O acesso do Famalicão à primeira divisão do Campeonato Português, conquistado na temporada passada, marcava o ápice no processo de renascimento do clube. Após 25 anos, o time de Vila Nova de Famalicão retornava à elite nacional. A espera não havia sido simples aos alviazuis, que chegaram a passar pela quinta divisão no fim da década passada, até conquistarem quatro promoções em 11 anos. E o que já parecia um feito enorme, neste início de campanha, soa como milagre. Os famalicenses aparecem na liderança do Portuguesão, após seis rodadas. Nesta segunda, se garantiram por mais alguns dias no topo da tabela, vencendo seu primeiro jogo contra os grandes: os novatos desbancaram o Sporting dentro do Estádio José Alvalade, de virada, por 2 a 1. As razões para se empolgar com a sensação do campeonato são concretas.

Sediado na região de Braga, em uma cidade de 133 mil habitantes, o Famalicão atravessou grande parte de sua história nas divisões de acesso do Campeonato Português. Fundado em 1931, o clube chegou à primeira divisão nacional em 1946, mas cairia logo depois. Seriam mais 30 anos até outra aparição efêmera na elite durante o fim dos anos 1970. O período mais consistente dos alviazuis aconteceu no início da década de 1990. Os famalicenses emendaram quatro temporadas no Portuguesão, sempre na metade inferior da tabela. A sequência é tratada como o “período dourado” dos pequeninos.

O declínio do Famalicão foi acentuado nos últimos 25 anos, desde o rebaixamento em 1994. Dois anos depois, os alviazuis caíam também à terceira divisão. E a bola de neve foi se acentuando, levando os famalicenses ao limbo na sequência da década. Em 2008, com sérios problemas financeiros, a agremiação terminou relegada à quinta divisão, já regionalizada. Seria resgatada com o apoio de seus torcedores, que escoraram a diretoria na tentativa de estabilizar o clube e sanar os problemas. A partir de então, o Famalicão começou a ressurgir.

A equipe precisou de um ano para conquistar o acesso à quarta divisão. Foram mais dois anos rumo à terceira e outros quatro para alcançar novamente a segunda, em 2015. Desde então, o Famalicão estava acostumado a fazer campanhas medianas. O salto veio mesmo em 2018/19, quando os famalicenses tiveram 51% de suas ações adquiridas pelo Quantum Pacific Group, companhia do magnata israelense Idan Ofer, que também é dona de um terço do Atlético de Madrid. Com os novos proprietários, os investimentos cresceram e os alviazuis asseguraram o retorno à primeira divisão. Terminaram a campanha passada na segundona com a segunda colocação, com 15 pontos de vantagem na zona de promoção.

O mercado de transferências seria movimentado ao Famalicão na última janela. Além de manter alguns destaques da segundona, o clube trouxe 19 novos jogadores. A lista de reforços inclui alguns nomes conhecidos, como o goleiro Vaná (que estava no Porto) e o zagueiro Roderick Miranda (emprestado pelo Wolverhampton). Os famalicenses também passaram a contar com boas promessas sul-americanas, a exemplo do zagueiro argentino Nehuén Pérez e do atacante uruguaio Nicolás Schiappacasse. As boas relações, afinal, facilitam este trânsito. Os alviazuis servem como uma espécie de “clube satélite” do Atlético de Madrid, prontos a desenvolverem jovens jogadores dos colchoneros. Além disso, os dirigentes possuem boa relação com empresários locais, incluindo Jorge Mendes.

Por sua base econômica, o Famalicão poderia despontar como um clube pronto a se firmar na elite do Campeonato Português. Porém, não parecia time para brigar pelas primeiras posições, muito menos para se intrometer na liderança. Mesmo com boas peças, o elenco não é dos mais badalados. O valor de mercado total é apenas o oitavo maior desta temporada em Portugal, enquanto a equipe possui a menor média de idade de toda a liga. Pois esse potencial supera as expectativas e coloca os famalicenses no topo muito antes do que os planos previam. O início da campanha é irretocável – a ponto de levar o Quantum Pacific Group a ampliar sua participação para 85% das ações há duas semanas.

O Famalicão havia conquistado quatro vitórias e um empate nas cinco primeiras rodadas, que o alçaram à primeira colocação do Campeonato Português desde o final de semana passado. Os alviazuis não haviam encarado os grandes, mas pegaram times razoáveis do meio da tabela. Bateram o Rio Ave, que vem de trabalhos consistentes, e o Desportivo das Aves, campeão da Taça de Portugal em 2018. O único “tropeço” havia acontecido fora de casa, na visita ao tradicionalíssimo Vitória de Guimarães, em empate por 1 a 1. Já o desafio maior aconteceu nesta segunda, contra o Sporting, dentro do Alvalade.

