Mesmo vinda de um histórico bicampeonato espanhol, a Real Sociedad iniciava a temporada 1982/83 tendo algo a provar: a má fase de muitos de seus principais jogadores após a campanha decepcionante da seleção espanhola no Mundial de 1982 somava-se a um currículo bem pobre do clube em competições europeias, instando os donostiarras a mostrarem que ainda estavam vivos. Com essa motivação, partiram para uma campanha inesquecível na Copa dos Campeões, tornada ainda mais difícil pelo acúmulo de baixas em um elenco já um tanto reduzido e que só parou nas semifinais numa derrota doída e polêmica para o Hamburgo.

A ressaca da Copa

O fiasco da participação da Espanha na Copa do Mundo que organizou, em 1982, provocou um expurgo de grandes proporções na seleção, que contou inclusive com o apoio da imprensa local. Poucos jogadores dentre os 22 convocados pelo uruguaio José Santamaría para aquele Mundial continuaram a ser chamados após sua troca por Miguel Muñoz. Mesmo nomes não tão veteranos ou que haviam sido alçados ao status de selecionáveis apenas naquele ciclo entre 1980 e 1982 não resistiram ao clamor geral para que se rasgasse tudo e começasse de novo.

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Esse expurgo foi especialmente sentido pela Real Sociedad. Bicampeã nacional em 1981 e 1982, a equipe donostiarra havia se tornado a base da seleção durante a era Santamaría, suplantando nesse privilégio os dois gigantes do país, Real Madrid e Barcelona. Dos seis jogadores do clube levados à Copa (dos quais cinco eram titulares), apenas o goleiro Luís Arconada – então tido como um dos melhores da Europa na posição – permaneceu com seu prestígio na seleção intacto e seguiu como titular da Espanha no ciclo seguinte, para a Eurocopa de 1984.

Dos outros cinco, só o centroavante Jesús Satrústegui chegou a figurar na primeira lista de Muñoz, para o jogo contra a Islândia em Málaga, pelas Eliminatórias da Eurocopa. Mesmo assim, ficou na reserva. Chamado também para o seguinte (contra a Irlanda em Dublin, pela mesma competição), foi cortado por lesão e nunca mais lembrado. Já o volante Miguel “Periko” Alonso (vendido ao Barcelona após o Mundial), o meia-armador Jesús Zamora (camisa 10 da Espanha na Copa) e os pontas Pedro Uralde e Roberto López Ufarte sequer teriam outra chance.

Algo que não foi tão discutido na época, mas que surge como uma das possíveis explicações para o fiasco é o fato de ter utilizado como base para a seleção – especialmente do meio para a frente – um clube ainda com pouca tarimba internacional. Os donostiarras tinham um histórico bastante pobre nas competições europeias de clubes: haviam disputado a Copa da Uefa apenas quatro vezes (a primeira em 1974/75) e a Copa dos Campeões uma única vez, nunca indo além das oitavas de final e caindo no primeiro mata-mata em três das cinco ocasiões.

O time-base

Nesse contexto, quando a Real Sociedad começou a se preparar para sua segunda participação na Copa dos Campeões, em 1982/83, havia esse duplo objetivo: reafirmar a qualidade de seus jogadores e mostrar que eles estavam sim à altura dos grandes torneios internacionais. E sem grandes mudanças: dos 11 titulares, nada menos que oito mantinham seu lugar desde 1979/80, a primeira temporada sob o comando de Alberto Ormaetxea, um ex-defensor que atuara pelos txuri-urdin por quase toda a carreira até pendurar as chuteiras em 1973.

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O time começava com talvez seu nome de mais destaque: Luis Arconada, goleiro de excelente elasticidade, reflexos, bravura e muita agilidade na recuperação. Titular da seleção espanhola por toda a primeira metade dos anos 1980, é o melhor da posição na história do clube. Pelas laterais, Genaro Celayeta (direita) e Julio Olaizola (esquerda) eram mais defensivos. O primeiro era, sempre que necessário, destacado para fazer a marcação individual sobre algum oponente. O segundo, por sua vez, se destacava pela valentia e aplicação no combate.

