Quando se fala no torneio olímpico de Barcelona, em 1992, o assunto dominante é o time da Espanha, anfitriã dos Jogos, levado à conquista do ouro por uma safra de talentos que marcaria época na seleção principal dentro de pouco tempo, com nomes como Guardiola e Luís Enrique. No entanto, pouco se lembra da Polônia medalhista de prata, que fez ótima campanha e parecia ter valores de qualidade suficiente para seguir o mesmo caminho.

Com vitórias contundentes ao longo do caminho e um título olímpico que esteve bem perto na decisão diante dos donos da casa no Camp Nou lotado, o time polonês quase escreveu uma nova história de sucesso no torneio. Mas embora tenham rodado por diversos clubes do continente, aqueles jogadores se tornaram uma espécie de geração perdida, por não conseguirem se classificar para nenhuma competição de destaque com a equipe nacional principal.

TENTANDO RECUPERAR SUA HISTÓRIA

A Polônia tinha longa tradição no torneio olímpico. No entanto, suas conquistas remetiam ao período em que as seleções dos países socialistas dominavam a competição, já que seus atletas eram considerados amadores, exigência de então. Em seu cartel, constavam como destaques o ouro obtido em Munique 1972 e a prata em Montreal quatro anos depois. Fora isso, havia um quarto lugar em Berlim 1936 e participações discretas nos Jogos de 1924, 1952 e 1960.

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Paralelamente ao fim do regime socialista, a seleção começou a entrar em declínio e viver um ostracismo afastada das fases finais dos grandes torneios. Havia caído nas Eliminatórias para o Mundial da Itália, encerrando uma sequência de quatro participações em Copas. Também seguia sem se classificar para a Eurocopa. E havia ficado de fora das três últimas edições do torneio olímpico. O novo impulso, porém, veio de onde não se imaginava.

Enquanto os clubes do país começavam a ter de procurar outras formas de se sustentar, e os atletas começavam a deixar a Polônia para mercados ocidentais (nem sempre os mais nobres), um milionário norte-americano de origem polonesa se ofereceu para custear a preparação da seleção olímpica que tentaria a vaga nos Jogos de Barcelona. Em contrapartida, exigia que os jogadores não fossem negociados com clubes do exterior.

A TRAJETÓRIA ATÉ OS JOGOS OLÍMPICOS

As informações são um tanto conflitantes sobre a identidade do tal milionário. Na época, chegou-se a publicar na imprensa que seria o empresário Boris Korbel, futuro dono do Slavia Praga. Korbel, no entanto, era de origem tcheca, não polonesa. De todo modo, a proposta foi aceita, e o time começou a ser preparado sob as ordens de Janusz Wójcik, ex-jogador sem muita expressão que fora promovido do comando da seleção sub-18 para a sub-21 em 1989.

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O caminho para a vaga em Barcelona começava pelo Campeonato Europeu Sub-21, em cuja fase classificatória a Polônia cumpriu campanha irretocável, vencendo todas as suas seis partidas do Grupo 7 contra a Inglaterra de Alan Shearer, a Turquia de Hakan Sükür e a Irlanda. Os 100% de aproveitamento levaram os poloneses para as quartas de final da competição, que definiriam as seleções representantes do continente nos Jogos Olímpicos.

Tendo de escalar uma equipe bastante enfraquecida, a Polônia foi eliminada no torneio continental ao ser goleada por 5 a 0 pelos dinamarqueses em Aalborg e ficar num empate em 1 a 1 na volta em Zabrze. Porém garantiu a vaga nos Jogos devido à inelegibilidade da Escócia, que avançou na competição de base, mas ficou de fora do torneio olímpico por não integrar o COI como nação à parte da Grã-Bretanha.

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Além da Polônia (e da anfitriã Espanha), Suécia, Dinamarca e Itália seriam as seleções europeias em Barcelona, depois que a Austrália eliminou a Holanda na repescagem pelos gols fora de casa. Na América do Sul, houve surpresa com a queda de Brasil e Argentina (que sequer foram para o quadrangular final do Sul-Americano Sub-20), passando Colômbia e Paraguai aos Jogos. Na Concacaf, ao contrário, México e Estados Unidos se garantiram sem sustos.

Entre os asiáticos, além da Coreia do Sul, classificaram-se duas seleções do Oriente Médio: Kuwait e Catar. Na África, o Marrocos surpreendeu ao eliminar Camarões, garantindo-se nos Jogos junto com a muito jovem seleção de Gana e o Egito. Aquele torneio olímpico seria o primeiro jogado por equipes sub-23 como hoje (a restrição a profissionais já havia caído em Los Angeles 1984), só que ainda sem a permissão à convocação de três “veteranos”.

