Ter uma Série D maior e com mais times disputando era um pedido antigo de federações e clubes. A quarta divisão brasileira é um fio de esperança para tantos clubes que só tem no estadual o seu calendário garantido (e em copas regionais, que ajudam o clube a não ficar parado o ano inteiro). Portanto, quando a CBF anuncia que o aumento do número de times veio, seria para se comemorar. O problema é que a fórmula de disputa não ajudou. Mais do que isso, ela piorou o que já existia, tirando datas dos times que disputam a competição.

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Um dos problemas da Série D é que é a competição mais curta em termos de calendário. Isso se dá por razões econômicas. Clubes do interior acabam tendo que enfrentar grandes distâncias para fazer seus jogos, com dificuldades de logística. Tudo isso deve ser considerado e, até por isso, os grupos já eram montados de forma regional (ou o mais próximo disso possível).

A grande questão da Série D é fazer com que ela tenha mais calendário. A fórmula antiga, com 40 clubes, tinha grupos com cinco times em cada um, em jogos de ida e volta. Portanto, cada clube jogaria o mínimo de oito jogos na primeira fase. Com mais times, além de dar a mais clubes a chance de jogar uma competição nacional, também poderia aumentar o número de clubes por grupo e, assim, dar mais jogos a cada um deles. Seria a chance, por exemplo, de ter grupos de 10 ou 12 times para, assim, dar ao menos 18 datas aos times. Uma competição que dura um semestre todo.

Só que a fórmula escolhida pela CBF, na prática, diminuiu o número de jogos por clube. Serão 17 grupos de quatro times e se classificam ao mata-mata os primeiros colocados e mais os 15 melhores segundos. Os confrontos eliminatórios serão em ida e volta. O problema disso é que se antes os times tinham ao menos oito jogos, agora são apenas seis. Aumentou-se o número de times, não melhorou o problema de calendário.

Não satisfeita, a CBF ainda piorou a situação. E se formos ver por que a mudança aconteceu, a situação é ainda mais grave. A CBF tinha aumentado o número de vagas de 40 para 48, o que beneficiou apenas alguns estados, os de maior ranking, de acordo com a entidade. A reclamação das federações dos demais estados, eleitoras tanto quanto as maiores, surtiu efeito. Surgiram, então, 20 novas vagas e todos os estados foram contemplados. Não por uma melhora, não com um planejamento pensado e estudado. Pura e simplesmente para atender demandas políticas.

Assim, a Série D terá quatro vagas para São Paulo; três para Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Pernambuco, Goiás e Bahia; duas vagas para Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Pará, Mato Grosso, Maranhão, Paraíba, Distrito Federal, Amazonas, Acre, Piauí, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Tocantins, Amapá, Roraima e Rondônia.

É digno de elogios que a CBF cubra os custos dos clubes na competição, ainda mais considerando que são 68 clubes. Mas, afinal, é para isso que ela serva. E é para isso que deveriam servir as federações estaduais também, porque é nesse nível que os clubes mais precisam de ajuda para se manterem existindo, sejam viáveis, inclusive economicamente.

É um círculo virtuoso: times da Série D com calendário significa mais torcedores atendidos ao longo do ano, mais clubes em atividade mais tempo, mais jogadores tendo emprego, maior chance de vermos jogadores sendo formados, times mais fortes em cada federação, torneios mais atraentes em nível estadual e nacional e, portanto, campeonatos cada vez mais sustentáveis. Mais do que isso: os torneios menores passam a ser também produtos interessantes para TVs, mesmo que locais.

Com a fórmula atual, a política de atender mais federações é atendida, mas não vemos melhoras efetivas. Vemos o mesmo de sempre: política sendo feita e o futebol fica em segundo plano. Se ele melhorar, é por acaso.