Sempre foi uma discussão, mas o movimento #MeToo nos fez pensar com mais profundidade sobre como separar o artista da arte, pelo menos no cinema e na televisão, à medida em que atores, diretores, roteiristas e executivos eram acusados de assédio, abuso, estupro ou aquele eufemismo que a língua inglesa passou a disseminar – má conduta sexual.

Como continuar consumindo o que produzem sem que seja uma absolvição implícita? Dentro da lógica da indústria, público é dinheiro e dinheiro é poder, e foi por meio do poder que eles conseguiram escapar das consequências durante tanto tempo. Mas cabe ao público gerar essas consequências ou é uma prerrogativa exclusiva das autoridades? E se cabe, como fazê-lo de maneira justa, sem o lastro objetivo da lei e do devido processo legal? Em outras palavras, se um artista acusado seriamente de um crime continua fazendo filmes de sucesso, a falha está no público que não o boicotou ou nas autoridades que ainda não o prenderam?

O cinema favorece essa separação, ainda que muitas das perguntas permaneçam sem respostas, porque o espectador entra consciente e voluntariamente em uma realidade alternativa quando se senta diante da telinha ou da telona. Mesmo atores, por definição, fingem que são outras pessoas e, se você fechar os olhos antes e depois de um filme, pode nem saber quem o escreveu ou dirigiu. No futebol, isso é muito mais complicado.

A relação com o artista é muito mais personificada. Faz parte da experiência de estádio, a essência do consumo do jogo, gritar o nome dos seus ídolos nas arquibancadas e reagir emocionalmente, quase sem travas, ao que eles fazem em campo. Associamos conquistas e triunfos a personagens. Todo time tem um craque, um líder. O gol é um momento de libertação, de felicidade, raiva, alívio, e é praticamente impossível vivenciá-lo de maneira blasé porque o responsável por ele não é uma pessoa nota 10.

A relação do público com os artistas do cinema, ou de outras artes, como literatura, é de certa maneira artificial e distante. No futebol, e no esporte, ela é crua, próxima. (embora cada vez mais afastada), carnal, pessoal e real. Ainda não encontramos mecanismos para dissociar o indivíduo das emoções que ele proporcionou. Em grande parte, porque o meio nunca nos exigiu. Enquanto Hollywood pelo menos finge que se importa com as coisas, o histórico do futebol é varrer controvérsias para baixo do tapete e relativizar – “não é racismo, é provocação” – com os piores vícios da sociedade em que está inserido – “mas o que ela fez para merecer?”.

Obras feitas pelos piores seres humanos do planeta têm capacidade de obrigar as pessoas, queiram elas ou não, a pensarem até mesmo em assuntos nos quais seus autores são os exemplos mais bem-acabados do que não fazer. Está na essência da arte tradicional. É ativado sempre que uma história sobre certo assunto é contada. O futebol, por mais que também possa ser artístico e uma janela para o mundo, usado para ajudar a compreendê-lo, como tentamos fazer na Trivela, deixa essas discussões no banco de reservas.

O enredo hegemônico sempre é o do jogo – quem venceu, quem ganhou, quem chuta bem uma bola, quem chuta mal uma bola – e ele invariavelmente promove alguns dos piores aspectos da masculinidade. Poderia citar a competitividade excessiva, a necessidade de dominar e se impor, às vezes por meio da força e da virilidade, o seu vocabulário bélico e agressivo, as resenhas e o que passa por engraçado em seus meandros e até a ampla percepção do futebol feminino como um esporte menor. Mas basta pensar naquele jogador do seu time que gosta de “mandar uma mensagem” com uma entrada dura no começo da partida.

E é por causa de tudo isso que tem muito palmeirense sem saber o que fazer em relação a Dudu, novo jogador do Al-Duhail, do Catar.

A arte

O jogador Dudu, da SE Palmeiras, comemora seu gol contra a equipe do São Paulo FC, durante partida válida pela oitava rodada, do Campeonato Paulista, Série A1, na Arena Allianz Parque.

