Na última semana, o Maccabi Tel Aviv anunciou o seu novo técnico para a próxima temporada. Um nome bastante familiar, que fazia total sentido. Jordi Cruyff assumirá o comando dos vice-campeões israelenses. Começará, de vez, sua carreira como treinador. O ex-meia trabalhou como diretor esportivo dos auriazuis por cinco anos. Mas, neste intervalo, também precisou atuar como bombeiro em certo período, assumindo interinamente durante o início deste ano. Conquistou cinco vitória e um empate em seis jogos, antes de voltar às tribunas. O suficiente para que se motivasse à nova etapa, por mais que não esconda o gosto pela gestão, uma tarefa à qual estudou desde os tempos de jogador. Seguirá, mais uma vez, os passos do pai. Agora, sem que ele possa acompanhar.

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A empreitada de Jordi acontece em um momento no qual ele tem sido bastante solicitado pela imprensa. Mas não para falar de si. A morte de Johan Cruyff fez de seu filho, reconhecido também no mundo do futebol, o porta-voz da família. Ressaltou o orgulho pelos feitos de seu progenitor e trabalhou para ajudar a preservar a sua memória, ao lado da mãe e das irmãs. O legado do camisa 14 segue nas lembranças vivas, no carinho dos clubes, nos projetos sociais. E, claro, na saudade daquele que o vê como pai, não como uma figura do futebol.

A própria vida de Jordi reconta bastante sobre a personalidade e a figura de Johan. O nascimento do terceiro filho, o primeiro homem, estava inicialmente programado para 17 de fevereiro de 1974, mas precisou ser remarcado. Naquele dia, o Barcelona tinha compromisso com o Real Madrid pelo Campeonato Espanhol. A cesariana acabou acontecendo oito dias antes em Amsterdã. O craque acompanhou sua esposa, Danny, retornando à Espanha para o clássico. Um jogo marcante à sua vida e ao próprio barcelonismo: os blaugranas golearam por 5 a 0 e o holandês arrebentou em pleno Bernabéu. Estrela da sorte do menino, que carregava consigo um nome catalão quando a língua era proibida na Espanha franquista.

Jordi chegou mesmo a ser jogador de Johan. E seu momento mais emblemático no Camp Nou veio justamente depois da saída do treinador, em litígio com a diretoria. Carles Rexach escalou o meia e o tirou minutos antes do final do jogo. Saiu ovacionado pelos milhares de torcedores nas arquibancadas. “Naquele dia, foi uma ovação de reconhecimento e agradecimento ao meu pai. Era a hora de aplaudir meu pai através da minha figura”, rememora.

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Na última edição da revista argentina El Gráfico, Jordi Cruyff concedeu uma excelente entrevista. Falou especialmente sobre Johan. Sobre sua personalidade, sua história de vida, seus conceitos e também seus últimos dias. Apesar do câncer que enfrentava, o veterano sempre se manteve como um otimista. Uma postura que explica muito de seu sucesso. Vale conferir alguns dos melhores trechos, transcritos abaixo. Agradecimento especial ao amigo Caio Brandão pelo auxílio com o material.

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Para Jordi, quem foi Johan Cruyff

“Para mim, Johan Cruyff é o meu pai, eu não posso olhá-lo com os olhos dos demais. Para os meus olhos, não era um fenômeno do futebol, nada pode ser mais importante que o fato de ser meu pai. Vejo Johan Cruyff como um humano, não como um homem do esporte. Ele sabia separar muito bem o trabalho de seu lar. Quando colocava a chave na porta da casa, deixava de ser o treinador. Nunca trouxe uma derrota ou uma vitória para casa, sempre estava alheio aos resultado. Ele me deixou muitos valores. Às vezes, em momentos de dúvida, eu me recordo de um conselho que ele me dava: que fizesse o que considerava humanamente correto antes de pensar no profissional”.

A relação diária

“Meu pai era duro, mas também muito social e brincalhão. Era um homem muito familiar e, como disse, nunca uma derrota influenciava em seu humor. Sempre era carinhoso com a gente. Um homem de ideias muito claras, que nunca deveu nada a ninguém e isso permitia ser independente naquilo que expressava. Não tinha qualquer problema. Era de caráter forte, com uma grande personalidade”.

O batismo desafiando o franquismo

“Meu nome é catalão. Saint Jordi é o patrono da Catalunha e meus pais escolheram porque gostavam, em um tempo no qual não se podia falar catalão na Espanha, em plena ditadura de Franco. Não queriam aceitar meu nome na Espanha, diziam que o nome era Jorge. Porém, como eu havia nascido na Holanda e vinha com uma certidão oficial na qual estava escrita Jordi, finalmente tiveram que aceitar. Meu pai tinha um caráter particular. Por isso mesmo não quis ir ao Real Madrid quando fizeram oferta ao Ajax. Não sei o motivo, mas meu pai sempre teve o Barcelona na cabeça e acreditou nesse destino”.

O futebol dentro de casa

“Sempre jogamos futebol, quando podíamos. Mas também falávamos, eu gostava muito de falar com ele sobre futebol. O que ele não gostava era quando eu questionava certos jogadores. E quando se irritava, dizia para mim ‘Parece mentira que não tenha aprendido nada em 20 anos falando comigo’ [risos]”.