No miolo da zaga, atuava o líbero e capitão Inaxio Kortabarría, titular da equipe há mais de uma década e símbolo, dentro da equipe, do nacionalismo basco dos donostiarras. Ficou marcado o episódio em que ele entrou em campo carregando, juntamente com José Ángel Iribar (goleiro do Athletic Bilbao), a Ikurriña, a então proibida bandeira basca, antes de um confronto entre as duas equipes, em dezembro de 1976. Ao seu lado, jogava Alberto Górriz, zagueiro de boa estatura e forte nas bolas altas, titular desde a campanha do primeiro título.

Com a disposição do time num 4-3-3 simples, o meio-campo tinha um formato de triângulo invertido: os dois vértices da base eram os volantes que combinavam marcação e apoio no setor. Mais pelo lado direito jogava José Diego Álvarez, responsável pela transição ofensiva e que chegou a figurar no elenco da Espanha na Eurocopa de 1980, sem atuar. Com a saída de Miguel “Periko” Alonso (pai de Xabi Alonso) para o Barcelona, seu substituto acabou sendo Javier Zubillaga, meia dinâmico e um dos nomes mais jovens do elenco.

À frente, na ligação do meio-campo com o ataque, atuava Jesús Zamora, camisa 10 do time, o grande condutor das jogadas ofensivas. Armador criativo e muito habilidoso, mas que viveria uma temporada muito marcada por problemas físicos. Seu auxílio na criação vinha do ponta-esquerda Roberto López Ufarte, “el pequeno diablo”, baixinho de drible curto e abusado. Nascido em Fez, no Marrocos, filho de pai catalão e mãe andaluza, chegou ao País Basco aos oito anos de idade e, mesmo sem ascendência basca direta, foi aceito pela base da Real Sociedad.

Além dele, a trinca ofensiva era composta por Pedro Uralde – revelação da base na temporada anterior, ponteiro-direito de bom chute, que também podia fechar pelo meio ou ser usado como um segundo atacante num 4-4-2 – e pelo centroavante Jesús Satrústegui, o maior artilheiro da história do clube, jogador incansável na movimentação, batalhador, perito em abrir espaços, mas também bom finalizador. Lesionado gravemente na metade da campanha, cedeu lugar ao garoto José Maria Bakero, da base, que entrou na direita passando Uralde ao centro.

Outros nomes também tiveram grande participação na campanha, como o sólido zagueiro Agustín Gajate (antigo titular ao lado de Kortabarría, antes de Górriz despontar), o determinado meia defensivo Jon Andoni Larrañaga (que seria o titular na liga) e os versáteis Eliseo Murillo – que poderia atuar com a mesma eficiência de volante ou pelas duas laterais – e Tomás Orbegozo – lateral de origem, mas que chegou a ser escalado até mesmo no ataque, em meio à séria crise de lesões enfrentada pelos txuri-urdin ao longo da temporada.

Embarcando na jornada europeia

O primeiro adversário seria o Víkingur, campeão da Islândia – curiosamente, também o país que seria o primeiro adversário da nova Espanha de Miguel Muñoz – em partidas disputadas nos dias 15 e 29 de setembro de 1982. Dirigida pelo soviético Yuri Sedov, a equipe nórdica contava com dois jogadores que enfrentariam a Roja em Málaga mais tarde em outubro: o armador Ómar Torfason e o atacante Heimir Karlsson. E assim como no confronto entre as equipes nacionais, o clube islandês também trataria de endurecer o jogo diante dos donostiarras.

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No jogo de ida, no Estádio Laugardalsvóllur, o Víkingur recebeu a Real Sociedad numa tarde fria, com temperatura em torno de zero grau, uma chuva intensa que deixou o gramado encharcado e ventos fortes. Esta ventania, aliás, acabou ajudando os donostiarras no lance do único gol do jogo, marcado aos 15 minutos da etapa inicial: Celayeta desceu pela direita e alçou para a área. A bola fez uma curva estranha no ar e caiu bem aos pés de Satrústegui, que arrancou e bateu de perna esquerda para vencer o goleiro Ögmundur Kristinsson.

