Pela primeira vez na história da Liga dos Campeões, Ajax e Tottenham se enfrentarão. O confronto inicial acontecerá justamente em uma semifinal, tão representativa aos clubes – pelo momento, mas também por aquilo que impactará em suas próprias dimensões continentais. Um duelo definitivo, que resgata um passado não tão lembrado nas competições europeias. Enquanto este é o “marco zero” na Champions, holandeses e ingleses já haviam se encarado na antiga Recopa Europeia, em setembro de 1981. Único encontro oficial entre os times, com certa relevância, por também representarem momentos particulares em Amsterdã e Londres.

Tricampeão continental, o Ajax atravessava um período de reconstrução naqueles tempos. Perdeu relevância com o desmanche de sua célebre geração dos anos 1970, mas recuperara as glórias nacionais na virada rumo à década de 1980, bicampeão nacional. Se não era mais aquele esquadrão de outrora, ao menos mantinha uma certa qualidade no elenco e reputação continental. Cabe lembrar que, em 1980, os Godenzonen alcançaram as semifinais da Champions e só foram derrotados pelo Nottingham Forest de Brian Clough, antes de uma dolorosa queda para o Bayern de Munique nas oitavas da edição seguinte. Embora não tenham emendado o tri holandês em 1981, desbancados pelo AZ, ainda assim eram um adversário a se respeitar na Recopa Europeia.

O Tottenham, por sua vez, ascendia novamente ao cenário continental. Os Spurs não eram tão assíduos nos torneios da Uefa, mas possuíam um histórico respeitável em suas participações: foram semifinalistas da Champions em 1962, campeões da Recopa em 1963 e também faturaram a Copa da Uefa em 1972, além de serem vice-campeões do mesmo certame dois anos depois. Todavia, desde a derrota para o Feyenoord na final de 1974, os londrinos não reapareciam nas competições europeias. A Recopa de 1981/82 representava uma porta de entrada, após a emocionante conquista da Copa da Inglaterra em cima do Manchester City.

Quis o destino que Ajax e Tottenham se pegassem logo na primeira fase da Recopa, equivalente aos 16-avos de final. E, apesar da vantagem de atuar em casa, os Godenzonen sucumbiram no Estádio Olímpico logo durante a ida. O técnico Kurt Linder tinha à sua disposição jogadores que marcariam seu nome no clube, como Sorën Lerby, Pieter Schrijvers, Dick Schoenaker e Peter Boeve. Não foram páreos para os Spurs de Keith Burkinshaw, que começavam a se estabelecer como uma equipe copeira. Timaço do meio para frente, especialmente pela presença de talentos como Ossie Ardiles, Ricky Villa, Glenn Hoddle e Steve Archibald.

O grande nome daquela noite foi Mark Falco, atacante formado pelas categorias de base do Tottenham. O inglês de 20 anos silenciou a torcida do Ajax ao balançar as redes por duas vezes no primeiro tempo, em ambas aproveitando os desleixos defensivos dos alvirrubros. E as esperanças dos holandeses acabaram diluídas aos 22 do segundo tempo, quando Villa aumentou a contagem para os Spurs. A zaga adversária errou ao fazer a linha de impedimento e o argentino saiu sozinho em direção ao gol. Driblou o goleiro Pieter Schrijvers com uma bela finta na entrada da área e só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol. No minuto seguinte, Lerby ainda diminuiu o prejuízo aos anfitriões, mas era pouco. A derrota por 3 a 1 deixava uma situação bastante difícil para o reencontro em White Hart Lane.

O duelo em Londres aconteceu duas semanas depois. E, de fato, o Tottenham reiniciou sua história continental com uma classificação contundente. Os Spurs voltariam a amassar o Ajax, com a vitória por 3 a 0 diante de sua torcida. O empate sem gols se mantinha até os 24 do segundo tempo, quando os londrinos descobriram os atalhos para o gol e surraram o Ajax. O ponta Tony Galvin abriu o placar num chutaço de fora da área, antes de Mark Falco se confirmar como o carrasco dos holandeses, aproveitando uma jogadaça de Steve Archibald. Por fim, Ardiles deu números finais ao confronto, com outra pintura de longe. Mesmo escorregando, o argentino conseguiu mandar a bola na gaveta. Os 6 a 1 no placar agregado davam passagem aos ingleses rumo às oitavas de final.

O Tottenham teria vida mais difícil na sequência da campanha, com classificações apertadas contra Dundalk e Eintracht Frankfurt. Pararia apenas nas semifinais, derrotado pelo campeão Barcelona. Em contrapartida, voltaria ao cenário continental em pouco tempo, e para ser campeão. Na sequência da década, venceria novamente a Copa da Uefa, derrotando o Anderlecht na final de 1984. O Ajax, por sua vez, aguardaria mais um pouco até recobrar o protagonismo. Acumulou seis temporadas consecutivas sendo eliminado na primeira ou na segunda fase dos torneios continentais, até engrenar em 1986/87. Conquistou a própria Recopa naquele ano, batendo o Lokomotive Leipzig na final. Embora Boeve fosse um remanescente das derrotas ao Tottenham, já era uma geração bastante distinta: comandada por Johan Cruyff no banco de reservas, vivia o desabrochar de Marco van Basten e Frank Rijkaard, bem como surgiam também Dennis Bergkamp e Aron Winter.