A punição que resolve pouco e a prevenção que se recusam a pensar

Enquanto focarem no punir, ao invés do prevenir, é difícil imaginar que muitos dos entraves envolvendo violência nos estádios brasileiros se resolverão

Por favor, se for comentar, peço encarecidamente duas coisas: leia o texto e seja respeitoso. Discordar é totalmente do jogo, desde que de uma maneira cordial. Um abraço.

Eu estava no Maracanã durante o Flamengo x Corinthians do último Brasileirão. Aconteceu em 9 de julho, feriado em São Paulo, e aproveitei para viajar ao Rio com uns amigos. Como flamenguista (sim, estou dizendo para que time torço), obviamente, assisti ao jogo no meio da torcida do Flamengo. Outros dois amigos estiveram no setor destinado à torcida corintiana. E, ao apito final, parti para dar a volta no Maraca. Como a saída dos torcedores visitantes seria retardada, ficaria mais fácil encontrá-los por lá.

Não foi o retraso que evitou a confusão. Alguns uniformizados rubro-negros tentaram se aproximar do portão por onde saíam os visitantes. A polícia, que fazia a escolta das organizadas do Corinthians, evitou que o embate acontecesse ali. Houve muita correria, ainda assim. Um flamenguista foi detido por um policial a poucos metros de mim. Ninguém me falou, eu vi. Eu vi o pânico que se alastrou. Eu vi os meus amigos corintianos com medo só por causa da camisa que vestiam. Eu vi o que costuma ser corriqueiro, infelizmente, e não noticiado pela imprensa.

(E, por favor, não pense que este trecho tem a intenção de colocar uniformizados do Flamengo e do Corinthians no mesmo “patamar de violência”, em relação ao episódio deste domingo. Siga o raciocínio que você vai entender)

O fato é: havia um precedente recente. E nem precisava disso para saber que o policiamento no jogo deste domingo deveria ser reforçado. Não necessariamente só com mais homens, e sim com mais inteligência. O Flamengo voltava ao Maracanã. O Corinthians costuma comparecer em bom número aos jogos no Rio. Mesmo assim, tudo pareceu relegado a um segundo plano. Insuficiente para evitar as atrocidades que você provavelmente viu na TV, como eu desta vez.

VEJA TAMBÉM: No Maracanã e na Turiassu, ações da polícia foram exemplos deprimentes de tratamento ao torcedor

Aqui, eu não quero pintar só um lado como santo. E nem só um como demônio. Há várias vítimas, assim como mais de um culpado. Não vamos cair no dualismo besta que toma conta das discussões da internet, em geral, sem levar em conta a complexidade inerente ao ser humano. O policial exposto a tamanha falta de tato no planejamento da segurança do jogo também é vítima. Não só vítima pela cena óbvia de covardia, ao ser linchado por vários delinquentes – e, neste caso, não há termo melhor para definir os agressores. Assim como também é vítima pela falta de condições em seu trabalho. No despreparo comum à polícia (a corporação, ressalte-se) nestes grandes eventos.

Mas também há vítimas dos outros lados, que não são só dois. É vítima o torcedor do Flamengo que se sente acuado por toda a situação. É vítima o torcedor do Flamengo que vê sua integridade física ameaçada. Assim como é vítima o torcedor do Corinthians que se sente acuado por toda a situação. É vítima o torcedor do Corinthians que vê sua integridade física ameaçada.

E o torcedor do Corinthians não é necessariamente da organizada. São vários alvinegros que resolveram passar um final de semana no Rio e assistiram ao jogo no setor visitante. São vários alvinegros que têm o costume de acompanhar o time na estrada. São alvinegros que moram no Rio. São homens, mas também mulheres, idosos, crianças. Poderia ser o meu amigo Lucas, que passou aperto da outra vez. Um cara de caráter imenso, que conheço desde os quatro anos de idade e trabalha na bolsa de valores. Dessa vez, quem sofreu as consequências foi um amigo dele, outro corintiano “comum” que estava por lá.

