Um dos grandes méritos da Liga das Nações é oferecer um nível competitivo equilibrado a seleções pouco relevantes da Europa. E nenhuma dessas aproveitou melhor a ocasião que Kosovo. Aceitos pela Uefa a partir de 2016, os balcânicos somaram um mísero ponto nas Eliminatórias para a Copa de 2018, seu primeiro torneio oficial. A partir do último ano, passaram a acumular vitórias em amistosos. Já nesta terça-feira, consumaram o maior feito em sua incipiente história no futebol internacional: conquistaram o acesso à terceira divisão na Liga das Nações, bem como garantiram o direito de disputar ao menos a repescagem à Euro 2020.

Kosovo compôs o último pote na quarta divisão da Liga das Nações, ao lado de Andorra, San Marino e Gibraltar. Em tese, os quatro piores times do continente. Entretanto, apresentaram o seu potencial em uma chave contra Azerbaijão, Ilhas Faroe e Malta. Os kosovares não perderam um jogo sequer ao longo do torneio. Venceram todos os seus compromissos em casa, além de golearem Malta fora. Já nesta terça, aconteceu o duelo decisivo. Dois pontos atrás, os azeris poderiam tomar a liderança se vencessem o encontro em Pristina. Contudo, os balcânicos fizeram as honras da casa sem dificuldades. Golearam por 4 a 0, com destaque aos três gols de Arbër Zeneli, do Heerenveen. O camisa 10 esbanjou categoria nas conclusões.

O mais bacana é ver o envolvimento da população em Kosovo, que sente a representatividade do futebol. Os ingressos ao jogo contra o Azerbaijão se esgotaram em apenas 32 minutos. Havia enorme expectativa sobre a vitória, naquele que já era considerado o maior jogo da seleção até então. Festa consumada com uma queima de fogos de artifício após a goleada. A um país que sofreu com as mazelas da guerra e ainda encara algumas consequências do conflito por sua independência, inclusive limitando as condições estruturais de seu futebol, o acesso não deixa de ser um grito de orgulho ao resto do continente.

Embora não tenha conseguido contar com todos os talentos de origem no país, como Xherdan Shaqiri e Granit Xhaka, Kosovo possui um time razoável. Conta com jogadores em diversas ligas médias e grandes da Europa, com destaque a Valon Berisha e ao próprio Arbër Zeneli. Além disso, outro fator importante é a idade. Exceção feita ao goleiro Samir Ujkani, quase todos os convocados nesta Data Fifa têm menos de 30 anos. São 19 atletas com 25 anos ou menos, além de sete sub-21. Sinal que o desenvolvimento pode ser maior, sob as ordens do técnico Bernard Challandes, experiente em categorias de base. O goleiro Arijanet Muric (Manchester City) e o meia Milot Rashica (Werder Bremen) são dois bons nomes para ficar de olho, ao menos no nível da seleção.

Kosovo não perdeu um jogo sequer em 2018. Venceu sete partidas e empatou outras duas. Os desafios na terceira divisão da Liga das Nações tendem a ser maiores, com a permanência sendo o primeiro objetivo. De qualquer maneira, para a evolução da seleção recém-formada, a promoção vale demais. Serve também de afirmação a um povo. E conforme as regras do torneio continental, os quatro campeões de seus grupos na quarta divisão, caso não consigam a classificação à Eurocopa via eliminatórias, poderão disputar entre si a repescagem por uma vaga na fase principal da Euro 2020. Já seria o ápice aos kosovares. Geórgia, Macedônia e Belarus são os prováveis oponentes no caminho, garantidos como líderes de seus grupos. Adversários acessíveis, que permitem sonhar com o milagre.


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