As eliminatórias, muitas vezes, não se restringem ao futebol. Elas também guardam conflitos que extrapolam as quatro linhas. E dois entraves diplomáticos aconteceram nesta segunda-feira, na Europa e na Ásia. Pelas Eliminatórias da Euro 2020, a seleção da Turquia se queixou da recepção que teve na Islândia, alegando que as autoridades locais dificultaram a entrada do elenco no país. Confusão que levou a manifestação de várias autoridades. Enquanto isso, nas Eliminatórias Asiáticas da Copa de 2022, que também valem à Copa da Ásia de 2023, Macau desistiu do jogo contra Sri Lanka alegando a falta de segurança na ilha.

O imbróglio envolvendo a Turquia veio à tona através das redes sociais. Segundo os jogadores da seleção, eles ficaram três horas no aeroporto até ganharem a permissão para entrar na Islândia. Alegaram que foram maltratados durante a passagem pela imigração . O assunto foi repercutido até mesmo pelo Ministro das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, apontando que foi “inaceitável em termos de práticas diplomáticas e humanitárias”, garantindo que a Turquia “faria o necessário” para se posicionar contra arbitrariedades.

Como se a situação já não bastasse, enquanto o capitão Emre Belozoglu era entrevistado no aeroporto, uma escova de banheiro apareceu entre os microfones dos jornalistas. A “brincadeira” foi realizada por um turista belga, mas aumentou a irritação dos turcos. O porta-voz do presidente Recep Tayyip Erdogan também se posicionou. Afirmou que era um “desrespeito à seleção e que o estado daria todo apoio para a melhor resposta em campo”.

Segundo as autoridades da Islândia, a história não é tão dramática quanto a versão dos turcos. A Isavia (versão local da Infraero) afirma que a seleção turca ficou retida por cerca de 80 minutos no aeroporto de Keflavík. Os procedimentos são padronizados, inclusive aos passageiros islandeses, conforme as regras da União Europeia. Segundo a estatal, os jogadores carregavam eletrônicos e líquidos “pouco usuais” nas bagens de mão. Eles teriam que retirar os objetos da mala, o que causou o imbróglio. O Ministro das Relações Exteriores da Islândia também está averiguando o episódio. Em represália, o site da Isavia foi atacado por hackers turcos.

A Turquia já vinha de outro atrito nessas Eliminatórias da Euro. No sábado, os torcedores em Konya vaiaram o hino da França antes da partida. O presidente Emmanuel Macron classificou a atitude como “inaceitável”, enquanto o presidente da federação francesa tentou botar panos quentes. Há uma disputa política entre os países, especialmente pela recusa da França em admitir a Turquia entre os membros da União Europeia.

O caso de Macau é mais drástico. Pela primeira fase das Eliminatórias Asiáticas, a antiga colônia portuguesa venceu o jogo de ida contra Sri Lanka por 1 a 0, gol de Filipe Duarte. No entanto, a federação resolveu desistir do reencontro em Colombo. Segundo os dirigentes, não há condições de segurança em Sri Lanka para o confronto, após os atentados ocorridos no país em abril. Ao todo, 258 pessoas faleceram nos nove ataques terroristas coordenados por extremistas islâmicos. A entidade solicitou à Fifa e à AFC para que o embate acontecesse em um país neutro, o que não foi aceito por ambas as confederações, garantindo a segurança. Assim, os macauenses se retiraram do torneio, o que não agradou seus jogadores.

A federação de Macau chegou a afirmar que pagaria os custos de um jogo em campo neutro. Por outro lado, Sri Lanka garantiu dedicação especial de sua polícia e de suas forças armadas ao duelo. Diante do impasse, Fifa e AFC ficaram ao lado dos cingaleses. Por conta da postura, a federação macauense pode ser sancionada pela Fifa, com multas ou até mesmo um banimento temporário. Os jogadores se ofereceram para assinar um termo de responsabilidade, o que não foi aceito por Macau. Eles também planejaram pegar um voo de emergência a Sri Lanka, antes da oficialização da desistência.

“Pensamos que existiam condições para ir até lá e representar o país em busca da classificação. Se nós perdêssemos em campo, seria o futebol. Mas não estar presentes nos deixa desapontados. O futebol deve ser disputado em campo e não nos corredores das federações”, declarou Niki Torrão, capitão de Macau, à MNA – a agência de notícias local. “Essa era uma oportunidade histórica para a minha geração. Estávamos muito próximos de alcançar nosso objetivo. Talvez não conseguíssemos em campo, mas pelo menos poderíamos ter a oportunidade”.