Ao longo dos últimos anos, diferentes mulheres ocuparam posições proeminentes na Premier League. O Leicester, por exemplo, deve parte de seu sucesso a Susan Whelan. A irlandesa trabalhava com Vichai Srivaddhanaprabha na King Power quando foi deslocada ao clube, recém-promovido à Championship. Terceira na hierarquia das Raposas, não era exatamente aficionada por futebol, mas possuía vasta experiência em administração. Exatamente onde atuou, não apenas otimizando as finanças e investindo na estrutura, como também se tornando responsável por medidas que aproximaram o clube de sua comunidade. Já o Chelsea confia em Marina Granovskaia. Conselheira de Roman Abramovich, mudou-se a Londres em 2003, assim que o magnata comprou os Blues. Subiu na hierarquia e, como diretora, se tornou uma figura central a partir de 2010. É uma das principais responsáveis pelas transferências, assim como atuou na negociação de patrocínios suntuosos. Dois ótimos exemplos à liga, que passará a ser liderada por Susanna Dinnage. Nesta terça, a britânica foi anunciada como nova chefe-executiva da Premier League.

Dinnage se torna a mulher mais poderosa do futebol mundial, ao lado de Fatma Samoura, secretária-geral da Fifa – mas com uma posição bem mais exigente nos aspectos do negócio, enquanto a senegalesa lida com um cargo de maior incumbência política. A nova dirigente da Premier League substitui Richard Scudamore, que ocupava o posto desde 1999. Sob as ordens de Scudamore, a competição viveu a sua afirmação como a principal ligal nacional do planeta, assim como viu seus rendimentos se multiplicarem graças aos novos contratos de televisão e patrocínio. Será esta máquina de fazer dinheiro que a dirigente assume, tentando manter o ritmo diante dos desafios.

A carreira de Susanna Dinnage está ligada ao setor de comunicação – assim como Scudamore, antigo executivo da Thomson. A britânica de 51 anos atuava na Discovery, mais recentemente como presidente global do canal Animal Planet. Com trabalhos anteriores na MTV e no Channel Five, era funcionária da companhia desde 2009. Entre suas experiências, traçou estratégias ao Eurosport, canal esportivo da Discovery. Já no início de 2018, travou uma queda de braço com a Sky – principal detentora dos direitos da Premier League. Ao lado de outros executivos da Discovery, Dinnage questionou os valores oferecidos pela TV paga para exibir os canais pertencentes à sua empresa. Sob a ameaça de tirar 12 canais do serviço, a Discovery venceu a disputa e melhorou significativamente o acordo. Agora, a gestora da Premier League lidará diretamente com a Sky.

A nova chefe-executiva assume o cargo no início de 2019. Os clubes da Premier League concordaram que suas incumbências serão divididas. Haverá também um diretor independente, a ser nomeado. Entre os cinco indicados, todos com participação no futebol local, aparece justamente Susan Whelan. Já Richard Scudamore receberá um bônus de £5 milhões pelos serviços prestados, sendo £250 mil oferecidos por cada um dos participantes da primeira divisão inglesa nesta temporada.

Responsável pelo comitê de nomeações da Premier League, além de presidente do Chelsea, Bruce Buck explicitou sua empolgação com a chegada de Dinnage: “Estamos muito satisfeitos em escolher uma líder tão capaz a este papel. Susanna foi uma escolha excelente, considerando seu histórico em gerenciar negócios complexos através da transformação do mundo digital. Ela é uma figura de destaque na indústria de comunicação, uma executiva comprovada e uma grande desenvolvedora de recursos humanos. Ela é ideal ao posto e estamos confiantes que será capaz de levar a Premier League a novos patamares. Richard Scudamore, oferecendo um serviço excepcional por 20 anos, nos deixará em ótimas condições. Susanna terá uma excelente equipe para apoiá-la”.

Susanna Dinnage também falou sobre as suas expectativas: “Estou empolgada com a perspectiva de assumir este cargo fantástico. A Premier League significa muito para tantas pessoas. Representa o ápice do esporte profissional. A oportunidade de liderar uma organização dinâmica e inspiradora é um grande privilégio. Com o apoio dos clubes e da minha equipe, estou ansiosa para estender o sucesso da liga por muitos anos”.

Torcedora do Fulham, Dinnage costuma comprar o carnê de temporada do clube, mas não possui experiências profissionais anteriores no futebol. Conforme a análise feita pela BBC, a escolha da Premier League indica o privilégio à televisão e aos seus contratos globais, o que pode gerar a desconfiança aos torcedores que frequentam os estádios. Conciliar as críticas ao modelo de negócio à atmosfera que se sente nas arquibancadas será um de seus maiores desafios. Também precisará lidar com as novidades no mercado de transmissão e com o crescimento de outros serviços digitais, como as plataformas sob demanda. Um dos temores atuais se concentra na mudança de hábitos do público, que pode reduzir a audiência e impactar nos valores dos contratos com as emissoras.

Além disso, discussões como a Superliga Europeia e o Brexit entram na pauta da chefe-executiva logo de cara, bem como os imbróglios envolvendo donos de clubes estrangeiros e a penetração da indústria de apostas no futebol. No mais, terá que trabalhar seu relacionamento interno com a Football Association e o governo, em ligações que nem sempre costumam ser afáveis à Premier League. Afazeres numerosos que recaem sobre Dinnage, uma profissional que chega justamente para renovar as forças diante das transformações. Apesar dos méritos de Scudamore em suas quase duas décadas de atuação, a mudança parece bem recebida.


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