Aos mais céticos quanto ao sucesso do Famalicão, este era o jogo para derrubar a surpresa. O Sporting não faz um bom começo no Portuguesão, com direito a troca de técnico e somente dois triunfos nos primeiros cinco compromissos. Ainda assim, enfrentar os sportinguistas em Lisboa parecia suficiente para intimidar qualquer novato. Qualquer novato, menos os alviazuis. O time da casa até abriu o placar, graças a um chutaço de Luciano Vietto na primeira etapa. No início do segundo tempo, Gustavo Assunção fez uma jogadaça pela esquerda e tocou para Ruben Lameiras, que gingou para cima da marcação, antes de soltar o chute de fora da área. Venceu o goleiro Renan Ribeiro e deixou tudo igual.

Por fim, a histórica vitória seria confirmada aos 43 da etapa final, num momento em que o Famalicão cresceu na partida e criava as melhores chances. Diogo Gonçalves arrancou pela direita e cruzou. Sebastián Coates tentou desviar e, contra o próprio patrimônio, determinou o feito dos pequeninos. O duelo ficaria marcado ainda pelos lenços brancos agitados pelos sportinguistas nas arquibancadas, em protesto contra a derrota. Nada que apagasse o tamanho da alegria dos famalicenses pelo primeiro triunfo sobre os leoninos.

O principal destaque do Famalicão neste início de campanha é o ponta Fábio Martins. Filho do ex-atacante brasileiro Niromar, ele nasceu em Portugal enquanto o pai atuava profissionalmente no país. Surgiu na base do Porto e viveu os seus melhores momentos no Braga. Aos 26 anos, chegou emprestado a Vila Nova de Famalicão e brilha com a nova equipe, acumulando quatro gols e duas assistências. Cedido pelo Valencia, o lateral esquerdo espanhol Álex Centelles também rende muito bem neste início de campanha, ganhando projeção aos 20 anos.

Além disso, alguns brasileiros ocupam posições centrais neste Famalicão. O capitão é Rafael Defendi, goleiro de 35 anos que estava no Paços Ferreira, mas possui rodagem em clubes do interior de São Paulo. A defesa conta com Patrick William, zagueiro de 22 anos que era reserva do Vila Nova na Série B, e o experiente lateral Lionn, que passou por diferentes equipes portuguesas. No meio, a aposta é em Gustavo Assunção, volante de 19 anos que veio da base do Atlético de Madrid e brilhou no Alvalade nesta segunda. Já no ataque, Anderson Silva costuma ser um trunfo no segundo tempo. Sempre saindo do banco, o atacante trazido do Guarani anotou dois gols nesta campanha. O garoto de 21 anos havia sido um dos destaques no acesso.

O comando fica por conta de João Pedro Sousa, que ganha sua primeira oportunidade como treinador principal, após acompanhar Marco Silva em diversos trabalhos do compatriota desde 2011 – inclusive no Everton. Aos 48 anos, assumiu após o acesso e já surpreende todo o país. O Famalicão apresenta um futebol agressivo e eficiente, que se vale bastante dos contragolpes e das bolas paradas para construir seus resultados. Contra o Sporting, ainda assim, os alviazuis mantiveram a posse de bola por mais tempo que os anfitriões, aguardando o momento certo para agredir e sair com a vitória.

Um ponto à frente de Porto e Benfica, o Famalicão tem condições de sustentar sua liderança um pouco mais. A equipe enfrenta na próxima rodada o Belenenses, de fraca campanha, dentro do Estádio Municipal de Famalicão. Mesmo acanhado, o caloroso local ajuda os pequeninos a sustentarem seu início empolgante. Já o compromisso seguinte oferece outro desafio contra os grandes: os famalicenses encararão o Porto no Estádio do Dragão, em embate que só acontecerá no final de outubro.

A pausa de mais de um mês no campeonato, por conta da Data Fifa e da Taça da Liga (na qual o Famalicão já foi eliminado), pode quebrar o embalo dos azarões. De qualquer maneira, será um compromisso para os alviazuis reforçarem as suas intenções. Pensar no título, a esta altura, ainda parece pretensão exagerada ao Famalicão. No entanto, a equipe mostra que pode se meter ao menos na briga pelas copas europeias. E, mais importante, indica que o seu ambicioso projeto tende a ser mais duradouro.

* Como leitura complementar, vale ler também a matéria de Tébaro Schmidt no Globo Esporte, que fala com os personagens brasileiros do Famalicão – inclusive Abel Braga, técnico histórico dos alviazuis nos anos 1990.