OS ADVERSÁRIOS

O Grupo A (o da Polônia) tinha a Itália, campeã europeia sub-21, como clara favorita: dirigida por Cesare Maldini, trazia uma base de jovens da galáctica Serie A do país, alguns como titulares em seus clubes. Entre eles, os goleiros Francesco Antonioli (Milan) e Angelo Peruzzi (Juventus), o lateral Giuseppe Favalli (Lazio), os meias Demetrio Albertini (Milan) e Dino Baggio (Inter) e os atacantes Alessandro Melli (Parma) e Roberto Muzzi (Roma).

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Os poloneses, em tese, disputariam a segunda vaga do grupo com uma ascendente seleção dos Estados Unidos, de Brad Friedel, Cobi Jones, Claudio Reyna, Joe-Max Moore e um certo zagueiro reserva chamado Alexi Lalas. A equipe mais fraca da chave era o Kuwait, dirigida pelo brasileiro Valmir Louruz, mas sem maiores pretensões. O time do Golfo Pérsico seria, aliás, o adversário de estreia da equipe de Janusz Wójcik no torneio, no dia 24 de julho.

No estádio de La Romareda, em Zaragoza, o atacante Andrzej Juskowiak pegou o rebote de uma bola salva pela zaga do Kuwait em cima da linha e estufou as redes logo aos sete minutos. E quando faltavam dez para o fim do jogo, o mesmo Juskowiak recebeu cruzamento da esquerda e testou para fechar a contagem. Curiosamente, essa construção do placar com gols nos períodos iniciais e finais de cada tempo seria uma grande marca daquela equipe polonesa.

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Para o jogo seguinte, contra a Itália, Wójcik modificaria o time titular com a entrada do zagueiro Marcin Jalocha no lugar do volante improvisado Dariusz Gesior (alteração já feita no intervalo do jogo com o Kuwait). Já o esquema tático – uma espécie de 1-3-4-2, com um líbero atrás da linha defensiva e outra linha de quatro no meio-campo – e o estilo de jogo fundamentado nos contra-ataques puxados pelos lados do campo seriam mantidos.

A EQUIPE-BASE

O time titular começava pelo goleiro Aleksander Klak, de boa elasticidade e um tanto acrobático. À sua frente, jogava o líbero Tomasz Lapinski, que coordenava a saída de jogo. Titular a partir do segundo jogo, Marcin Jalocha era um zagueiro sério e sóbrio. Já pelas laterais, Tomasz Waldoch era mais eficiente na marcação e apoiava com parcimônia pela direita, enquanto do outro lado, Marek Kozminski também marcava duro, mas funcionava como um ala.

A linha de quatro no meio-campo tinha o apoio forte de Ryszard Staniek pela direita, quase colado à linha lateral, enquanto pela esquerda, Dariusz Adamczuk apoiava na diagonal para dentro, abrindo o corredor para a passagem de Kozminski. Pelo meio, o armador e capitão Jerzy Brzeczek distribuía o jogo, enquanto o dinâmico volante Piotr Swierczewski cobria o setor e apoiava. Além deles, o versátil Dariusz Gesior também era peça importante do elenco.

Na frente, o destaque do time: a letal dupla de artilheiros formada por Wojciech Kowalczyk (que jogava mais pelo lado direito) e Andrej Juskowiak (pela esquerda), responsáveis por 11 dos 17 gols da seleção polonesa nos jogos, e sobre os quais já cresciam os olhos de clubes da Europa Ocidental (Juskowiak acabaria assinando com o Sporting de Lisboa às vésperas do início dos Jogos, o que contrariou a exigência do tal mecenas milionário).

Foi essa a escalação que entrou em campo contra a Itália no estádio Sarriá, em Barcelona – o mesmo palco em que a Azzurra havia deixado Brasil e Argentina pelo caminho na Copa do Mundo de 1982. Só que as boas lembranças para os italianos (que haviam batido os Estados Unidos por 2 a 1 na estreia) ficaram no passado. Firmes na defesa e mortais nos contra-ataques, os poloneses também deram o troco de sua própria eliminação pelos italianos, dez anos antes.