Mas o torcedor do Corinthians, vítima, também pode ser da organizada. Nem todos, óbvio. Porque, desculpe se você não sabe, mas a organizada não é feita apenas de bandidos – embora estes também existam. Tem gente que entende o movimento mesmo como uma parte fundamental no ato de torcer, como deveria ser. Grande parte, aliás. Os uniformizados, mesmo os inocentes, também passaram aperto neste domingo. Poderia ser o Ronaldo, outro parceiro de infância, que já fez parte de uma divisão da organizada no interior. Sujeito honestíssimo, operário em uma fábrica. Sorte que não precisou passar por isso, justo ele, que vai ser pai em alguns meses.

Ele já encarou vários perrengues, mesmo não concordando com a violência dentro da organizada. Mesmo, quando conversávamos sobre o assunto, chamando de “vagabundos” os delinquentes. “Tem que prender com certeza”. Mas sem relativizar, por isso, os abusos que também existem entre os policiais. E temer os policiais em estádios de futebol (não só lá), infelizmente, não é exclusividade dos organizados. Eu nunca fui um e, na torcida mandante, mas principalmente na visitante, já quase levei borrachada. Como muitos, por culpa de poucos. Sejam eles os delinquentes no meio da torcida, sejam eles os policiais despreparados.

VEJA TAMBÉM: Enquanto CBF lava as mãos, arbitragem do Brasileirão segue uma tragédia

Apesar disso, aqui, cabe lembrar novamente que o policial também tem sua parcela de vítima. Mas isso não pode servir de desculpa quando recorre à violência desnecessariamente. Porque o policial pode ser vítima do bandido. Mas também é vítima do sistema que o sufoca. E que também o leva a posturas recrimináveis. O policial é humano. Humano sente raiva. Principalmente quando, depois de ameaçado, tem a chance de impor seu poder. Mesmo contra gente que não tem nada a ver com a história. Policial é mal pago, mal equipado, mal apoiado. Quase sempre, também mal preparado. E o despreparo é o que permite o mau, com u mesmo, se alastrar de maneira mais fácil, de qualquer lado. Seja pela inação que abre caminho ao delinquente ou pelo excesso de ação do policial abusivo. E da cultura de violência, desta, todos somos vítimas sempre. Na maioria absoluta das vezes, bem longe do estádio.

Má preparação. Que não deve ser atribuída, entretanto, ao policial como indivíduo – exceto aos que usam o uniforme como permissão ao ódio e assim se tornem tão bandidos quanto os bandidos que deveriam enfrentar. Todos eles fazem parte de uma engrenagem que não funciona da melhor maneira, por inúmeros motivos. Inclusive, por não ter o melhor investimento do Estado. Por não planejar melhor suas ações. Por não pensar mais na prevenção. Por não deter quem deveria ser detido, no ato em que o faria ser detido. Por se omitir quando deveria agir e, só então, agir para tomar o controle de algo que já deveria estar controlado. A exemplo do que aconteceu neste domingo, no Maracanã, quando o policiamento foi parco, e depois precisou impor sua autoridade sobre milhares para encontrar as poucas dezenas de detidos. Ao todo, 42 em cerca de três mil. A discutível solução encontrada, quando tudo já havia implodido. O que é indiscutível, vale salientar a quem preferir ver o contrário, é que os agressores deveriam mesmo ser todos presos e que devem responder na justiça pelo ato covarde.

Porém, seria simplista descarregar a culpa apenas sobre a postura da polícia. Há culpa no Corinthians, assim como na maioria dos clubes brasileiros (inclusive o Flamengo, que agiu como se fosse imune a episódios do tipo), permissivos demais com suas torcidas organizadas por servirem a interesses políticos de seus dirigentes. E também há culpa nas torcidas organizadas, mas não só porque são organizadas – já dissemos, não custa lembrar, elas não são feitas só de bandidos. Mas porque as organizadas também são permissivas com seus membros “vagabundos”, para entrar nos termos usados por meu amigo. Nisso, perde-se o intuito fundamental delas, que deveria ser torcer. E não dá para negar a diferença que elas costumam fazer nas arquibancadas, no barulho, no espetáculo. Só que estes pontos positivos se perdem quando não se coíbe os delinquentes que se travestem de membros.

