Oito seleções confirmaram neste final de semana suas classificações à Copa Africana de Nações de 2019. Quase todas já figurinhas carimbadas do torneio, presentes em ao menos uma edição nesta década. A exceção fica justamente para a surpresa. Depois de Madagascar, a Mauritânia se transforma em mais um estreante na CAN. O sorteio dos grupos e o aumento no número de vagas na competição, agora com 24 equipes, pode ter ajudado os mauritanos. Ainda assim, não se nega o tamanho do feito, despontando em uma chave que verá Angola e Burkina Faso se engalfinhando pela segunda colocação.

Diferentemente de outras antigas colônias francesas no norte da África, a Mauritânia não possui grande tradição no futebol. O clima do país oferece uma das explicações, em território tomado quase em sua totalidade pelo Deserto do Saara. Ainda assim, os motivos vão além das dificuldades impostas pelo ambiente. Os clubes mauritanos começaram a se estabelecer depois da independência, na década de 1960, ligados a instituições oficiais – e não a setores da sociedade, como aconteceu com os vizinhos da região. O semiprofissionalismo é um claro entrave, assim como a desorganização das instituições responsáveis por administrar o esporte. Nada mais do que o reflexo de uma nação atravancada pela instabilidade política, pela pobreza e pelos conflitos entre grupos étnicos – que resulta em problemas amplos, como a comum escravização de trabalhadores e a perseguição a determinados povos.

A própria seleção da Mauritânia reproduz esse ciclo de dificuldades. Filiada à Fifa a partir de 1971, só passou a disputar regularmente as Eliminatórias da Copa no Mundial de 1998. Suas ausências nos qualificatórios da CAN também foram frequentes ao longo das últimas cinco décadas. Não à toa, os mauritanos abriram mão das atividades com sua equipe nacional entre outubro de 2008 e abril de 2012, disputando um mísero amistoso neste intervalo. Por conta disso, a nação parou na lanterna do Ranking da Fifa. O renascimento aconteceu somente a partir de então e, principalmente, depois de 2014, quando o francês Corentin Martins assumiu o posto de técnico da seleção.

Ídolo do Auxerre e do Strasbourg em seus tempos de jogador, a ponto de disputar a Euro 1996 com a França, Martins não possuía um histórico tão invejável assim como técnico. Nascido em Brest, assumira de maneira interina o Stade Brestois em diferentes oportunidades, até receber o convite da federação mauritana em 2014. Seu papel, entretanto, vai além da mera função de treinar a seleção. Ele também ajuda a desenvolver ideias e parâmetros para serem aplicados no futebol local. Há um investimento grande em categorias de base e na infraestrutura dos campos. Com o dinheiro repassado pela Fifa, a federação construiu um moderno centro de treinamentos às seleções de base; começou a garantir salários a parte dos jogadores e à comissão técnica dos clubes das duas primeiras divisões; e até mesmo bancou um programa semanal sobre futebol na TV estatal, tentando aumentar a popularidade da modalidade. Medidas com seus efeitos, sobretudo a médio e longo prazo.

Além disso, como de praxe em outras antigas colônias da França, Martins conta com diversos jogadores que nasceram ou imigraram ao território francês ainda na infância. O desenvolvimento de suas habilidades na estrutura profissional dos clubes europeus é algo fundamental. Outro fator que contribui é o trânsito que os atletas mauritanos possuem no futebol tunisiano – também mais evoluído que a liga local. Várias opções ao ataque da Mauritânia atuam na Tunísia. Uma mistura que, diante do trabalho do novo treinador, começou a gerar seus primeiros resultados surpreendentes há alguns anos.

Um marco à Mauritânia aconteceu em 2014, quando o país disputou pela primeira vez a CHAN – a Copa Africana dedicada apenas aos jogadores em atividade nas ligas do continente. Já nos ciclos seguintes, mais alguns resultados históricos, sobretudo a vitória por 3 a 1 sobre a África do Sul nas eliminatórias da CAN 2017. Mesmo ficando pelo caminho, os mauritanos indicavam o seu potencial, encerrando a campanha acima dos Bafana Bafana no grupo liderado por Camarões. Por fim, ao longo dos últimos dois anos, a Mauritânia chegou a vencer amistosos contra Congo, Senegal e Guiné. Também deu trabalho à Tunísia nas Eliminatórias da Copa de 2018. Um prenúncio do que se consumou neste domingo.

A Mauritânia dominou o Grupo I das eliminatórias da CAN 2019. Apesar da goleada sofrida para Angola na visita a Luanda, o time venceu todos os seus outros compromissos. Em casa, bateu Burkina Faso e Angola, os favoritos à classificação. Já a festa pela vaga inédita aconteceu no Estádio Cheikha Ould Boïdiya, localizado na capital Nouakchott. Depois do triunfo fora de casa contra Botsuana, os mauritanos voltaram a derrotar os oponentes. O resultado definitivo veio de virada, com Hacen El Id e Ismaël Diakité anotando os tentos para garantir os 2 a 1 no placar. A celebração que coloca o país no mapa da Copa Africana.

Entre os jogadores mais tarimbados da seleção estão o atacante Moulaye Bessam, rodado por clubes do norte da África, e o capitão Abdoul Ba, zagueiro do Auxerre. Nomes pouco relevantes, em elenco limitado a divisões de acesso da França e da Espanha, assim como atletas em atividade por clubes de ligas secundárias. De qualquer maneira, o trânsito com a França facilita o recrutamento de jogadores com passagens pelas seleções de base dos Bleus. É o caso de Abdoulkader Thiam e Issa Samba, ambos de 20 anos. A prática ainda pode abrir portas a outros. Lateral do Napoli, Kévin Malcuit é uma das possibilidades. Também seria Ousmane Dembélé, primeiro descendente de mauritanos a se sagrar campeão do mundo. O ponta, inclusive, prometeu construir uma mesquita na cidade natal de sua mãe, na fronteira com Senegal.

Obviamente, a Mauritânia joga com aquilo que possui em mãos. E a conquista deste domingo já se torna gigantesca ao país, considerando todas as dificuldades. Mais do que isso, a classificação à Copa Africana de Nações serve de exemplo a outros setores da sociedade local. Indica como o investimento responsável pode gerar melhorias, superando as barreiras do clima, dos conflitos ou de outros desmandos. Exibir a bandeira da nação na principal competição do continente já é uma façanha.

As seleções confirmadas na CAN 2019, restando uma rodada para o fim das eliminatórias: Camarões, Madagascar, Senegal, Marrocos, Mali, Argélia, Nigéria, Guiné, Costa do Marfim, Mauritânia, Tunísia, Egito e Uganda.