SURPREENDENDO FAVORITOS

Logo aos quatro minutos, Kozminski desceu veloz pela esquerda e cruzou para Juskowiak acertar um chutaço de primeira, sem a menor chance para Antonioli. O segundo gol viria, para variar, logo no início da etapa final: aos três minutos, o passe de Rufo Verga foi interceptado e Staniek foi lançado nas costas da defesa italiana. O esperto camisa 13 correu todo o campo de ataque e tocou na saída de Antonioli, aumentando a vantagem polonesa.

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O golpe de misericórdia chegaria no último minuto, quando a Itália já havia perdido Luca Luzardi e Eugenio Corini expulsos: Kowalczyk foi lançado na ponta esquerda, cortou para dentro, fez fila na defesa e, na entrada da área, rolou para o desmarcado Gregorz Mielcarski, atacante que entrara no lugar de Juskowiak. Mesmo escorregando, ele tocou rasteiro por baixo do goleiro, selando uma vitória categórica que deixava a Polônia em situação privilegiada no grupo.

Na última rodada, só uma combinação bem pouco provável de resultados deixaria os poloneses de fora. Contra os Estados Unidos, novamente em Zaragoza, o time saiu atrás com gol de Erik Imler aos 20 minutos, mas virou ainda antes do intervalo com Kozminski aproveitando um rebote de escanteio e Juskowiak driblando o goleiro e tocando com frieza para as redes. Mas os norte-americanos igualariam na etapa final com Steven Snow.

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O empate foi o suficiente para os poloneses terminarem em primeiro lugar no Grupo A, com a Itália (que derrotou o Kuwait por um magro 1 a 0) passando em segundo. Nas quartas de final, sua chave cruzaria com o Grupo B, no qual a dona da casa Espanha avançou junto com o Catar dirigido pelo brasileiro Evaristo de Macedo, deixando para trás o Egito e a Colômbia de Faryd Mondragón, Faustino Asprilla e Victor Hugo Aristizábal.

No Grupo C, a Suécia de Tomas Brolin, Patrik Andersson e Joachim Björklund e o Paraguai de Francisco Arce, Carlos Gamarra e Gustavo Neffa eliminaram Coreia do Sul e Marrocos. Já no D, Gana e Austrália surpreenderam ao deixarem de fora o México e a bem cotada Dinamarca de Thomas Helveg, Jacob Laursen e do então badalado meia-atacante Ronnie Ekelund, de 19 anos, que havia acabado de ser contratado pelo Barcelona.

O MATA-MATA

Nas quartas de final, a Polônia jogaria no Camp Nou contra o Catar, num reencontro simbólico para o técnico Evaristo de Macedo com o estádio que foi sua casa quando atuava pelo Barcelona. Porém, o time de Janusz Wójcik levaria a melhor, e mais uma vez marcaria no fim do primeiro tempo, quando uma bola longa vinda da lateral esquerda achou Staniek próximo à área. O meia escorou de cabeça para Kowalczyk, que bateu cruzado da entrada da área.

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O segundo gol veio aos 28 da etapa final, quando o zagueiro Jalocha recebeu passe na própria intermediária, arrancou, cruzou o meio-campo, tabelou com Juskowiak e chutou para vencer o goleiro Ahmad Saleh. Nos outros jogos, a anfitriã Espanha despachou a Itália (1 a 0) em Valencia, Gana obteve uma vitória polêmica e dramática sobre o Paraguai (4 a 2) na prorrogação em Zaragoza, e a Austrália surpreendeu a Suécia (2 a 1) no Camp Nou.

Nas semifinais, a Polônia seguiria no estádio azulgrana para enfrentar os australianos, enquanto, ainda em Valencia, a Espanha jogaria contra Gana. Era um quarteto digno de nota: os Olyroos se tornavam a primeira seleção da Oceania a alcançar aquela fase. Os ganeses eram os primeiros africanos desde o Egito em 1964. Os espanhóis não chegavam desde que levaram a prata em 1920. E os poloneses, desde que conquistaram a mesma medalha em 1976.

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A Austrália reunia um punhado de jogadores que teria passagem marcante pela seleção principal ao longo daquela década e o começo da seguinte (e alguns inclusive atuariam em grandes clubes europeus). Era o caso do goleiro Mark Bosnich, do líbero Ned Zelic, do ala Tony Vidmar, do volante Paul Okon e do atacante Damian Mori. E era bom lembrar: havia deixado a Holanda de fora do torneio e despachado Dinamarca e Suécia nos Jogos.

