a independência de Camarões, a área anglófona pôde escolher se seguiria em um estado unido com os francófonos ou se juntaria à vizinha Nigéria. Preferiram permanecer, mas desde então cresceu um sentimento de marginalização em relação aos francófonos, que se situam no centro do poder.

Região produtora de petróleo, a Ambazônia clama sua soberania como estado independente. A partir de 2016, com o aumento da repressão do governo de Iaundé aos separatistas, as tensões cresceram. Já nas últimas semanas, ocorreu uma escalada de violência envolvendo o poder central e os rebeldes. Sequestros e assassinatos passaram a tomar os noticiários do país. Em seu comunicado oficial sobre a decisão, a CAF declara que uma equipe de inspeção de segurança visitou Camarões e que “a CAN não poderia estar exposta a quaisquer problemas que pudessem impactar no sucesso da mais prestigiada competição africana”.

Outra questão central que atravancou Camarões foram os atrasos nas obras para a competição. Seis estádios deveriam ser utilizados na Copa Africana de Nações. Destes, o mais antigo é o Ahmadou Ahidjo, tradicional casa da seleção camaronesa. A praça esportiva na capital Iaundé foi construída em 1972, mas já passou por uma reforma recente, visando a CAN feminina de 2016. Além disso, os outros dois estádios prontos ficam justamente na região conflituosa da Ambazônia. As arenas de Bafoussam e Limbé foram inauguradas nesta década.

Já os outros três palcos ainda estão em obras. Deveriam ser inaugurados nos próximos meses, mas os atrasos preocupam a CAF. Um deles fica no norte do país, em Garoua. Outro, com capacidade para 50 mil espectadores, se localiza em Douala – próxima à Ambazônia, mas majoritariamente francófona. E o principal deveria ser o Paul Biya, que leva o nome do ditador no poder desde 1982. A arena para 60 mil, também em Iaundé, sediaria a final. Em setembro, a CAF chegou a se manifestar que havia “um atraso significativo” nas construções dos estádios e na infraestrutura relacionada, mas deu apenas um advertência ao país, realizando novas inspeções em outubro. Ao que parece, a situação não melhorou significativamente.

Sem Camarões, a CAF iniciará um novo processo de escolha da sede. Os países interessados têm até o fim de dezembro para oferecer suas propostas. O favorito para assumir a realização é o Marrocos. Os magrebinos recentemente tentaram receber a Copa do Mundo de 2026 e organizaram o Mundial de Clubes em duas oportunidades. Além disso, deveriam ter sediado a CAN em 2015, mas abriram mão do torneio por conta do surto de ebola no continente. A Argélia é outra cotada, após perder os últimos pleitos. Costa do Marfim e Guiné haviam sido definidas previamente como os palcos da CAN em 2021 e 2023, respectivamente.

Esta é a quarta edição consecutiva da Copa Africana de Nações em que a sede precisa ser alterada meses antes da realização do torneio. Em setembro de 2011, a Líbia abriu mão da competição de 2013 por conta da guerra civil no país. Foi substituída pela África do Sul. Em outubro de 2014, o problema relatado com Marrocos, que passou à Guiné Equatorial a edição de 2015. Já em 2017, a escolha original dos sul-africanos foi deixada de lado e eles acabaram substituídos pelo Gabão. Vale lembrar ainda que em 2010, na Angola, houve um atentado terrorista contra o ônibus da seleção de Togo, organizado por movimentos separatistas da região de Cabinda. Três pessoas morreram e nove ficaram feridas. O histórico não é favorável.