Discutir o preço dos ingressos é essencial para pensarmos o futebol. Todos queremos ver os estádios lotados e isso, no Brasil, não é nem sombra do que acontece. Na Inglaterra, porém, os estádios estão lotados. A discussão, então, é se os preços cobrados não tiram o acesso do torcedor comum. E as pressões para a diminuição dos preços cobrados pelos clubes é enorme. O preço dos ingressos para jogos fora de casa, por exemplo, se tornou alvo. Alguns clubes, como o Arsenal, chegavam a cobrar £ 60 por entradas para visitantes. Isso acabou pelas próximas três temporadas, segundo anúncio feito pela Premier League nesta quarta-feira.

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Os clubes eram reticentes a estabelecer um teto para os preços dos ingressos de visitantes. Na reunião do dia 4 de fevereiro, por exemplo, só seis dos 20 clubes apoiaram a iniciativa. O Everton foi um deles. Só que as pressões aumentaram. Especialmente vindo da torcida do Liverpool, que conseguiu reverter a política de ingressos do clube que foi anunciada e motivo de protestos fortes, incluindo torcedores abandonando um jogo antes do seu final, unidos, gritando em protesto.

A mudança de mentalidade levou a uma reunião de emergência. E, neste dia 9 de março, a Premier League anunciou que o teto do preço dos ingressos para visitantes será de £ 30, válido pelas próximas três temporadas. Não faça a conversão para reais e tente comparar com o futebol brasileiro, porque isso não tem sentido algum. Ninguém aqui ganha em libras, ninguém lá ganha em reais. É uma comparação que, ainda mais nesse momento, aproxima de forma grotesca duas realidades muito diferentes. No câmbio de hoje, as £ 30 equivaleriam a R$ 158. Proporcionalmente, porém, os preços daqui continuam muito altos perto da realidade econômica das pessoas, ainda mais em tempos de crise.

Feito o adendo, o importante aqui é ressaltar que as torcidas é que conseguiram essa mudança de pensamento em questão de um mês. As pressões constantes, protestos numerosos nas arquibancadas, movimentos que não foram violentos, mas foram fortes para dar voz a quem acha que já está na hora dos clubes pensarem um pouco dos seus torcedores, antes que os torcedores deixem cada vez mais a paixão de lado para tratarem o clube apenas como um filme no cinema, uma diversão banal com a qual têm muito menos apego emocional. Parece uma bobagem, mas a longo prazo isso pode fazer muita diferença para a perda de poder econômico dos clubes. A não ser que se mude o paradigma do que é o futebol até hoje nesses países.

Se no início de fevereiro só seis clubes apoiavam a criação do teto no preço dos ingressos para visitantes, na reunião de emergência a decisão foi unânime. “Os clubes sabem que os torcedores visitantes têm um status único. Eles são essenciais para a atmosfera do jogo e estimula a resposta dos torcedores da casa que distinguem a Premier League de outras ligas. Este status único foi entendido pelos clubes, que dão os torcedores uma série de medidas designadas para ajudá-los, incluindo a Iniciativa dos Torcedores Visitantes [Away Supporters’ Iniciative, ASI], introduzida em 2013. Os torcedores visitantes criam tensão, paixão e o show”, diz o comunicado divulgado pela Premier League.

“Os torcedores visitantes têm custos adicionais de viagem e pagam o preço individual dos jogos, uma vez que os descontos de ingressos de temporada e outros não estão disponíveis para eles. A responsabilidade por eles é dividida entre os clubes e, por isso, é certo que haja uma iniciativa coletiva para ajudar os torcedores”, diz ainda o comunicado da Premier League.

A medida foi considerada uma vitória por grupos de torcedores, como Jac McKenna, da Spirit of Shankly, do Liverpool. “Este é um passo brilhante na direção certa. Representa uma economia significativa por toda a temporada e é um reconhecimento da Premier League e dos clubes da importância dos torcedores. Nós estamos pedindo ações em torcedores visitantes por três ou quatro anos”, disse.

Uma vitória dos torcedores, que é para quem o futebol é feito, acima de tudo.