Foi anunciada, na última terça-feira, a ideia de organizar uma Copa do Mundo de Lendas, no México, que reuniria craques do passado recente, como Bergkamp, Zidane e Ballack. A competição seria realizada em janeiro de 2017, no México, curiosamente, exatos 30 anos depois da realização da Copa Pelé, um evento muitíssimo parecido organizado por Luciano do Valle em gramados brasileiros e que durou até 1995, com outros nomes. A revista Trivela, na sua edição de fevereiro de 2007, realizou uma reportagem sobre esse Mundial de Másters, assinada por Leonardo Bertozzi, que você pode conferir abaixo.

O dia em que Beckenbauer jogou no Canindé

Idealizada por Luciano do Valle, Copa Pelé trouxe ao Brasil craques como Breitner, Overath e Paolo Rossi, que jogou até no campus da USP

Beckenbauer defende a Alemanha no Canindé (Foto: Mauro Donato)
Beckenbauer defende a Alemanha no Canindé (Foto: Mauro Donato)

Texto: Leonardo Bertozzi
Fotos: Mauro Donato

Imagine estádios como Pacaembu, Vila Belmiro e Canindé recebendo, nos dias de hoje, jogadores como os franceses Zidane e Cantona, o alemão Klinsmann, os italianos Baggio e Baresi e os argentinos Batistuta, Caniggia e Redondo. Não poderia, é claro, faltar o Brasil, também inspirado por figuras de destaque na história recente da Seleção. Tudo isso em um uma competição de duas semanas, com transmissão pela TV aberta.

Um evento do tipo pode não passar de exercício de imaginação nos dias de hoje, mas, há duas décadas, aconteceu de fato. Na Copa Pelé, disputada por atletas veteranos e ex-jogadores, estiveram nos gramados brasileiros nomes do calibre de Franz Beckenbauer, Paolo Rossi e Rivellino.

A criação da copa foi consequência direta do sucesso da Seleção Brasileira de Seniors, idealizada pelo narrador e empresário Luciano do Valle – que também fazia as vezes de técnico da equipe. A presença de jogadores como Jairzinho, Edu e Dario levava público aos estádios, durante as excursões da equipe pelo país, para jogos contra combinados locais, transmitidos pela TV Bandeirantes, aos domingos.

“O futebol, na época, estava muito ruim”, conta Luciano. “A ideia era mostrar que o Brasil ainda tinha jogadores que podiam demonstrar habilidade. As pessoas estavam ávidas por bons jogos. Os estádios eram sempre lotados. Então, começamos a enfrentar países, como Argentina e Uruguai, até que decidimos juntar seleções campeãs do mundo para a Copa Pelé”.

A primeira edição do torneio, em janeiro de 1987, contou com a participação de Brasil, Argentina, Uruguai, Itália e Alemanha Ocidental. Pelé, como convidado, defendeu o Brasil no primeiro jogo: vitória por 3 a 0 sobre a Itália, no Pacaembu. A equipe, porém, acabou derrotada duas vezes pela Argentina – uma delas, na final – e ficou apenas com o vice-campeonato.

“Perdemos de forma absurda. O Djalma Dias foi recuar uma bola e deu no pé do jogador da Argentina. Passamos o jogo inteiro pressionando, e o Buttice pegou tudo”, lembra Luciano, referindo-se ao goleiro da Argentina, que havia atuado pelo Corinthians, nos anos 70. Rivellino, que fora seu companheiro de clube, ironiza o sucesso do argentino no reencontro: “Naquela final contra a Argentina, fizemos uma de nossas melhores partidas, mas o Buttice fechou o gol. Eu disse a ele: ‘Lá no Corinthians, você não pegava nada, entregava meu bicho. Aqui, você pega tudo’”.

Time reforçado
Canindé lotado para a vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Reino Unido (Foto: AP)
Canindé lotado para a vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Reino Unido (Foto: AP)

“A derrota de 1987 serviu de lição. Para 1989, reforçamos o time, nos preparamos mais”, lembra Luciano. Na segunda edição, o Brasil contou até com jogadores então em atividade, como o atacante Cláudio Adão, que jogaria pelo Corinthians no restante do ano.

A II Copa Pelé, que teve como novidade a seleção do Reino Unido, proporcionou algumas cenas curiosas. Paolo Rossi, menos de sete anos após ser carrasco do Brasil durante a caminhada da Itália rumo ao título mundial de 1982, chegou a jogar no Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo (Cepeusp). Beckenbauer, que no ano seguinte venceria a Copa do Mundo como técnico da Alemanha, desfilava sua classe no gramado do Canindé. Não por acaso, os estádios receberam bons públicos na maioria das partidas, e não apenas nas que envolviam o Brasil.

