O Liverpool decidiu, nesta quinta-feira, proibir qualquer repórter ou profissional do tabloide The Sun de entrar no estádio Anfield, para cobrir os jogos da equipe, e até mesmo em Melwood, centro de treinamentos onde são realizados os trabalhos do dia a dia. Não haverá nenhum acesso para falar com jogadores ou com o técnico Jürgen Klopp, que já não concediam entrevista exclusiva para o jornal de maior circulação na Inglaterra. Essa medida se soma ao boicote que era realizado há anos pelos torcedores por causa da cobertura mentirosa do desastre de Hillsborough.

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Alguns dias depois da tragédia que cobrou 15 vidas, em abril de 1989, o The Sun publicou uma capa, com a manchete “A Verdade”, em que fazia uma série de acusações mentirosas, que incluíam torcedores do Liverpool urinando em policais, batendo em seguranças e bombeiros e roubando os corpos. A matéria causou um sofrimento sem tamanho para os familiares das vítimas. Muitos, inclusive, apontam a cobertura do jornal como um dos motivos principais para o desfecho das investigações ter demorado tanto, já que o veículo mais popular do Reino Unido pintava as vítimas como responsáveis pelo ocorrido.

Essas histórias não foram inventadas por alguém do jornal. Elas partiram da polícia de South Yorkshire, mais especificamente de um inspetor de polícia chamado Gordon Sykes, que admitiu, durante o inquérito, que aquelas informações eram falsas. O The Sun, no entanto, publicou-as sem a checagem que deveria ter sido feita, e mesmo diante das imagens do desastre, que não mostravam nenhum torcedor batendo e urinando em quem tentava ajudar as vítimas, muito menos as roubando. Ao contrário, mostrava muitos correndo para dentro do gramado para tentar ajudar. Em 2012, depois da publicação do relatório de um painel independente, que motivou até mesmo o então primeiro-ministro David Cameron a pedir desculpas em nome do Governo, o tabloide publicou outra capa, agora com a manchete “A Real Verdade”, pedindo desculpas e negando a reportagem de 23 anos antes.

A admissão do erro não esfriou o boicote que a cidade inteira – inclusive torcedores do Everton – organizam contra o jornal desde a publicação da matéria falsa. “Don’t Buy The Sun” virou frase obrigatória em cartazes em todos os eventos de homenagem a Hillsborough. Klopp recusou-se a responder uma pergunta do The Sun, por causa de outro episódio, envolvendo o zagueiro Lovren, mas certamente o histórico do jornal contribuiu para a sua decisão. Depois de um júri decidir que a polícia era responsável, por negligência, pela morte daquelas 96 pessoas, e que os torcedores do Liverpool não tinham culpa nenhuma, essas campanhas intensificaram-se.

Ganharam até mesmo um outro nome: “The Total Eclipse of The Sun”. A intenção era fazer com que o veículo deixasse de circular pela região de Merseyside, e conseguiram fazer com que alguns revendedores de jornal parassem de comercializar o The Sun. Convenceram até mesmo o conselho municipal a apoiar o boicote. As famílias sentiam-se desconfortáveis com a presença do jornal nos jogos e treinamentos e, sempre muito próximas do Liverpool, vinha conversando com dirigentes para que as credenciais dos jornalistas do The Sun fossem rescindidas.

“A cobertura do The Sun causou danos enormes a mim, Jenni (sua esposa na época) e todas as famílias e nos causou muita angústia”, afirmou o presidente do Grupo de Apoio às Famílias de Hillsborough, Trevor Hicks, que perdeu duas filhas adolescentes, Sarah e Vicki, no desastre de 1989, segundo o Guardian. “Não aceitamos que as desculpas que eles pediram foram genuínas e apoiamos a decisão do Liverpool de banir o jornal. Todos os 96 mortos torciam para o Liverpool, Anfield é nossa casa espiritual, e há um elemento do local que sendo manchado pela presença do The Sun”. O jornal, em resposta, afirmou ter uma “sólida relação” com o Liverpool nos últimos 28 anos e que banir jornalistas é “ruim para os torcedores e para o futebol”. Voltou a expressar remorso pela cobertura e parabenizou a vitória jurídica das famílias.

É possível discutir se o Liverpool não deveria deixar o boicote apenas para os consumidores, sem atentar contra a liberdade de imprensa de uma nova geração de jornalistas que não teve nada a ver com a reportagem mentirosa de quase 30 anos atrás. Geralmente, um dos maiores problemas desse tipo de medida é o precedente, que pode ser usado contra reportagens mais benignas, mas se trata de um caso tão específico, de uma tragédia tão marcante, que não dá para esperar que isso vire um hábito. E por ser um desejo das famílias, a proximidade do clube com elas e com a própria cidade impediria que qualquer outra atitude fosse tomada.