A partida de volta foi precedida pela entrega da taça de campeão da Liga 1981/82 ao capitão Luis Arconada pelo presidente da federação espanhola, Pablo Porta. Mesmo muito desfalcada, a Real encarava o que acreditava ser um jogo protocolar. Mas não contava que, logo no primeiro minuto, o meia Jóhann Thorvardarsson arrancasse pelo meio com bola dominada e encontrasse a brecha na defesa donostiarra para disparar um chute rasteiro que entrou bem no canto de Arconada, roçando a trave. Para o espanto da torcida da casa, o Víkingur abria o placar.

O susto, porém, durou pouco. Mesmo nervosa com o gol sofrido tão cedo, a Real se lançou ao ataque e chegou ao empate logo no minuto seguinte: López Ufarte cruzou, Satrústegui escorou de cabeça e Uralde, também de cabeça, deixou tudo igual. Mais tranquila, a equipe donostiarra viraria o placar ainda no primeiro tempo, aos 27 minutos, num centro cabeceado por Satrústegui e que Uralde ainda chegou a tocar quase em cima da linha. A contagem poderia ter sido maior não fossem as ótimas defesas de Kristinsson, aplaudido pela torcida da casa.

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Na etapa final, pouco antes dos dez minutos, López Ufarte (que vinha cumprindo uma atuação de erros e acertos) fez fila na defesa adversária e bateu forte para a defesa de Kristinsson. Mas Satrústegui, oportunista, conferiu no rebote e tornou a vantagem ainda mais confortável. E aos 20, Ormaetxea colocou Zamora em campo, na primeira partida do meia – vindo de uma cirurgia que o afastou dos gramados por dois meses – naquela temporada. Só que aos 25, Arconada deu rebote num chute islandês e Sverrir Herbertsson ainda diminuiu.

Felizmente para os txuri-urdin, a reação dos visitantes parou por aí. Na base do controle de bola, a Real conseguiu evitar maiores perigos e confirmou sua segunda vitória no confronto, avançando pela primeira vez às oitavas de final da Copa dos Campeões (já que na edição anterior, a equipe caíra justamente nesta primeira rodada diante do CSKA Sofia). O adversário nesta nova fase, no entanto, inspirava cuidados bem maiores: era o Celtic, que vinha de eliminar o Ajax arrancando uma vitória por 2 a 1 em Amsterdã após empatar em 2 a 2 em Glasgow.

Subindo mais um degrau

O jogo de ida do confronto seria realizado em Atotxa, no dia 20 de outubro. Pela primeira vez a Real teria todos os titulares em campo, enquanto o Celtic – dirigido por Billy McNeill, capitão da equipe campeã europeia em 1967 – também levaria para o jogo seus principais nomes. Entre eles estavam o goleiro irlandês Pat Bonner, o lateral e capitão Danny McGrain, o zagueiro Roy Aitken, os meias Paul McStay e Murdo McLeod, o ponteiro Davie Provan e seu grande artilheiro daquela temporada, o atacante Charlie Nicholas, autor de 48 gols somando todos os torneios.

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Além dos efetivos, dois outros nomes então pouco conhecidos – um em cada equipe – que discretamente compunham a lista dos relacionados para a partida chamam a atenção. Na Real, o técnico Ormaetxea dava uma oportunidade a um jovem ponta-esquerda recém-promovido da Sanse, o clube filial: um certo Aitor “Txiki” Beguiristain. Já pelo lado dos Bhoys, no banco de reservas estaria um zagueiro prata da casa de nome David Moyes – que entre novembro de 2014 e novembro de 2015 treinaria exatamente os donostiarras, rivais de então.

Na prévia do jogo, o diário catalão “Mundo Deportivo” publicava que a Real jogaria para buscar uma vitória por 2 a 0, resultado considerado suficiente para ser defendido na partida de volta em Glasgow. E este seria justamente o placar final em Atotxa. Mas chegar a ele não foi nada fácil, em vista da forte marcação individual exercida pelos escoceses, que plantaram verdadeira barreira à frente de sua área, e também pelo inconsistente jogo coletivo apresentado pelos txuri-urdin, que praticamente só conseguiam criar perigo quando recorriam à individualidade.