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O pai treinador

“Quando subi ao time principal, o primeiro conselho do meu pai foi: ‘Ver, ouvir, calar’. Ou seja, trabalhar caladinho. Era especialmente duro comigo, para mostrar que não tinha preferência por ser seu filho. Depois, disse que nunca tinha pensado em colocar seu filho em uma situação ruim. Não há nada mais doloroso para um pai que critiquem seu filho. Nessa época, subiram muitos garotos da base. Para mim, era muito mais difícil a situação, mas os outros jogadores sempre me trataram bem e cuidaram de mim. Tentei fazer o meu trabalho e não ter problemas. A única dificuldade era com as pessoas que gostam das comparações, e havia uma pequena diferença: eu sou mortal e meu pai era imortal. Eu sou mortal como 99% dos jogadores, mas há pouquíssimas lendas, e me comparar com uma lenda não era justo”.

O valor da Fundação Johan Cruyff

“A fundação era especial para o meu pai, foi um dos seus maiores orgulhos, por isso é muito importante que siga assim. Ela ajuda 300 mil crianças com deficiências em todo o mundo e os integra. Recordo-me bem como nasceu a ideia da Fundação. Foi quando meu pai jogava nos Estados Unidos. Em Washington, jogávamos bola na rua. Tínhamos como vizinho um menino com Síndrome de Down, John. Era uma rua tranquila, com poucos carros, e ali jogavam todos os meninos do bairro, mas este ficava sempre de fora. Isso impactou muito no meu pai, que começou a jogar com ele, para que todos vissem John trocando passes com Johan Cruyff. Em um momento, meu pai foi viajar e, quando voltou, teve uma grande surpresa ao ver aquele menino jogando com os demais. Ali mesmo teve o clique e se deu conta que o esporte, o futebol neste caso, era capaz de unir e integrar. Ali nasceu a ideia da Fundação. Em seguida, seguiu em frente com a ideia. Meu pai foi muito generoso com as pessoas que tinham necessidades. Esse era o seu grande orgulho, muito mais que ter ganhando qualquer título”.

A infância dura de Johan

“Sem dúvidas, ele tinha algo especial com as crianças, porque precisou amadurecer muito rápido. Ele nasceu dois anos depois de finalizada a Segunda Guerra Mundial, em um país em plena reconstrução. O bairro onde foi criado se chama Betondorp, que significa literalmente ‘povoado de cimento’, assim você pode imaginar a atmosfera cinza em que cresceu. Ademais, ele teve a infelicidade de perder seu pai muito cedo, quando tinha apenas 12 anos. Apesar de ser uma pessoa muito inteligente, ele não terminou o colegial. E isso o levou a dar-se conta que na vida é preciso ter um plano B. Ele soube desde pequeno que era um talento magnífico para jogar futebol, com uma mentalidade forte, mas se tivesse machucado o joelho aos 18 anos, o futebol teria terminado para ele. Por isso, pressionou muito a mim e as minhas irmãs para que estudássemos, dizia isso também aos jogadores que dirigia. Ter um plano B. E por esse motivo também surge, depois, a ideia de criar a Johan Cruyff University”.

A autobiografia

“A ideia de escrever a biografia foi dele. Estava muito entusiasmado em colocar suas ideias e sua vida em um livro. Começou o projeto no último ano, antes de saber que estava doente, e ao descobrir escreveu mais rápido, embora sempre pensasse que ia superar o câncer. Em nenhum momento sentiu que fosse uma corrida contra o tempo. Não escreveu como um adeus, por mais que todos soubéssemos o que significa e implica a palavra câncer”.

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O câncer

“Quando diagnosticaram o câncer, suas palavras foram: ‘Eu quero viver, não sobreviver’. Quer dizer, ele não queria perder o ritmo de vida que levava. Ele gostava de ser independente. Quando o câncer foi afetando partes diferentes do corpo, jamais acreditou em um tratamento milagroso, mas tentou seguir com sua vida normalmente. Até ria de algumas coisas. ‘Tenho notícias excelentes, encontraram um novo tumor’, disse certa vez quando voltou do hospital. E ao perguntarmos o que era o bom, ele nos dizia: ‘Como encontraram, então podem curar’. Sempre foi um grande otimista com tudo, meu pai tinha uma enorme força de vontade”.

Os últimos dias

“O desenlace se deu abruptamente. Todos sabemos o que implica um câncer, mas ninguém na família teve tempo de assimilar. Graças a Deus, ele só sofreu por dois dias, antes esteve sempre muito ativo, com vontade, discutindo com todos. E mais: duas semanas antes de morrer, veio junto com a minha mãe me visitar em Israel. No geral, as viagens eram planejadas por ela, mas desta vez ele planejou. Nem ele e nem nós imaginávamos que ia falecer tão rápido. Não foi uma viagem de adeus, longe disso. Aproveitou muito aqui, como sempre: passeando, comendo boa comida, tomando um vinhozinho. Foi uma viagem clássica de pais que visitam seus filhos, quando faz tempo que não se veem. Ele assistia aos treinamentos da equipe, ríamos muito. Eu saí de casa há 20 anos, fazia todo esse tempo que não compartilhava o dia a dia com ele, e desta vez eu o vi aproveitar como um menino. Eu estaria me sentindo muito mal se não tivéssemos passado essa semana juntos, porque poucos dias depois de voltar de Israel ele se sentiu muito mal e terminou tudo. Seguramente foi o destino, porque foram dias geniais os que passamos”.

As homenagens póstumas

“As mostras de carinho depois da morte do meu pai me impactaram muito, no geral. As mostras de respeito nos estádios, com todos parando e fazendo silêncio. Essas coisas te afetam muito, te emocionam muito. Todos os dias me encontro com gente que me conta algo distinto sobre meu pai, uma pequena história, e isso também me comove”.

O eterno orgulho

“Tudo me orgulha, tudo. Veja, o fato que seu nome esteja tão vinculado a diferentes âmbitos tão distintos, o de treinador, o acadêmico, a ajuda às crianças, tudo o que ele fez na vida foi grande”.