Como executivo de futebol, Simon Jordan não construiu grande sucesso à frente do Crystal Palace. O empresário passou dez anos no comando do clube, de 2000 a 2010, com direito a apenas uma temporada na primeira divisão. O magnata, contudo, possui sua carreira estabelecida além do esporte e construiu sua fortuna através da indústria de telefonia celular. E mesmo que não seja exatamente um exemplo de gestão no futebol, possui algumas ideias contundentes sobre a maneira como a Premier League deve ser conduzida. Em entrevista ao Talksport, o magnata indicou que a próxima fronteira ao campeonato é criar sua própria plataforma para transmitir os jogos.

“Falei sobre a Premier League se tornar a ‘Netflix do futebol’, uma plataforma de vídeo sob demanda que controla seu próprio produto. Se você tiver 100 milhões de assinantes na ‘Premier League TV’ e se cobrar £8 por mês como a Netflix, terá um lucro de quase £10 bilhões em um ano. Não são os £8,7 bilhões a cada três anos, como acontece atualmente. A liga precisa construir sua própria plataforma e se tornar a Netflix do futebol, na qual você controla seu próprio destino”, afirmou.

 

Criar uma ‘Netflix do futebol’, obviamente, possui os seus custos de produção e de tecnologia. Haveria também um investimento razoável da Premier League para entrar nesta área. De qualquer maneira, a liga poderia cogitar ao menos um modelo misto de negócio. Os esportes americanos, como a NFL e a NBA, possuem o seu ‘League Pass’ – em que disponibilizam a totalidade ou parte dos jogos através de um serviço sob demanda. Se os lucros não atingiriam patamares tão altos, ainda é um caminho possível.

Um desafio à Premier League, de qualquer maneira, seria encarar as zonas de conforto já estabelecidas. Tirar o poder da Sky Sports ou de outras emissoras certamente criaria atritos. Da mesma maneira, há uma conveniência no atual modelo de negócio que assegura o status dos grandes clubes – o chamado ‘Big Six’. E segundo Jordan, não há muito interesse para que se quebre este cenário. Ele cita nominalmente Bruce Buck, dirigente do Chelsea que também é o responsável pelo comitê de nomeações da Premier League. Conforme o antigo presidente do Crystal Palace, é essa pressão ao redor que levou a Premier League a ficar sem presidente executivo nas últimas semanas. Richard Scudamore deixou o posto após quase duas décadas e Susanna Dinnage tinha sido anunciada para substituí-lo, referendada por Buck. A executiva com experiência na TV britânica, entretanto, desistiu do cargo às vésperas de assumir.

“Permita-me que eu seja claro: o cargo como presidente executivo da Premier League é o melhor trabalho que existe no futebol. Qualquer um que não tenha o bom senso para fazer este serviço é um tolo, na minha visão”, analisou o empresário. “A oportunidade na Premier League é empolgante para quem quiser vir e fazer esse trabalho. Mas existem pessoas como Bruce Buck liderando a liga, atendendo o chamado ‘Big Six’, com sua própria agenda. Os candidatos que recusam o o trabalho seriam pressionados pelo ‘Big Six’. Eu dei uma palestra recentemente sobre o negócio do futebol e fiquei impressionado quando, ao perguntar para o Liverpool’s e Tottenham’s da vida qual a próxima fronteira para a evolução financeira do futebol, ouvi que ‘se ainda não está quebrado, não conserte'”.

Ainda conforme Jordan, a Premier League já deveria estudar as suas possibilidades, diante do congelamento dos valores na negociação dos direitos de transmissão com as emissoras de TV. “Você tem uma situação aqui em que o valor dos direitos na Inglaterra está se reduzindo”, afirmou. “Os desafios do futebol são muito envolventes e interessantes. Na minha visão, a Premier League tem a oportunidade de se tornar uma emissora de seu próprio conteúdo e vender as transmissões com sua própria plataforma. Se você olhar para a NFL, que é vista como uma super liga esportiva, um time fatura anualmente US$255 milhões – por volta de £200 milhões. A média dos clubes da Premier League atualmente gira em torno de £120 milhões”. Os números realmente lhe dão razão.

Por enquanto, as palavras de Jordan não passam de sugestões. Mas com a mudança no mercado de consumo de conteúdo, que atinge o futebol de maneira mais vagarosa em relação a outros canais, essa transição ao mundo digital certamente será o principal desafio ao próximo presidente executivo da liga. Por sua experiência, Dinnage parecia realmente apta a encarar estas mudanças. Por algum motivo que não está claro, recusou.


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