Dudu não é um craque do nível de outros ídolos do Palmeiras, mas mereceria estátua. Foi o divisor de águas entre o momento em que parecia que o clube nunca mais seria o que era e o momento em que começou a voltar a ser. Foi capitão do primeiro título brasileiro em 24 anos. Foi craque dos títulos mais importantes de uma geração. Quando nada funcionava no time, ele estava lá, correndo o risco de sofrer lesão por esforço repetitivo, recebendo a bola na ponta, driblando e cruzando. Divide com Fernando Prass a primeira prateleira de ídolos alviverdes nesta década, mas, se precisarmos batizar este período do Palmeiras, será a Era Dudu. Em condições normais, sua saída geraria apenas exaltações e lembranças de tudo que fez pelo clube.

Caso o Santos tivesse entrado de férias um dia antes da última rodada do Campeonato Brasileiro de 2014, o Palmeiras teria sido rebaixado pela segunda vez em três anos, a terceira em sua história, no ano do seu centenário. Precisava ganhar do Athletico Paranaense, no recém-inaugurado Allianz Parque, para não depender de ninguém. Com Valdivia mancando, apenas empatou. No Barradão, perdurava o 0 a 0. Um gol do Vitória rebaixaria o Palmeiras. O Santos acabou marcando nos acréscimos, gerando uma onda de alívio na Turiassu. Ainda assim, nada além de alívio.

Havia algumas coisas a favor. A permanência na primeira divisão havia avalizado a aposta do então presidente Paulo Nobre de conter drasticamente os gastos e as contas estavam relativamente em ordem, reforçadas por empréstimos pessoais do piloto de rali. O novo estádio teria sua primeira temporada completa. Alexandre Mattos havia sido trazido de Minas Gerais para tocar o futebol e havia fechado alguns bons negócios, mas foi o anúncio da contratação Dudu que mostrou que alguma coisa realmente estava diferente.

O histórico recente era perder jogadores para seus principais rivais. Dudu era disputado por São Paulo e Corinthians. O Palmeiras nem estava na jogada. Seus torcedores haviam sido treinados por anos de penúria a não sonhar com os principais nomes do mercado. De repente, em uma manhã de domingo, descobriram que Dudu vestiria o verde. Era, se mais nada, uma mensagem clara de ambição e acabou sendo a cereja do bolo de uma reformulação que devolveu ao clube a condição de brigar por títulos.

O começo não foi fácil, com questionamentos válidos sobre o seu controle emocional e um pênalti perdido na final do Campeonato Paulista contra o Santos, mas ele se redimiu com os dois gols que levaram a final da Copa do Brasil à marca do cal. Foi decisivo no título que anunciou o retorno do Palmeiras ao posto de protagonista do futebol brasileiro. A afirmação de que era o principal jogador do time e continuaria sendo até ir embora.

Recebeu a braçadeira de capitão de Cuca, aposta arriscada e precisa para conter suas explosões emotivas. Foi líder dentro de campo e fez gols importantes em vitórias nervosas contra Botafogo e Sport. Se não foi unanimidade como craque da campanha, sem dúvida ajudou a liderar o Palmeiras à quebra de jejum dos títulos brasileiros. Brilhou em uma série de clássicos, fez gol por cobertura contra o São Paulo e era o titular que não quis saber de descanso, dois anos depois, no seu segundo título brasileiro.

Durante cinco anos e meio, foi terrivelmente regular, mesmo quando o time não estava bem. Era sempre capaz de uma jogada decisiva, de resolver um jogo difícil para o Palmeiras. E recusou mais de uma abordagem para ir embora. Parecia contente em ser ídolo de um grande clube brasileiro, que se esforçava para recompensá-lo financeiramente, em vez de ser mais um em algum mercado periférico, mesmo que ganhasse um pouco mais, e isso também apela muito para o torcedor brasileiro acostumado ao entra e sai de ídolos. Cinco anos e meio de serviços são um unicórnio, e o de Dudu pelo Palmeiras, em campo, foi muito bonito.