Os Olyroos começaram pressionando a defesa polonesa, mas, aos 28 minutos, errariam na saída de bola: Okon foi desarmado por Kowalczyk, que entrou na área e não teve o trabalho para tirar do alcance de Bosnich. Mas a equipe da Oceania reagiu, voltou a criar e desperdiçar boas chances até conseguir o empate, aos 36 minutos, quando Carl Veart emendou de peixinho um cruzamento da direita de Tony Popovic e reabriu a disputa pela vaga na final.

A igualdade não durou muito, porém. E mais uma vez os poloneses balançaram as redes no fim da etapa: Juskowiak foi lançado na ponta esquerda e cruzou para a cabeçada de Kowalczyk, que apareceu totalmente sozinho no meio da zaga australiana. Novamente precisando correr atrás, a Austrália se lançou ao ataque no começo da etapa final. Mas se abriu desastrosamente na defesa, que voltou a falhar, facilitando o trabalho da Polônia.

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E a porteira ficou escancarada nos contra-ataques. Aos dez, Juskowiak passou fácil no mano a mano pelo defensor e bateu na saída de Bosnich para fazer o terceiro. Aos 25, Kowalczyk arrancou do próprio campo e cruzou para Shaun Murphy marcar contra. Aos 35, Juskowiak recebeu passe da direita e driblou com facilidade o goleiro para anotar o quinto. E no último minuto, Staniek passou para Kowalczyk marcar um gol digno de fim de pelada.

DE PRATA

O desafio na decisão, no entanto, era bem mais complicado: a Espanha, anfitriã dos Jogos, num Camp Nou lotado, contando inclusive com a presença do rei Juan Carlos e a família real. O time dirigido por Vicente Miera (que havia comandado a seleção principal por pouco mais de um ano antes de ceder o posto a Javier Clemente) vinha de uma tranquila primeira fase como primeiro de seu grupo e de eliminar Itália e Gana nos mata-matas.

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Além disso, a Polônia tinha um desfalque importante: Adamczuk cumpriria suspensão após levar seu segundo cartão amarelo no torneio contra os australianos. Em seu lugar, atuaria o meia Andrzej Kobylanski, que havia apenas entrado nos minutos finais dos jogos contra Estados Unidos e Catar. Swierczewski também começaria fora do time titular, substituído por Gesior. Mas ficaria no banco, destinado a entrar no segundo tempo.

O jogo foi uma das melhores finais de torneios olímpicos do ponto de vista técnico. Também não faltou emoção. Empurrada pela torcida, a Espanha partiu para tentar definir o jogo logo cedo, mas a defesa polonesa não deu chances. O time de Janusz Wójcik também contra-atacou com perigo, como na ótima chance perdida por Kowalczyk cara a cara com o goleiro Toni aos 37 minutos. E exatamente na marca dos 45, abriu o placar.

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O goleiro Klak bateu tiro de meta com um chute longo, que atravessou o meio-campo e chegou à intermediária defensiva espanhola. Pressionado por Kowalczyk, zagueiro López falhou no domínio de bola, e o atacante se aproveitou, tomou a frente e bateu rasteiro, na saída de Toni. Era o primeiro gol sofrido pela Espanha em todo o torneio. E, mais uma vez, a Polônia balançava as redes num momento crítico do jogo, indo para o intervalo em vantagem.

No segundo tempo, o time resistiu até os 20 minutos, quando a Espanha chegou ao empate após Amavisca sofrer falta na ponta-esquerda e Guardiola levantar na área para o desvio de cabeça de Abelardo. E a virada chegaria cinco minutos depois, quando foi a vez de Lapinski não conseguir afastar e de Waldoch falhar à frente de Kiko, que só teve o trabalho de tirar o alcance de Klak e partir para o abraço. Mas a Polônia ainda não estava batida.

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Mais cinco minutos e seria a vez de Brzeczek ganhar uma disputa de bola na meia esquerda e levantar a bola na área espanhola. Staniek surgiu de trás da linha de defesa dos donos da casa e apareceu para tocar por cima de Toni e jogar uma ducha de água fria na festa do Camp Nou. Nos minutos finais a Espanha pressionava, mas o jogo parecia destinado à prorrogação. Até que Kozminski preferiu afastar um ataque tocando a bola pela linha de fundo.


A cobrança do escanteio, já adentrando os acréscimos, passou por vários jogadores até chegar a Luís Enrique na entrada da área. O meia-atacante chutou, a bola foi bloqueada por Staniek, mas sobrou para Kiko. O atacante do Cádiz chutou alto, tirando do goleiro, com a bola batendo no “teto” das redes, e de novo fazendo o estádio explodir em celebração. Restou aos poloneses a medalha de prata e o orgulho de ter feito uma campanha admirável.

