No final de setembro, a seleção da Romênia foi sancionada pela Uefa. Por conta do comportamento de seus torcedores nos jogos contra Espanha e Malta, pelas Eliminatórias da Euro, os romenos precisariam disputar seus dois compromissos seguintes como mandantes com os portões fechados. Segundo o relatório da entidade, os torcedores “invadiram o campo, acenderam sinalizadores, atiraram objetos e proferiram cânticos racistas” – no caso, através de gritos anti-húngaros, rivais históricos dos romenos. Além do banimento à torcida, a federação local precisou pagar uma multa de €83 mil.

A primeira partida que deveria ter os portões fechados acabou disputada nesta terça-feira, em Bucareste. A Romênia enfrentou a Noruega, em duelo decisivo pelo Grupo F das Eliminatórias da Euro. No entanto, a federação pediu uma punição alternativa, acatada pela Uefa. Os portões se abriram, mas apenas a crianças e adolescentes de até 14 anos, que tiveram entrada gratuita. Ao todo, 30 mil jovens estiveram presentes na Arena Nacional, em grupos organizados a partir de escolas de ensino fundamental e de escolinhas de futebol, acompanhados por adultos. Fizeram uma bonita festa, embora questionada por membros da delegação norueguesa.

Às vésperas do jogo, a Noruega escreveu uma carta à Uefa sobre a punição alternativa, que é prevista no próprio regulamento da entidade. Os noruegueses se incomodaram com o fato de não terem sido informados previamente, bem como pela limitação que se manteve aos torcedores visitantes. Além disso, também questionaram se as próprias crianças não poderiam cometer atos xenofóbicos contra os jogadores escandinavos – o que foi visto como um insulto às crianças por parte dos romenos. Na Romênia, também indagou-se a maneira como a Noruega e a própria Uefa trataram os cânticos anti-húngaros (mais ligados à rivalidade entre os países) como outros casos de racismo.

Em tempos nos quais as punições por racismo se tornam cada vez mais constantes na Uefa, sobretudo entre suas seleções, a inoperância das sanções aplicadas pela entidade fica clara. Não são os portões fechados ou as multas de algumas dezenas de milhares de euros às federações que inibem as manifestações preconceituosas. Assim, a iniciativa de abrir os portões a crianças se coloca no centro do debate. Há quem veja a medida como uma forma de transformar a pena em algo positivo, sem realmente combater o problema. Por outro lado, também existe quem defenda uma punição individual maior, com as crianças servindo de exemplo para que não se afete a seleção como um todo por atos de minorias.

De fato, a Arena Nacional viveu uma grande festa. As crianças coloriram o entorno do estádio e produziram um belo momento durante o hino nacional. Além disso, fizeram barulho durante toda a partida – a ponto de confundirem o técnico Cosmin Contra. De costas para um pênalti cobrado por George Puscas, o comandante achou que o gol havia saído pela movimentação nas arquibancadas e até comemorou. Quando se virou, percebeu o erro do atacante, em chute defendido pelo goleiro Rune Jarstein.

Depois da partida, membros da Noruega continuaram o seu questionamento à pena alternativa, comparando a Romênia à Bulgária, após os incidentes no jogo contra a Inglaterra. “As regras são assim e a Romênia tirou vantagem disso. Mas eu não acho que é suficiente como uma punição dura para o racismo. Fico incomodado por falar disso. Aconteceu contra a Inglaterra de novo, isso te deixa sem esperança. As regras deveriam ter tolerância zero. Eu me oponho fortemente ao racismo, mas as medidas da Uefa são discutíveis, tínhamos milhares de jovens se divertindo aqui”, afirmou o capitão Stefan Johansson, à imprensa local.

Dentro de campo, a Noruega conquistou um bom resultado. A Romênia saiu em vantagem, com Alexandru Mitrita, pouco depois do pênalti desperdiçado por Puscas. Já aos 47 do segundo tempo, Alexander Sorloth conseguiu buscar o empate por 1 a 1 aos noruegueses. Numa chave em que a Espanha já assegurou sua classificação, três equipes brigam pela segunda vaga. A Suécia tem 15 pontos, a Romênia soma 14 e a Noruega possui 11, restando duas rodadas. O próximo compromisso dos romenos (teoricamente) com os portões fechados será justamente o embate decisivo contra os suecos em Bucareste.