Raros treinadores do futebol brasileiro recebem tanta aclamação quanto Rubens Minelli. O currículo do paulistano fala por si, responsável por capítulos dourados de grandes clubes. No Palmeiras, ajudou a inaugurar a chamada “Segunda Academia”, com a conquista do Robertão de 1969. Transformou a história do Internacional, ao faturar o bicampeonato nacional em 1975 e 1976. Particularmente, ainda seria tricampeão brasileiro consecutivo, ao também expandir as fronteiras do São Paulo em 1977. E levaria estaduais por outros times, como Grêmio e Paraná. Completo à beira do campo, “Seu Rubens” foi um revolucionário na casamata. Não à toa, é reverenciado tantas vezes. Mas nem sempre é lembrado por sua trajetória dentro de campo – algo que o tradicional Taubaté fez, com honras, na última sexta-feira.

Nascido em São Paulo, Rubens Minelli realmente teve uma carreira mais modesta como jogador de futebol profissional – bem abaixo das condecorações que receberia como treinador. Defendeu clubes da capital, como o Ypiranga e o Nacional, mas sua transferência para os grandes da cidade, Palmeiras e São Paulo, nunca passou de especulação. Assim, o ápice do ponta-esquerda aconteceu justamente com a camisa do Taubaté. Aos 26 anos, Minelli conquistou o título da segunda divisão do Campeonato Paulista de 1954 com o Burro da Central – em competição encerrada apenas em 1955.

Em tempos nos quais o Campeonato Paulista era disputado apenas por 14 clubes e as equipes da capital ocupavam metade das vagas, a chamada Divisão Intermediária tinha vários times de peso do interior. O Taubaté precisou superar diversas camisas tradicionais para conquistar a taça. Primeiro colocado de seu grupo na fase de classificação, o Burro da Central garantiu o título (e o inédito acesso) no hexagonal decisivo que também contava com Comercial, São Bento, Botafogo de Ribeirão Preto, Araçatuba e Tupã. Berto, companheiro de Minelli na linha de frente, foi a grande figura naquela conquista ao anotar 22 gols.

Minelli é o último agachado, da esquerda para a direita (Arquivo EC Taubaté)

O título, além do mais, também marcaria o próprio folclore ao redor do Taubaté. Foi exatamente naquela campanha que nasceu o famoso apelido de “Burro da Central”. Apesar da vitória, os taubateanos perderam os pontos da primeira partida do hexagonal contra o Comercial, ao escalarem um jogador irregular. Através de uma charge, a jornal A Gazeta Esportiva representou a equipe como um burro e, junto com o animal, veio a referência à Central do Brasil, que corta a cidade no Vale do Paraíba. Mesmo depreciativo, o mascote pegou e rendeu uma lembrança gloriosa após a conquista da taça ao final do torneio.

Minelli deixou o Taubaté pouco depois da conquista, ao se transferir para o São Bento. No entanto, precisou abandonar a carreira precocemente em Sorocaba, aos 27 anos, após sofrer uma grave fratura na perna. Logo se formaria em Ciências Econômicas e passaria a trabalhar nos Correios, até iniciar sua trajetória como treinador na base do Palmeiras, a partir de 1959. Assim, a glória com o Burro da Central ocupa um lugar especial na memória de Seu Rubens, às vésperas de completar 91 anos em dezembro.

“O Taubaté foi um marco na minha vida. O futebol mudou bastante, mas levo essa conquista no meu coração. Vou lembrar para sempre com muito amor de todo esse carinho que todos vocês mostram por mim”, declarou Minelli, durante o evento realizado pelo Taubaté, que comemorou também os 105 anos de fundação do clube.

(Bruno Castilho / EC Taubaté)

“Tantos anos depois, ainda estamos comemorando aquela data, aquele título. São lembranças muito boas, um campeonato e uma conquista maravilhosa. Tínhamos uma família, não só um time, todos unidos”, complementou. Minelli, além do mais, teve a oportunidade de ouvir a narração original de um tento marcado em seus tempos de ponta esquerda. O gol foi anotado em 1955, em partida do Taubaté contra o Palmeiras, dentro do Pacaembu.

Também campeão da Divisão Intermediária em 1955, Antonio Julio Taino foi outro ex-jogador homenageado. Após pendurar as chuteiras, o taubateano acumulou funções no clube de sua cidade e viu seus próprios filhos se tornarem figuras importantes no Burro da Central. Taino e Minelli receberam uma placa personalizada, com agradecimentos pela dedicação ao Taubaté, e também uma camisa enquadrada. “Às vezes estou em casa sozinho, lembro do nosso Taubaté e choro um pouquinho”, contou Taino, ao site do clube. “O amor que a gente tem por esse Taubaté, essa alegria, todo esse movimento, as pessoas nos filmando, nos fotografando… Isso para mim é só amor. Obrigado por tudo”.

Por fim, o Taubaté ainda aproveitou a ocasião para lançar sua nova camisa comemorativa. O uniforme faz alusão ao primeiro título da história do Burro da Central, quando se sagrou o primeiro campeão paulista do interior, em 1919. A camisa azul celeste repete o modelo da época, com uma faixa branca horizontal no peito e o escudo original da agremiação. O novo uniforme está atrelado ao primeiro lote da venda de ingressos para a Série A-2 do Paulistão de 2020.

Abaixo, um vídeo em homenagem aos 105 anos do clube e também outro, sobre o lançamento da nova camisa.