A recuperação de Danny Ings é uma das melhores histórias desta Premier League

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Fazer gol não é que nem andar de bicicleta. Técnica para bater certo na bola é importante, frieza é essencial, mas nada adianta se o atacante não tiver confiança, até certa arrogância, de que seus chutes sempre serão precisos. Hesitar ou pensar demais custa aquele milésimo de segundo suficiente para o defensor fechar os espaços. Danny Ings passou 930 dias sem fazer um gol. Tempo suficiente para ter esquecido como se faz. Se atacante vive de gol, sofreu um severo caso de inanição e, contra todos os prognósticos, se recuperou. Após 32 rodadas da Premier League, é o terceiro artilheiro, apenas um gol atrás de Aubameyang e Vardy.

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Por esse aspecto psicológico, são comuns os casos de atacantes que nunca conseguiram retornar de uma crise de confiança ou uma séria lesão. No caso de Ings, foram dois longos períodos afastado por problemas físicos. Rompeu os ligamentos cruzados do joelho na primeira sessão de treinamentos da qual participou sob o comando de Jürgen Klopp, em outubro de 2015. Havia acabado de trocar o Burnley pelo Liverpool. Perdeu toda a temporada. Voltaria a campo apenas na última rodada da Premier League, atuando 26 minutos contra o West Brom.

Ings ganhou minutos na pré-temporada, atuou pelo time reserva para ganhar ritmo e estava começando a se reinserir na equipe principal. Havia saído do banco de reservas contra o Derby, na terceira rodada da Copa da Liga, e o fez novamente na fase seguinte, diante do Tottenham. Ao tentar roubar uma bola, machucou a cartilagem do joelho. Precisou passar por cirurgia. Perdeu o restante da temporada.

E teve que passar por tudo novamente. Mais um tempo no time reserva, mais uma série de partidas saindo do banco de reservas. Em março de 2018, fez seu primeiro jogo como titular em dois anos e meio. No mês seguinte, marcou contra o West Brom, o gol que quebrou o jejum de 930 dias. Mas havia perdido o bonde. O Liverpool crescera, era finalista da Champions League, e Ings, ainda com 25 anos, não encontraria o espaço que precisava para tentar voltar a ser um jogador relevante.

Foi emprestado ao Southampton e, se não fez tantos gols, apenas oito, pelo menos ficou relativamente longe do departamento médico. Somou 1.756 minutos, fez 25 jogos, foi titular 24 vezes. Deixou impressão boa o suficiente para que os Saints assegurassem sua contratação em definitivo por £ 20 milhões. O processo foi longo, teve diversos obstáculos, mas o final foi feliz. Mais feliz do que se imaginava. Ings não apenas se recuperou como está mostrando uma versão do seu futebol até melhor que aquela pela qual se destacou defendendo o Burnley.

No último domingo, fez dois gols na vitória por 3 a 1 sobre o Watford e chegou a 18 pela Premier League. Mais do que isso: entrou em campo em todas as 32 rodadas, 26 desde o início. Tem mais quatro jogos e três tentos pelas copas inglesas. Não há atacante na liga inglesa mais essencial para os gols do seu time nesta temporada do que ele.

Quer dizer, na porcentagem de gols marcados por um único jogador em relação ao total dos 20 times da Premier League, considerando apenas os que marcaram pelo menos dez, Temmu Pukki, do Norwich, tem 0,1% a mais do que os 43,9% de Ings, mas podemos considerar empate técnico.

Teemu Pukki (Norwich) – 11/25 – 44%
Danny Ings (Southampton) – 18/41 – 43,9%
Pierre-Emerick Aubameyang (Arsenal) – 19/47 – 40,4%
Raúl Jiménez (Wolverhampton) – 15/45 – 33,3%
Dominic Calvert-Lewin (Everton) – 13/40 – 32,5%
Jamie Vardy (Leicester) – 19/60 – 31,6%
Chris Wood (Burnley) – 11/36 – 30,5%
Richarlison (Everton) – 11/40 – 27,5%
Anthony Martial (Manchester United) – 14/51 – 27,4%
Marcus Rashford (Manchester United) – 14/51 – 27,4%
Harry Kane (Tottenham) – 13/51 – 25,4%
Mohamed Salah (Liverpool) – 17/70 – 24,2%
Tammy Abraham (Chelsea) – 13/57 – 22,8%
Sadio Mané (Liverpool) – 15/70 – 21,4%
Sergio Agüero (Manchester City) – 16/81 – 19,7%
Raheem Sterling (Manchester City) – 13/81 – 16%
Kevin De Bruyne (Manchester City) – 11/81 – 13,5%
Gabriel Jesus (Manchester City) – 10/81 – 12,3%

A principal diferença entre um ano e outro no Southampton, cujo estádio St. Mary’s fica a seis quilômetros do bairro onde Ings foi criado, foi uma forte preparação na pré-temporada. “Eu sinto que estou em um momento melhor mentalmente. Eu voltei pra pré-temporada melhor fisicamente do que quando cheguei aqui. Ano passado, acho que me prejudicou um pouco.  Eu marcava aqui ou ali, mas eu não estava 100% por ter perdido a pré-temporada e também estava com uma bolha horrível”, disse, à BBC.

“Este ano, foi um grande incentivo voltar na melhor forma possível. Eu tive um verão mais curto, trabalhei extremamente duro e isso me deixou no estado em que estou agora”, completou.

Dias antes da sua primeira séria lesão, Ings entrou no lugar de Harry Kane, aos 24 minutos do segundo tempo da vitória por 3 a 0 sobre a Lituânia, pelas Eliminatórias da Eurocopa de 2016. Segue sendo sua única partida pela seleção inglesa. Chegou a ser citado entre possíveis reposições a Kane, quando o capitão se machucou no começo do ano. “Tudo que posso fazer, como jogador, é me dar a melhor chance possível. É isso que eu farei”, encerrou. E é isso que vem fazendo.

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