A Revolução dos Cravos trouxe a liberdade à Portugal e foi o ponto de cisão definitivo do futebol com o amadorismo

O dia 25 de abril de 1974 é, com alguma vantagem, o dia mais importante da história contemporânea portuguesa. A Revolução dos Cravos, sem precisar dar um único tiro, derrubou o salazarismo há 45 anos e deu um novo rumo ao país. Longe das amarras tiranas, o futebol português também deu um salto. Não exatamente de qualidade, visto que a melhor geração portuguesa surgiu no auge do regime de Antônio Salazar, se aproveitando dos talentos coloniais. Mas por atingir o profissionalismo que um país tão importante como Portugal exigia.

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Inicialmente, Salazar era avesso ao futebol. O ditador demorou a perceber o potencial do esporte como uma ferramenta de controle das massas, ainda que jamais tenha gostado de fato do esporte. “Salazar nunca foi fã de futebol. Quando a seleção voltou do Mundial de Inglaterra, confundiu o Coluna com o Vicente”, disse, certa vez, o ícone do futebol português Antônio Simões. Enquanto o futebol italiano assumia o profissionalismo para dominar a Europa e o Mundo nos anos 1930, o país ibérico preferiu se fechar em seus próprios problemas. O profissionalismo gerou debate em Portugal como em outros países a partir da década de 1920, mas em 1943 foi decretada uma lei que dizia que toda atividade esportiva deveria ser amadora. Só em 1965, depois das conquistas europeias do Benfica, que o profissionalismo foi adotado oficialmente.

Mas no papel aceita-se tudo, e a prática profissional ainda era algo bem distante. “O profissionalismo no futebol português não era vincado, era um profissionalismo de miséria. Eusébio e Coluna são os maiores exemplos. E esses eram mesmo profissionais. Nos clubes da Margem Sul, os treinos eram ao final da tarde porque muitos trabalhavam para sobreviver”, relatou José Rachão em reportagem do site português Mais Futebol, na ocasião dos 40 anos da revolução. Rachão atuava no Montijo, clube que foi extinto neste século por problemas financeiros. Em Portugal também existia a Lei de Opção, uma espécie de Lei do Passe brasileira, quase nos mesmos moldes. Só a morte de Salazar, em 1970, é que começou a mudar as coisas para os jogadores, assim como para o país. A figura de Antônio Salazar – vivo – não permitia resistência.

Em 1972, foi constituído o primeiro Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol, tendo Eusébio entre as lideranças. Jogar futebol era um péssimo negócio do ponto de vista de carreira. A aposentadoria, que hoje pode ser conseguida no primeiro salário, era apenas uma utopia nos anos 70. Os clubes não repassavam os descontos em folha para a Segurança Social, algo que só mudou após a queda da ditadura. ”Só tivemos direito à Segurança Social a partir de 1976, mais ou menos. O 25 de abril nos deu mais força para fazer reivindicações e lutarmos por aquilo que era justo para nós”, contou João Esteves, então atleta do Leixões.

Por décadas, o profissionalismo em Portugal não passou de um amadorismo marrom. Ganhava-se dinheiro para jogar futebol, mas para sobreviver, muitos seguiam mantendo empregos formais. Fernando Santos, por exemplo, campeão da Euro 2016 como treinador, dividia seu tempos jogando pelo Estoril com um emprego em um hotel.

As mudanças causadas pela Revolução dos Cravos também se fez sentir na participação de certos clubes nos campeonatos. Na época amadora, era comum equipes ligadas à indústria conseguirem certo destaque, justamente por conseguirem utilizar empregos como moeda de troca, ainda que fossem apenas de fachada. A CUF de Barreiro, time da Companhia União Fabril, que ficou 22 anos consecutivamente na elite, beliscando até mesmo um top-3, é o principal exemplo. Foi rebaixado duas temporadas depois da Revolução, mudou de nome para Quimigal e foi ladeira abaixo na pirâmide do futebol tuga.

O consequente fim da Lei de Opção que ocorreu em seguida gerou uma óbvia debandada de jogadores, impedindo a manutenção de bases vitoriosas. E o distanciamento de Portugal com suas ex-colônias, em independências ocorridas justamente na época da revolução, causou um hiato de talento e poder no futebol europeu, só recuperado a partir dos anos 1980, quando o país entra na União Europeia. Os clubes de futebol passaram a entender a lógica mercantilista pelo qual o futebol do continente europeu já estava imerso. Pinto da Costa, presidente do Porto a partir de 1982 talvez seja o principal exemplo disso. O Porto era apenas a terceira força e se transformou em um gigante continental e um exímio negociador de atletas. A valorização das categorias de base também se tornou uma premissa nos clubes. Coincidência ou não, a geração nascida no anos finais do período de chumbo chegou a conquistar os Mundiais Sub-20 de 1989 e 1991, o segundo realizado no próprio país.

Depois disso, o futebol português foi aos poucos colhendo os frutos de um trabalho sério. Foi no país que a literatura tática ganhou novos contornos, sendo referência até os dias de hoje, tanto no futebol europeu quanto no restante do mundo. Não à toa, o país passou de um mero coadjuvante a ator principal, participando das últimas cinco Copas do Mundo consecutivamente, conquistando a Europa com clube e seleção, mesmo não sendo uma potência, e tendo um dos principais nomes individuais da história do futebol na recente década. Foi com a Revolução dos Cravos que o futebol português conseguiu encontrar o que tanto precisava para evoluir após o salazarismo: liberdade.