Tudo isso para dizer que, sim, Corinthians e torcidas organizadas merecem ser punidos pelos incidentes no Maracanã. Mas não necessariamente da forma como o STJD anunciou nesta segunda. Porque a punição se merece, embora não deva ser paga por todos, como será. Ok, o Corinthians perderá parte de sua renda. Ok, as organizadas estão vetadas dos jogos. E será que isso evitará a permissividade de ambos? E será que o corintiano “comum” também precisa pagar ao ser proibido nas partidas como visitante? E será que o organizado que não é bandido precisa perder seus instrumentos? E será que torcida única é solução para alguma coisa? E será que só por isso os delinquentes não vão do mesmo jeito na torcida “comum”?

Eu espero que todas essas questões te façam pensar. E nem precisa ter uma resposta. Porque o maior problema do futebol brasileiro, na verdade, é não pensar. E ter a resposta imediata para tudo. Num momento em que todos pedem punição, lá vem STJD, CBF, Paulo Castilho ou quem quer que seja. Descarregam a mão pesada. Mas param nisso. Não pensam que só essas medidas desportivas não valem muita coisa. E, represália de um lado, represália de outro, a odiosa relação entre torcidas organizadas e polícia só se torna mais insustentável. A faísca precisa ser cada vez menor para fazer explodir o barril de pólvora.

Falta uma ação criminal mais forte contra incidentes do tipo. Os indivíduos responsáveis precisam ser, de fato, responsabilizados. Entretanto, falta muito mais. Falta, principalmente, prevenção. Quando não se vê uma discussão minimamente decente para tentar evitar tanta permissividade. Será que o controle sobre as organizadas não poderia ser maior? Será que a rigidez não poderia ser muito maior aos reincidentes? Será que a contratação de empresas de segurança específicas para eventos de grande porte não lidaria melhor? Será que vários precisam sofrer com uma boçalidade restrita a poucos? Será que não percebem a complexidade de uma questão que precisa ser prevista, ao invés de só revista?

Eu não terei todas as respostas, nem você. Não seremos pretensiosos a pensar desta maneira. Juntos, podemos formular mais perguntas. Porque as indagações são o princípio em qualquer sistema. Mas, no futebol brasileiro, parece que só existem respostas. Omitem-se algumas chaves mais do que óbvias. É um problema do combate à violência no futebol, não só no Brasil. É um problema do combate à violência no Brasil, não só no futebol. Síndromes de uma cultura onde prevalece o medo, infelizmente. Síndromes de uma cultura que prefere o impulso de apontar o culpado, mesmo que muitas vezes ele nem seja mesmo culpado. Síndromes de uma cultura que, ao invés disso, se recusa a perceber as vítimas fora do próprio umbigo, a ouvi-las, a buscar as raízes da questão.

A hipocrisia impera quando se veste a carapuça de vítima e se assume o tom acusatório, mas ignorando os próprios pecados. Neste episódio, vai sendo assim com o STJD, a CBF, o Corinthians, o Flamengo, a polícia, as organizadas. O próprio Estado, claro. E também da mídia, que adora um sensacionalismo, mas prefere a piada na hora de propor o debate sério.

Errados estamos todos quando pensamos que uma questão tão arraigada na sociedade se repele apenas pelo setor visitante de um estádio de futebol. Quando o bandido impune e o policial abusivo não são personagens só da arquibancada, mas também da favela e do palácio. Quando se trata de maneira tão localizada um entrave global. De uma cultura de violência que sobra, ignorando-se outras culturas verdadeiramente essenciais. Sobretudo, a cultura de pôr em xeque tudo aquilo que é passado a você como se fosse tão simples.