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Bastaram, porém, cinco minutos de maior lucidez ofensiva, já se aproximando do terço final do segundo tempo, para que a Real conseguisse os dois preciosos gols. Zamora iniciou a jogada pela meia esquerda ao se desvencilhar da marcação e entregar um bom passe para López Ufarte. O ponteiro, por sua vez, tocou de primeira para Satrústegui, que girou sobre o defensor e desferiu um chute seco, rasteiro, da meia-lua, para vencer Bonner pela primeira vez aos 29 minutos. E aos 34, quando a torcida ainda comemorava a abertura do placar, veio o segundo.

Após uma troca de passes na intermediária ofensiva, Zamora entregou a Uralde, deslocado pela ponta esquerda. O camisa 7 fez o giro em direção ao centro do campo e, da intermediária, decidiu arriscar o chute. A bola pareceu desviar em alguém no meio de sua trajetória e, quando Bonner percebeu sua aproximação, já era tarde demais: ela entrara bem em seu canto. Depois, foi a vez de os txuri-urdin se fecharem com toda a garra para sustentar a boa vantagem, apoiados pelos pouco mais de 20 mil eufóricos torcedores que lotavam o caldeirão de Atotxa.

A partida de volta viria dali a duas semanas, em 3 de novembro de 1982, num Celtic Park lotado e que, numa cordialidade com a delegação donostiarra, recebeu-os hasteando a bandeira basca em vez da espanhola – ainda que alguns torcedores escoceses pensassem se tratar de uma versão em verde, vermelho e branco da Union Jack britânica. Para defender a vantagem, Ormaetxea pensou em sacar da equipe o ponta Uralde para a entrada de Gajate como um terceiro zagueiro, mas desistiu de última hora e manteve o time titular completo. Sábia decisão.

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Mesmo com a pressão da torcida local, os txuri-urdin conseguiram resistir ao sufoco inicial dos ataques do Celtic – com Celayeta se destacando em duas intervenções cruciais, antecipando-se para cortar de cabeça as jogadas aéreas antes que elas chegassem ao atacante Frank McGarvey. E quando a brecha apareceu, aos 27 minutos, a Real não desperdiçou a chance de aumentar sua vantagem. A defesa escocesa afastou um escanteio cobrado por López Ufarte, mas Zamora pegou a sobra e cruzou na cabeça de Uralde, totalmente livre no meio da área. Um a zero.

O gol arrefeceu por completo a torcida local. Porém, quando parecia que a Real levaria o placar favorável para o intervalo, Kortabarría deu um rapa no driblador ponta-direita Provan perto do bico da área. Na cobrança, o mesmo jogador apenas rolou para o lado, e o meia Murdo McLeod, livre, disparou um petardo que fez uma curva ascendente, fugindo do alcance de Arconada. Era o empate do Celtic na última volta do ponteiro. No retorno do intervalo, com o meia Tommy Burns no lugar do lateral Mark Reid, os escoceses partiriam para o tudo ou nada.

A etapa final foi uma sucessão de ataques do Celtic, pelo chão e pelo alto. Mas a Real Sociedad seguia impecável em sua organização tática e ainda contava com um Arconada sempre seguro nos tiros de média e curta distância – como ao segurar em dois tempos um chutaço de Paul McStay de fora da área – e, sobretudo, com um Górriz soberbo nas bolas aéreas. Vez por outra, ainda conseguia esfriar o jogo e até contra-atacar com perigo, como aos 12 minutos, quando Zamora quase colocou novamente os donostiarras na frente no marcador.

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No apagar das luzes, aos 43 minutos, quando parte da torcida escocesa já havia deixado o estádio, o Celtic chegou à virada em outro chute de McLeod, desta vez desviando em um defensor da Real Sociedad e entrando no canto de Arconada. Com o relógio jogando a seu favor, os tranquilos donostiarras se limitaram a tocar a bola no que restava de jogo, carimbando a classificação inédita a uma quarta de final europeia, sob aplausos do público local. O compromisso seguinte pela Copa dos Campeões, no entanto, só aconteceria após a virada do ano, em março de 1983.