O DESTINO DA SAFRA

A grande participação em Barcelona trouxe os jogadores para o elenco da seleção principal que disputaria as Eliminatórias para a Copa de 1994. Cinco titulares – Waldoch, Kozminski, Brzeczek, Swierczewski e Adamczuk – disputaram pelo menos metade dos dez jogos da Polônia naquela etapa de classificação. Jalocha, Staniek e a dupla de frente Kowalczyk e Juskowiak também entraram em campo algumas vezes. E Klak foi titular do gol em um jogo.

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A equipe dirigida por Andrzej Strejlau até começou bem as Eliminatórias, somando três vitórias e dois empates nos cinco primeiros jogos: bateu a Turquia em Poznan, ganhou os dois jogos contra a fraca San Marino e arrancou igualdades com a Holanda em Amsterdã e a Inglaterra em Chorzow. Mas desmoronou na reta final, perdendo os cinco últimos jogos em sequência, mesmo após a troca no comando, com Strejlau cedendo o posto a Leslaw Cmikiewicz.

Naquela altura, vários dos jogadores já haviam emigrado para clubes da Europa Ocidental. Depois de Juskowiak assinar com o Sporting (e mais tarde rodar por, entre outros, Olympiacos, Borussia Mönchengladbach, Wolfsburg, Energie Cottbus e o Metrostars na MLS), Kozminski se transferiu para a estrelada Serie A para defender a Udinese, onde atuaria por cinco temporadas, seguidas por mais quatro no Brescia e uma na Ancona.

Adamczuk também deixaria o futebol polonês em 1992, iniciando uma peregrinação por diversas ligas do continente, quase sempre em passagens rápidas e sem se firmar: esteve na Alemanha (Eintracht Frankfurt), Escócia (Dundee e Rangers), Itália (apenas duas partidas pela Udinese), Portugal (Belenenses) e Inglaterra (Wigan), sem falar em mais de um retorno ao Pogon Szczecin, clube que o revelou e que defendia na época dos Jogos.

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No ano seguinte, seria a vez de Staniek e Swierczewski terem suas experiências no exterior: o primeiro teria passagem mais curta, apenas duas temporadas na Espanha com o Osasuna antes de retornar à Polônia. Já o segundo faria carreira no futebol francês defendendo o Bastia por seis temporadas, além do Saint-Étienne e do Olympique de Marselha. Esteve ainda no Gamba Osaka e fez uma única partida pelo Birmingham City.

Waldoch, Jalocha e Kowalczyk deixariam o país em 1994. O primeiro seria o mais bem-sucedido, marcando época na Bundesliga pelo Bochum (cinco temporadas) e pelo Schalke 04 (sete anos, dois títulos da copa e um vice da liga). O segundo jogaria uma única temporada no Waregem belga antes de voltar à Polônia. E o terceiro atuaria sem muito destaque por três anos no Betis e outro no Las Palmas, antes de migrar mais tarde para o futebol do Chipre.

O goleiro Klak só cruzaria as fronteiras polonesas em 1995, e só teria certo destaque mais tarde, defendendo o Antuérpia. No mesmo ano, enfim, o capitão Brzczek deixaria o país seguindo para um mercado não tão badalado, o da Áustria, onde atuou durante 12 anos, exceto por uma passagem pelo Maccabi Haifa, de Israel. Foi bicampeão austríaco pelo Tirol Innsbruck. Tio do meia-atacante Jakub “Kuba” Błaszczykowski e grande incentivador da carreira do sobrinho, é o atual técnico da Polônia.

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O líbero Lapinski seria o único titular a nunca atuar no exterior, dedicando quase a totalidade de sua carreira ao Widzew Lodz, clube que defendia desde 1987 e no qual permaneceu até 1999. Em contrapartida, o atacante reserva Mielcarski, que pouco atuou nos Jogos (embora balançasse as redes da Itália), chegou a ser tetracampeão português pelo Porto. Mas, assim como em Barcelona, saindo do banco de suplentes na maior parte do tempo.

Após novo fracasso na tentativa de se classificar para a Copa de 1998 (quando caiu num difícil grupo eliminatório com Inglaterra e Itália), a Polônia enfim voltou aos Mundiais em 2002. Na Copa da Coreia do Sul e do Japão, três remanescentes de Barcelona estavam, uma década depois, na lista dos 23: Kozminski, Waldoch e Swierczewski. Em 2008, a seleção debutaria na Eurocopa. Mas quanto ao torneio olímpico, a última participação segue sendo a de 1992.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.