A partir do pouco, o Mirassol escreveu a grande história de uma façanha no Morumbi

Eliminar o São Paulo dentro do Morumbi já seria um momento inigualável ao Mirassol, mesmo com seu histórico de resultados surpreendentes. Chegar à semifinal do Campeonato Paulista pela primeira vez aumenta ainda mais a grandeza do feito. Mesmo assim, nada se compara à realidade que o Leão da Alta driblou para alcançar a façanha. O clube do interior serve de retrato às dificuldades vividas nos rincões do futebol em tempos de pandemia: desmanchou seu time durante a paralisação, encarou as dificuldades econômicas, precisou se remontar às vésperas do reinício do campeonato. E conseguiu sair muito melhor do que o imaginado, com a vitória por 3 a 2 no Morumbi – daquelas que serão contadas por muito tempo.

A campanha do Mirassol rumo aos mata-matas do Paulistão foi fruto do investimento no início do torneio. O Leão da Alta montou uma equipe repleta de jogadores rodados, muitos deles com passagens pelas Séries A e B do Brasileirão. De volta ao clube após brilhar por lá em 2013, o meia Camilo foi uma das principais figuras durante a fase de grupos. Anotou cinco gols e contribuiu para que os auriverdes acumulassem 16 pontos. Faltando mais duas rodadas para o fim da primeira etapa do campeonato, o time tinha a quinta melhor campanha e estava muito próximo da classificação. Então, veio a pandemia e o impacto imenso ao planejamento.

Embora confirmado na Série D de 2020, o Mirassol moldou o seu elenco pensando no Paulistão. Tinha o dinheiro garantido pelos direitos de TV e direcionou os gastos para fazer uma boa campanha, pensando em adaptar depois o orçamento para a quarta divisão nacional – à espera do que faria no estadual. Desta maneira, os contratos de vários jogadores chegariam ao fim entre abril e maio. Ao todo, 18 dos 28 atletas teriam seus vínculos encerrados neste momento – incluindo a maioria dos medalhões, em lista extensa composta por Camilo, Ernandes, João Denoni, Maranhão, Dellatorre e ainda outros.

O técnico Ricardo Catalá seguiu à frente do projeto e, durante as primeiras semanas da pandemia, o elenco treinou à distância. Entretanto, diante da falta de perspectivas, o desmanche se tornou inescapável. Com a redução das receitas e o cenário incerto, o presidente Edson Ermenegildo anunciava em abril que a remontagem da equipe se pautaria na Série D. Não havia qualquer previsão de retorno das competições, enquanto o salário de vários veteranos não se encaixava nos padrões da quarta divisão do Brasileirão. Camilo estava entre aqueles fora dos planos e se despediria com tristeza, por não poder concluir a boa campanha que ajudava a sustentar. Juntou-se ao lado de outros três companheiros à Ponte Preta.

As renovações se tornaram pontuais, com novos contratos a jogadores que se encaixavam na realidade futura. Em junho, o Mirassol reiniciou suas atividades e o elenco ficou confinado no moderno CT do clube para a preparação. A retomada se deu com 20 atletas, 13 deles formados pelas próprias categorias de base, e diversos puxados do sub-20 para o término do Paulistão. Só três titulares haviam ficado. Como se não bastasse, um dos goleiros rompeu os ligamentos do joelho. O experiente Luiz, que começou no próprio clube, chegou para a vaga.

O caminho ao Mirassol seria fazer contratações eventuais. E alguns casos foram curiosos. Tiago Alves e Paulo Roberto estavam no elenco desde o início da campanha, mas ficaram sem contrato. Preferiram manter a forma no CT e acabaram assinando um novo vínculo até o final do estadual. A dupla foi inscrita apenas três dias antes da reestreia no Paulistão, ao lado de outros três reforços que vieram de fora. Na primeira partida da retomada, o empate por 0 a 0 contra o Água Santa saiu de bom tamanho. Já na última rodada da fase de grupos, a derrota por 1 a 0 para a Ponte Preta não atrapalhou a classificação. Os auriverdes pegariam o São Paulo nas quartas de final, dentro do Morumbi.

Antes do embate decisivo, o Mirassol ganhou mais um reforço, e de forma bastante inusitada: o atacante Zé Roberto, vice-artilheiro da Série B pelo São Bento. Vinculado ao Leão da Alta, pelo qual disputou o Paulistão de 2019, o jogador tinha iniciado 2020 no Atlético Goianiense e atraiu o interesse do Baniyas. Ficaria cinco meses nos Emirados Árabes, mas não renovou o contrato após a pandemia e voltou o Brasil. Então, preferiu manter a forma no CT do Mirassol enquanto aguardava alguma proposta para jogar o Brasileirão na Série A ou na Série B. Sem nenhum acerto, acabou inscrito para a reta final do Paulistão na última terça-feira. Viraria herói.

Zé Roberto não jogava apenas pelo Mirassol, mas também por seu futuro contrato. Não perdoou os desleixos do São Paulo e anotou dois gols na primeira meia hora de jogo. O Tricolor acordou logo depois do segundo tento e buscou o empate rapidamente, em seis minutos. Embora fosse uma atuação ruim do time de Fernando Diniz, a virada parecia possível, ainda mais contra um adversário que teve tantos problemas prévios. A escalação titular de Ricardo Catalá reunia diversos jovens, incluindo dois garotos abaixo dos 20 anos.

Igor Gomes acertou o travessão logo no início do segundo tempo e o São Paulo até esboçou a virada, mas não indicava grande melhora, sem agressividade. O tempo passava sem o gol, abrindo o caminho para o Mirassol fazer história. O tento decisivo, auriverde, saiu aos 35 minutos. Daniel Borges aproveitou a sobra na área, após a saída errada de Tiago Volpi, e emendou um chutaço sem nem dar tempo para o goleiro se recompor. O lateral havia sido um dos raros remanescentes do início da campanha. Virou talismã. E, nos minutos finais, contra um Tricolor desesperado, o Leão da Alta segurou o triunfo.

Na saída de campo, a entrevista do herói Zé Roberto seria emblemática: “Nem nos meus melhores sonhos poderia imaginar isso. Eu cheguei para treinar, mas o Juninho, meu segundo pai [diretor do Mirassol], pediu para jogar e acabei aceitando. Ele me ligou de madrugada, peguei o voo ontem, treinei e joguei hoje. Acho que esse é o melhor dia da minha vida. Tenho um carinho especial pelo Mirassol, o pessoal é acolhedor e se preocupa com o ser humano antes de tudo. Fico feliz em poder dar alegria para a cidade”.

Nem todas as limitações e os remendos foram capazes de derrubar o Mirassol. Contra um São Paulo distante de cumprir o favoritismo e até acomodado em sua pretensa superioridade, o Leão da Alta mostrou que o futebol se joga em campo. É uma equipe totalmente diferente da que havia iniciado a campanha. Mesmo assim, o esforço do clube e o trabalho de Ricardo Catalá acabam premiados. Diante de uma realidade muitíssimo particular, o time do interior ainda conseguiu tirar o seu melhor e arrancar um resultado imenso. Num futebol difícil de se fazer acontecer, o Mirassol abraçou o imponderável e escreve uma grande história a partir do pouco.

https://www.youtube.com/watch?v=B_kdygBnybU