Na liga, baixas e perdas de rumo

As duas primeiras etapas do torneio continental haviam sido disputadas em paralelo ao início da campanha na liga. E embora os donostiarras seguissem invictos até a 11ª rodada, o desempenho até ali era oscilante, com quatro vitórias e sete empates. No último destes – um 0 a 0 em Atotxa contra o Zaragoza pela 11ª rodada, uma semana após a classificação europeia diante do Celtic – veio o primeiro grande abalo da temporada: uma entrada do paraguaio Victor Hugo Zayas causou uma gravíssima lesão de menisco e ligamentos cruzados no joelho direito de Satrústegui.

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Em princípio, os prognósticos indicavam um retorno em 15 dias. Depois, em três semanas. Mas quando se percebeu a real gravidade de seu quadro, ele era bem mais preocupante: o atacante perderia o resto da temporada. Com efeito, nunca mais voltaria a ter o mesmo dinamismo. E as más notícias não parariam por aí. Primeiro, a invencibilidade seria perdida no jogo seguinte com um amargo 4 a 0 para o Real Madrid no Santiago Bernabéu. Depois seria a vez de perder também Zamora, que precisaria novamente parar para se recuperar melhor de sua cirurgia.

Mesmo sem os dois, o time ainda conseguiria arrancar uma vitória em casa sobre o Atlético de Madrid, mas logo a campanha afundaria de vez: derrotas para Barcelona, Espanyol, Málaga e Las Palmas, além de empates em Atotxa diante de Athletic Bilbao e Sporting Gijón fizeram os txuri-urdin despencarem para a nona posição, dez pontos atrás do líder Real Madrid. Ainda que, em meio a esta sequência, o clube derrotasse exatamente os merengues na Supercopa Espanhola, disputa criada naquela temporada entre os vencedores da liga e da Copa do Rei.

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Na primeira partida, em outubro no Bernabéu, o Real Madrid vencera por 1 a 0. Na volta, em 28 de dezembro, os donostiarras deram o troco no tempo normal e, com os merengues já com dois jogadores a menos (o lateral Juan José e o meia Ángel foram expulsos), dispararam uma goleada na prorrogação, chegando aos 4 a 0 após 120 minutos. A taça amenizou o momento ruim na liga, mas o elenco tinha muitas baixas (chegou a estar reduzido a 12 atletas). Felizmente Zamora já se recuperara quando a disputa europeia foi retomada, em março de 1983.

A batalha ibérica

O camisa 10 estaria em campo nos jogos contra o Sporting, de Portugal. Os Leões, que haviam feito a dobradinha lusa em 1982, já não tinham, porém, seu vitorioso treinador: o folclórico inglês Malcolm Allison brigou com os dirigentes e foi substituído pelo meio-campista António Oliveira, que passou a acumular as funções de jogador e técnico (experiência pela qual já passara pouco antes no pequeno Penafiel). No entanto, os resultados não vinham sendo tão bons no âmbito doméstico, apesar da campanha até ali consistente no torneio europeu.

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Nas fases anteriores, o clube alviverde havia eliminado dois adversários sempre difíceis: o Dínamo de Zagreb e o CSKA Sofia, semifinalista da edição anterior. E entre os destaques leoninos estavam o goleiro húngaro Ferenc Mészáros, titular da seleção magiar na Copa de 1982; o meia-atacante Manuel Fernandes, ídolo histórico do clube; e o experiente goleador Rui Jordão, revelado pelo rival Benfica, mas que se transferira para Alvalade após uma temporada na Espanha com o Zaragoza; além do próprio António Oliveira, um meia ofensivo muito criativo.

Com o desfalque de Kortabarría, suspenso por acúmulo de cartões amarelos, a Real Sociedad foi a Lisboa para a partida disputada na noite de 2 de março de 1983 com o objetivo claro de se defender e tentar um empate. Quase conseguiu. Apesar de empurrado por sua torcida e de ter dominado territorialmente as ações, o Sporting não chegou a criar muitas ocasiões claras de gol. Os donostiarras também tiveram poucas oportunidades, como numa falta cobrada por Larrañaga e num lance com Bakero, que acabou se chocando com Mészáros.