A presença de tais personalidades foi possível, segundo Luciano do Valle, graças à boa repercussão do torneio, a um alto investimento em estrutura – bancado por um grupo forte de patrocinadores – e a importantes intervenções pessoais, como a de Júlio Mazzei, preparador físico da Seleção. Mazzei foi técnico de Beckenbauer, no New York Cosmos, no início dos anos 80

“O professor Mazzei tornou-se amigo do Beckenbauer, que também é amigo do Pelé. Beckenbauer ainda trouxe o Overath, outro campeão em 1974. Espalhou-se a notícia de que os jogadores eram bem tratados, a competição era organizada, eles ficavam em hotel cinco estrelas. O nome do Pelé dava credibilidade ao projeto”, conta o locutor.

Mais forte que dois anos antes, o Brasil chegou sem sustos à decisão. Com exceção de um empate por 1 a 1 com a Itália, na segunda rodada, o caminho foi sossegado: 3 a 0 no Reino Unido, 3 a 0 na Argentina, 2 a 0 na Alemanha e 2 a 0 no Uruguai. O jogo com os uruguaios serviu apenas para cumprir tabela, já que as duas seleções estavam garantidas na final. O time platino também havia batido britânicos, argentinos e alemães e empatado com a Itália – um belo 3 a 3 no Cepeusp.

Na decisão, dia 2 de fevereiro, no Canindé, Cláudio Adão foi o nome do jogo. Marcou duas vezes no primeiro tempo, aos 6 e aos 45 minutos, e ampliou para 3 a 0, aos 4 do segundo. Siviero descontou, aos 25, para o Uruguai, mas a certeza da vitória brasileira veio cinco minutos depois, com Rivellino. Cabrera ainda marcou o segundo gol uruguaio, aos 42, decretando o placar final de 4 a 2. Naquela decisão, o Brasil jogou com: Paulo Vítor (Ado); Eurico, Luís Pereira, Jaime (Amaral) e Vladimir; Rocha, Batista, Zenon (Rivellino) e Mário Sérgio; Cafuringa (Chico Espina) e Cláudio Adão (Nunes).

Edições posteriores
Paolo Rossi no campo da USP (Foto: Mauro Donato)
Paolo Rossi no campo da USP (Foto: Mauro Donato)

Nos anos seguintes, a competição ainda viveu alguns bons momentos. Em 1990, sem paciência para respeitar o “calendário” do torneio, foi criada a Copa Zico. Foi o primeiro campeonato com a nova denominação da categoria – Masters, em vez de Seniors, que, para Luciano, “dava impressão de velhice”.

A história de 1989 repetiu-se, com o Brasil mostrando jogadores mais entrosados – era a única seleção permanente -, em melhores condições e conquistando o título com facilidade: 5 a 0 sobre a Holanda, na final. Em 1991, a Copa Pelé foi disputada pela primeira vez fora do Brasil, no Joe Robbie Stadium, em Miami. Na semana da competição, porém, estourou a Guerra do Golfo, e o torneio acabou sendo um fracasso de público. Novamente, o título ficou com o Brasil, que venceu a Argentina por 2 a 1, na final.

A partir de 1993, a competição passou a ser organizada pela Inter national Federation of Master Football, entidade criada na Europa, devido à repercussão da Copa Pelé. Naquele ano, a disputa aconteceu em Klagenfurt, na Áustria, e em Trieste, na Itália. Ao contrário das edições anteriores, era o Brasil a ter desvantagem pela idade avançada de alguns jogadores. Os dois países-sede fizeram a final em Trieste, com vitória italiana por 2 a 0 sobre os austríacos. O Brasil deveria disputar o terceiro lugar contra a Alemanha, mas recusou-se, alegando não ter recebido os pagamentos devidos

Em 1995, foi disputado o último Mundial de Masters, já sem o nome “Copa Pelé” e sem a mesma repercussão dos anteriores. O Brasil foi campeão nos pênaltis, contra a Argentina.

Desde então, o público tem visto os ídolos do passado apenas em “esportes” como showbol e futevôlei. Não seria possível repetir a experiência da Copa Pelé e trazer as lendas para perto do público brasileiro, em jogos de verdade? Rivellino acredita que sim e até sugere jogadores para um novo time: “Careca, Neto, Marcelinho… são jogadores de nome, que poderiam participar. Também os jogadores da Copa de 1994 que pararam. Daqui a pouco, o Romário, talvez o Edmundo. É um produto maravilhoso. Eu gostaria de assistir. Se pudesse atuar até hoje, estaria jogando”

“Apesar de terem vindo nomes extraordinários, se naquela época foi possível, hoje também seria. Já deveria funcionar há muito tempo”, acrescenta Luciano.

Se assim é, que a competição aconteça rápido. O Canindé espera por Zidane.