O artista

Dudu, capitão do Palmeiras (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)

Dudu foi detido por agressões à esposa, Mallu Ohanna, e à sogra, em 2013. Pagou fiança e seguiu a vida. A denúncia, com base na Lei Maria da Penha, era de agressão. Dois anos depois, o juiz reduziu a acusação a “vias de fato”, por não ter havido lesão corporal ou ameaça de morte, e o condenou a cumprir serviços comunitários. Como com tantos outros personagens do futebol, virou nota de rodapé. Curiosamente, causou mais repercussão quando Dudu chegou às mesmas vias de fato com o árbitro Guilherme Ceretta Lima na final do Paulistão de 2015, mesmo ano em que foi sentenciado.

No último mês de junho, Mallu Ohanna registrou uma nova queixa formal contra Dudu. No boletim de ocorrência, relata que foi agredida com socos na cabeça, na região do peito e teve o cabelo puxado na garagem do prédio onde moravam. Estão separados há alguns meses, após 11 anos de união. Segundo o UOL, ela também diz no documento que o jogador vinha adotando um comportamento gradualmente agressivo e que “agressões, mesmo que ocasionais, já vinham ocorrendo até mesmo em público”.

A denúncia é apoiada por vídeos de câmeras de segurançaa defesa de Dudu publicou outras imagens que diz inocentá-lo –  e a agressão de 2013, que com muita boa vontade poderia ser tratada como caso isolado, ganhou companhia. Agora, há evidências de reincidência, de um padrão, de que não houve melhora de comportamento. Dudu, claro, nega as acusações. Mas, em vez de ficar para se defender, preferiu fugir para o Catar.

Não há realmente outra maneira de descrever. No dia em que a denúncia chegou a público, surgiram os primeiros sussurros de que iria embora. O jogador que estava plenamente satisfeito em defender o Palmeiras até o fim da carreira de repente sentiu uma necessidade muito grande de realizar o sonho de jogar na poderosa liga de futebol do Catar. Era apenas conjectura, mas o próprio Dudu admitiu que a denúncia de agressão foi o que o levou a considerar a proposta a sério.

“Eu estava ciente da proposta, mas não estava pensando muito, mas, quando aconteceu o problema com a mãe dos meus filhos, eu pensei. Todo dia uma matéria, uma entrevista, uma mentira diferente. Sei que não ia ter a paz que preciso ter para jogar futebol. Decidi que era momento para vir para o Catar”, disse, segundo o Globo Esporte.

O próprio modelo do negócio era um forte indicativo de que o principal motivador de Dudu para trocar de país não era futebol ou dinheiro. Emprestado sem obrigação de compra, poderia esperar a situação esfriar e depois avaliar se vale a pena ou não retornar. Também deu contornos concretos a essa análise ao dizer que sua saída é um “até breve” e que ainda pretende manter a promessa de encerrar a carreira no Palmeiras.

Porque ele conhece muito bem o meio no qual milita. O futebol em si – colegas, dirigentes, aspones – age sobre o assunto por meio de hashtags e notas oficiais, mas no fundo não liga muito. A imprensa, como entidade, esquece. Tem déficit de atenção. Será distraída por outras polêmicas, jogos, títulos e gols durante o próximo ano e no máximo lembrará brevemente o que levou Dudu ao Catar se um dia ele retornar.

Nas arquibancadas, parte sequer realmente condena o que ele é acusado de ter feito para poder perdoá-lo. Outra parte fica dividida entre o ídolo e o homem. Busca subterfúgios e racionalizações. Permite que a emoção de um gol ou de um título crie a ilusão momentânea de que nada aconteceu. Grita o nome do jogador como se não fosse o mesmo nome do agressor. Finge que, no futebol, não é tão difícil assim separar a obra do artista.

A verdade é que ainda não há uma resposta unânime para o que o torcedor deve fazer quando seu ídolo é acusado de ser um agressor ou expressa posturas que não costumavam ser tão condenadas, como racismo e homofobia. É uma questão nova que ao mesmo tempo evidencia o quanto avançamos como sociedade o quanto ainda precisamos avançar. O que sabemos com certeza é que, no duelo entre o que um jogador faz dentro de campo e o que faz fora dele, o primeiro costuma prevalecer.

.