Porém, quando os txuri-urdin já acreditavam que levariam um ótimo empate para a partida de volta em San Sebastián, aconteceu o gol sportinguista aos 44 minutos do segundo tempo. Numa bola alçada da direita para a área, Jordão ganhou a disputa pelo alto e raspou de cabeça, deixando Manuel Fernandes em excelente situação para bater cruzado e superar Arconada, para o delírio da torcida local que lotou Alvalade. A Real Sociedad agora teria que partir para o tudo ou nada em Atotxa para tentar uma vitória por pelo menos dois gols de diferença.

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Em 16 de março, as duas equipes se reencontrariam no caldeirão donostiarra sob a arbitragem do romeno Nicolae Rainea, que desagradaria a ambos os lados. Os bascos reclamaram de um pênalti não apitado sobre Uralde ao entrar na área logo aos seis minutos e também de um gol anulado aos 16 minutos do segundo tempo em jogada confusa na área portuguesa, o qual o juiz invalidou marcando falta em Mészáros. Já os lisboetas ficaram na bronca com a marcação de um sobrepasso do goleiro pelo árbitro e que resultaria no primeiro gol do jogo.

Na cobrança do tiro livre indireto, Bakero tocou curto para Larrañaga, que mandou uma bomba rasteira passando pelo mar de adversários e foi parar no fundo das redes, a cinco minutos do fim do primeiro tempo. O gol que definiu a classificação dos txuri-urdin veio aos 22 minutos da etapa final, quando Zamora recebeu um lateral batido do lado esquerdo do ataque e, mesmo observado por quatro sportinguistas, armou um verdadeiro salseiro na defesa lusa, até entregar para Bakero, que enganou outro marcador e bateu rasteiro, no canto de Mészáros.

No início de abril, quando chegaram as semifinais europeias, a Real Sociedad ocupava a sétima posição na liga espanhola a três rodadas do fim da competição. Já não tinha, portanto, nenhuma chance matemática de levantar o tricampeonato, uma vez que a desvantagem para o líder Real Madrid era de 11 pontos. E mesmo uma vaga na Copa da Uefa demandaria uma combinação de resultados, já que o clube estava a seis pontos e a três posições do último classificado naquele momento (que era o Atlético de Madrid), antes das definições das copas.

Choque de realidade

O time, porém, vinha de um bom resultado ao derrotar o Barcelona de Maradona por 1 a 0 em Atotxa. Mas além de ter pela frente um adversário forte e experiente na semifinal europeia, o Hamburgo, também continuava a enfrentar uma crise de lesões, somada a baixas também por suspensão. Desta vez, além de Kortabarría (com a clavícula fraturada) e Satrústegui (fora do resto da temporada), a equipe também não teria Olaizola, sem condições físicas, e precisaria improvisar o meio-campista Larrañaga como uma espécie de falso lateral-esquerdo.

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O Hamburgo, por outro lado, vinha completo. Dirigido desde 1981 pelo experiente austríaco Ernst Happel, jogava um futebol de força física, mas dinâmico, organizado e objetivo, com uma dose de talento providenciada pelo meia-armador Felix Magath. Além dele, brilhavam outros nomes de seleção alemã, como o goleiro Uli Stein, o lateral-direito Manfred Kaltz, o zagueiro Ditmar Jakobs, o volante Wolfgang Rolff e o atacante grandalhão Horst Hrubesch, capitão da equipe e que formava uma perigosa dupla de frente com o dinamarquês Lars Bastrup.

O clube hanseático era, naquele momento, a maior potência do futebol alemão-ocidental. Entre 1979 e 1984, terminara sempre como campeão (em 1979, 1982 e 1983) ou vice (1980, 1981 e 1984) da Bundesliga. Entre janeiro de 1982 e janeiro de 1983, estabelecera a marca de 36 partidas sem derrota pela liga – recorde só superado pelo Bayern em 2013. E naquela ocasião, buscava sua quinta final europeia, após ter vencido a Recopa em 1977 e perdido as decisões do mesmo torneio em 1968, da Copa dos Campeões em 1980 e da Copa da Uefa em 1982.

Estas duas últimas derrotas em especial haviam redobrado o apetite do clube por levantar um novo troféu continental o mais rápido possível. Em 1980, a equipe ainda dirigida por Branko Zebec havia sido superior ao Nottingham Forest de Brian Clough durante toda a final disputada no Santiago Bernabéu, em Madri, mas não conseguiu furar o sólido sistema defensivo do adversário. Já dois anos depois, foi surpreendida pelos contra-ataques bem tramados do IFK Gotemburgo dirigido por um novato chamado Sven-Göran Eriksson.

