A presença na fase de grupos da Champions 2020/21 será um marco ao Rennes, estreante na competição

Mesmo inicialmente classificado às preliminares, a presença na Champions League 2020/21 já representaria um feito histórico ao Rennes. Os rubro-negros haviam participado das copas europeias em oito temporadas, tanto na antiga Recopa quanto na Copa da Uefa / Liga Europa, mas nunca tinham figurado no principal torneio do continente. E a semana passada, no fim das contas, serviu de comemoração aos rubro-negros, mesmo sem entrarem em campo: como todos os semifinalistas da Champions e da Liga Europa estavam previamente garantidos na fase de grupos de 2020/21, o clube francês herda uma vaga direta na etapa principal. Assim, se garante também na fase de grupos e receberá alguns milhões de euros em sua conta por isso.

A última temporada marcou a melhor campanha do Rennes na história da Ligue 1. A equipe dirigida por Julien Stéphan tinha deixado seu potencial bem claro em 2018/19, quando conquistou a Copa da França em cima do Paris Saint-Germain e encerrou um jejum de 48 anos na competição. Mesmo perdendo diversos jogadores importantes após o título, os rubro-negros também se movimentaram no mercado e montaram uma equipe essencialmente jovem. Nomes como M’Baye Niang, Adrien Hunou, Raphinha, Eduardo Camavinga, Faitout Maouassa, Hamari Traoré e Edouard Mendy formaram a espinha dorsal. Mesmo sem competir com o PSG e atrás também do Olympique de Marseille, o Rennes passou 19 das 28 rodadas na zona de classificação à Champions, consumando o feito.

A presença na Champions deve significar novos investimentos e o Rennes começou a se mexer, trazendo o ponta Martin Terrier do Lyon. Será ainda mais importante segurar seus destaques, que podem se valorizar com uma boa participação no torneio continental. Aos 17 anos, Eduardo Camavinga se tornou um dos volantes mais cobiçados do mundo, enquanto Raphinha e Maouassa são outros dois com claro potencial de crescimento, sobretudo pela idade. A Champions é um sonho que se realiza, bem como uma vitrine e um atalho para encurtar as distâncias para a Liga Europa, se necessário.

O Rennes, entretanto, prefere escrever sua história na própria Champions. A campanha excelente de Lyon e Paris Saint-Germain na atual edição é motivo mais do que suficiente para animar os rubro-negros rumo a 2020/21. Não é um clube que deverá cometer loucuras para a estreia no torneio, dada a sua própria política de transferências. Contudo, tende a aproveitar a vitrine para apresentar seus costumeiros talentos.

A história do Rennes nos torneios da Uefa começou em 1965/66. Campeão da Copa da França, o clube ganhou o direito de disputar a Recopa Europeia. Porém, deu azar no sorteio ao cruzar o caminho do poderoso Dukla Praga logo de cara. Com Josef Masopust e Ivo Viktor em campo, a base da seleção tchecoslovaca ganhou a ida por 2 a 0 e segurou o empate por 0 a 0 na França. O técnico dos rubro-negros era Jean Prouff, que passou oito anos à frente da equipe naquele período. Já dentro de campo apareciam algumas figuras bastante importantes. Yves Boutet, René Cédolin e Louis Cardiet estão entre os quatro jogadores que mais vestiram a camisa da agremiação, enquanto Daniel Rodighiero é o segundo maior artilheiro da história.

O Rennes repetiria o título na Copa da França em 1971 e voltaria à Recopa. De novo, para ser eliminado logo de cara diante de um adversário mais poderoso. Os rubro-negros seguraram o empate por 1 a 1 contra o Rangers, mas perderam por 1 a 0 na visita a Ibrox, gol de Alex MacDonald. Os Teddy Bears estavam repletos de jogadores com nível de seleção, com destaque a John Greig e Willie Johnston, terminando aquela Recopa com a taça. Já o Rennes seguia sob as ordens de Jean Prouff, com a defesa liderada por Cédolin e Cardiet. Mesmo com adições de relevo, como o goleiro Marcel Aubour, titular da França na Copa de 1966, a equipe sucumbiu.

Depois disso, o Rennes passou mais de três décadas sem aparecer nas competições continentais. Essa história começou a mudar a partir de 2005/06, após o time encerrar a Ligue 1 na quarta colocação e se garantir na Copa da Uefa. Após eliminarem o Osasuna nas preliminares, os rubro-negros ficaram na lanterna da chave com Rapid Bucareste, Shakhtar Donetsk, Stuttgart e PAOK. Já era uma equipe cheia de figurinhas carimbadas, embora todos ainda jovens, a exemplo de Andreas Isaksson, Kim Källström, Stéphane M’bia, John Utaka, Alexander Frei, Yoann Gourcuff, Moussa Sow e Jimmy Briand. László Bölöni era o treinador.

Duas temporadas depois, o Rennes voltou à Copa da Uefa. De novo chegou à fase de grupos e não passou daí, em chave na qual também apareciam Basel, Brann, Hamburgo e Dinamo Zagreb. Sylvain Wiltord era uma referência naqueles tempos, enquanto Rod Fanni e Bruno Cheyrou se tornavam novidades. Aquele período também marcou uma obscura passagem de Émerson Sheik pela Ligue 1. E, em 2008/09, o Rennes sequer alcançou a fase de grupos. Parou diante de um forte time do Twente nas preliminares. Asamoah Gyan se tornara reforço dos rubro-negros naquele mercado, embora as referências na frente fossem os amadurecidos Sow e Briand.

Com o torneio rebatizado como Liga Europa, o Rennes alcançou a fase de grupos mais uma vez em 2011/12, após despachar o Estrela Vermelha na última etapa preliminar. O problema viria mesmo no sorteio, em grupo cascudo com Celtic, Udinese e o futuro campeão Atlético de Madrid. Os franceses ficaram pelo caminho, sem uma vitória sequer. Benoît Costil, John Boye, Jonathan Pitroipa, Yacine Brahimi, Yann M’Vila, Víctor Montaño e Jirès Kembo Ekoko apareciam no elenco. Por fim, os rubro-negros vinham de duas participações consecutivas na Liga Europa, após bons papéis na Ligue 1 e o supracitado título na Copa da França de 2019.

O melhor desempenho aconteceu em 2018/19. O Rennes se impôs no Grupo K, ao lado de Dynamo Kiev, Astana e Jablonec. Conseguiu eliminar o Betis nos 16-avos de final e deu calor contra o Arsenal nas oitavas. Os franceses ganharam a ida por 3 a 1, mas deixaram a vantagem escapar com a derrota por 3 a 0 em Londres. Hatem Ben Arfa, Ismaïla Sarr, Ramy Bensebaini, Clément Grenier, M’Baye Niang e Tomás Koubek participaram daquela boa campanha, já sob as ordens de Julien Stéphan. Só não deu para repetir a força em 2019/20, com o Rennes superado no grupo em que encarava Celtic, Cluj e Lazio.

Obviamente, a Champions League impõe um desafio maior ao Rennes. O clube sabe que terá um sorteio duro pela frente, confirmado no Pote 4 independentemente das demais equipes que se somarem à competição. Todavia, a mera presença na etapa principal do torneio é bastante representativa. Marca um período bastante relevante dos rubro-negros, que se acostumam ao alto nível e voltam a erguer taças.