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E com essa vontade de se impor, o Hamburgo teve atuação muito segura no jogo de ida, mesmo atuando no caldeirão de Atotxa. Controlou – sobretudo fisicamente – um tímido setor ofensivo donostiarra (no qual Zamora não esteve bem), assenhorou-se do meio-campo e exigiu muito mais de Arconada – autor de algumas defesas cruciais – do que os txuri-urdin de Uli Stein. Assim, aos poucos foi baixando a temperatura da torcida local, até silenciar de vez o estádio ao abrir o placar aos 13 minutos da etapa final, com um gol de cabeça do volante Rolff.

A jogada começou num rápido contra-ataque em que Jimmy Hartwig desceu pela direita e cruzou na primeira trave. Rolff se livrou da marcação de Celayeta e cabeceou alto, no canto oposto, sem chances para Arconada. Porém, aos 29 minutos, a Real Sociedad ganharia uma sobrevida no jogo e no torneio. Em um escanteio conquistado por Bakero (o primeiro a favor dos bascos em todo o jogo), López Ufarte cobrou à meia altura, Uralde desviou no primeiro poste e o zagueiro Gajate veio na corrida para empurrar às redes dentro da pequena área.

No quarto de hora restante da partida houve ainda uma cabeçada de Hrubesch na trave, mas no fim das contas não havia muito do que a Real Sociedad pudesse reclamar do resultado de 1 a 1, empate o qual os donostiarras conquistaram mais na marra do que com uma atuação destacada. O diário catalão Mundo Deportivo, impressionado com “a força, a velocidade e a concentração” da equipe do Hamburgo, resumiu a sensação dos bascos ao fim daqueles primeiros 90 minutos da semifinal no título de sua crônica da partida: “Poderia ter sido pior”.

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Com as dificuldades naturais impostas pelo adversário, mais o fato de atuar fora de casa e ainda a cada vez maior lista de desfalques por lesão, até o mais fanático torcedor donostiarra duvidava da classificação em pleno Volksparkstadion na noite de quarta-feira, 20 de abril de 1983. Havia até quem, com tudo isso posto, temesse uma goleada ao estilo da sofrida pelo Real Madrid três anos antes na mesma etapa da mesma competição – vencedores por 2 a 0 no Santiago Bernabéu, os merengues foram arrasados por 5 a 1 na visita aos hanseáticos.

Eram muitas as baixas. Além de Kortabarría ainda em recuperação da fratura na clavícula, a defesa perdeu Gajate – autor do gol do alívio no jogo de ida e reserva imediato do setor – a três dias do confronto em Hamburgo, após o zagueiro sair lesionado ainda no início do dérbi basco diante do Athletic Bilbao no San Mamés. Já na frente, além do desfalque prolongado de Satrústegui (que naquele momento iniciava nova etapa de sua recuperação em Saint Étienne, na França), era a vez de Zamora também se ausentar, às voltas com problemas no joelho.

Com as últimas forças

Menos mal que Celayeta respondeu bem a um teste físico realizado na véspera da partida e foi confirmado no centro da defesa, improvisado ao lado de Górriz, com Murillo entrando na lateral direita e Olaizola retornando na esquerda após cumprir suspensão. Larrañaga e Zubillaga seriam os homens de contenção no meio, com Diego e Orbegozo (que entrava no lugar de Bakero) abertos pelos lados para deter o avanço dos laterais. Lutando contra uma má fase, López Ufarte teria a missão de recuar ao meio-campo para municiar Uralde, o solitário atacante.

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O Hamburgo, com o atacante Thomas Von Heesen no lugar do líbero Holger Hieronymus, partiu para tentar definir a classificação desde o primeiro minuto. E logo de saída, houve uma cabeçada de Hrubesch que fez Arconada se esticar para intervir brilhantemente. Depois foi a vez de Magath acertar o pé da trave com um chute cruzado – numa jogada em que chegou a comemorar antes mesmo de seu desfecho. Pelo lado da Real Sociedad, a melhor chance veio num contra-ataque aos 44, com Larrañaga limpando o lance, mas chutando por cima.

No intervalo, uma troca inesperada marcaria a história da partida: um dos árbitros assistentes do trio suíço liderado por Bruno Galler sofreu uma lesão no tornozelo e precisou deixar o jogo, tendo de ser substituído pelo alemão Udo Horeis, nome conhecido da Bundesliga. A ele caberia a tarefa de bandeirar o lado para o qual o Hamburgo atacaria naquela segunda etapa. Após o reinício, a Real Sociedad parecia ter encaixado melhor a marcação, cedendo menos espaços ao Hamburgo, e com o descansado Bakero no lugar do sacrificado Uralde no ataque.

Na primeira metade da etapa final, os donos da casa seguiam pressionando, mas agora sem criar tantas chances, talvez até para não forçarem o ritmo em excesso, já que o placar de 0 a 0 bastava para levar a equipe à final. E mais perto ainda da decisão o Hamburgo ficou aos 31 minutos: num escanteio pela ponta direita cobrado por Kaltz, o zagueiro Jakobs subiu e emendou uma cabeçada com a potência de um chute, sem chances para Arconada (até ali, fazendo partida impecável), no que levava a prever o desmoronamento da resistência da equipe donostiarra.

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Só que ele não veio. Quatro minutos depois, uma reposição longa de Arconada encontrou Bakero aberto pela ponta direita. Ele dominou e percebeu a passagem de Diego pelo meio, fazendo o passe na frente, por elevação. Mal entrou na área, o camisa 8 mandou um balaço inapelável, no canto de Uli Stein, para colocar a Real Sociedad novamente na briga. E agora a dez minutos de levar, de maneira até então tida como improvável, a decisão da vaga para a prorrogação. O sonho da final parecia perto como nunca havia estado em todo aquele confronto.

E ele durou precisamente quatro minutos. Num novo escanteio para o Hamburgo pela direita de seu ataque, a zaga donostiarra afastou, mas o rebote sobrou para Magath. O camisa 10 alemão chutou para o gol, a bola desviou em Jakobs no meio do caminho e sobrou para Von Heesen, em posição duvidosa. E o atacante tocou para as redes, recolocando os hanseáticos na decisão, em meio aos protestos dos jogadores da Real Sociedad. Eram 41 minutos do segundo tempo. Mesmo já sem pernas, os txuri-urdin tentariam buscar uma nova reação, sem sucesso.

As imagens da época – sem a câmera lateral de impedimento que existe hoje – não permitem chegar a uma conclusão totalmente segura, mas Von Heesen parece estar pelo menos na mesma linha (o que então configurava posição irregular) quando a bola resvala em Jakobs após o chute de Magath. De qualquer modo, por mais amarga que se mostrasse a eliminação, a campanha repleta de momentos de superação só poderia encher os donostiarras de orgulho – “Caiu com honra”, mancheteou o Mundo Deportivo em sua crônica.

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Não haveria, porém, futebol europeu na temporada seguinte para a Real Sociedad, eliminada na Copa dos Campeões e na Copa do Rei também nas semifinais, além de apenas sétima colocada na liga espanhola. Na verdade, apenas a conquista da copa nacional em 1987 traria o clube de volta às competições continentais, disputando a Recopa de 1987/88 e caindo nas oitavas de final. Mas no ano seguinte, os donostiarras alcançariam as quartas na Copa da Uefa, superando Dukla Praga, Sporting e Colônia, antes de cair para outro alemã-ocidental, o Stuttgart.

Na ocasião, eram cinco os remanescentes da empreitada de 1982/83 – Arconada, Gajate, Górriz (que disputaria a Copa de 1990 pela Espanha), Larrañaga e Zamora – somados a novos talentos como Jon Andoni Goikoetxea (futuro Barcelona e seleção espanhola). Já na rebatizada Liga dos Campeões, a Real voltaria a participar em duas ocasiões: em 2003/04 – quando avançou numa chave com Juventus, Galatasaray e Olympiacos antes de cair nas oitavas diante do Lyon – e em 2013/14, quando parou ainda na fase de grupos, somando apenas um ponto.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

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