A passagem de Romário pelo Barcelona costuma ser exaltada por seus feitos no Campeonato Espanhol. As histórias mais impressionantes do Baixinho aconteceram na campanha em que liderou o “Dream Team” de Johan Cruyff rumo ao tetracampeonato nacional em 1993/94. Apesar de também ter sido vice da Champions na mesma temporada, seus números foram mais modestos na competição continental. Anotou apenas dois gols em dez aparições, impotente diante da noite inspirada do Milan na final realizada em Atenas. O grande momento do craque na Liga dos Campeões com a camisa do Barça veio em 1994/95, quando ficou apenas um semestre no Camp Nou, antes de arrumar as malas para o Flamengo. Ainda assim, o então melhor do mundo eternizou atuações imparáveis. Apesar de esquecidas por muita gente, as partidas contra o Manchester United na fase de grupos permanecem vivas na memória dos torcedores de ambos os clubes – para o bem ou para o mal. Especialmente o reencontro na Catalunha, que guardou um recital da dupla formada por Romário e Stoichkov, agora parte da antologia que conduz ao duelo decisivo desta terça-feira.

Um bocado da grandeza desfrutada por Barcelona e Manchester United atualmente foi construída naquela primeira metade dos anos 1990. Johan Cruyff reinventou os blaugranas mais uma vez e, além da dinastia estabelecida em La Liga, rompeu as barreiras ao clube na Champions. O Barça era, ao lado do Milan, a grande potência continental daqueles anos – por mais que indicasse seus primeiros sinais de declínio em 1994. O United, por outro lado, via Sir Alex Ferguson iniciar sua lenda em Old Trafford. Vinha do bicampeonato na Premier League, tentando se estabelecer também como um concorrente à Liga dos Campeões. A maior glória continental naqueles primeiros anos do treinador em Manchester aconteceu na Recopa Europeia, derrotando justamente os catalães na decisão. Capítulo anterior que fomentava sua dose de rivalidade aos reencontros em 1994/95.

Em tempos nos quais apenas quatro chaves compunham a fase de grupos da Champions, o Barcelona x Manchester United já tinha um peso decisivo. Um dos encontros mais aguardados, em quadrangular que possuía outras carnes de pescoço. O IFK Göteborg sustentava sua reputação além das fronteiras, enquanto o Galatasaray intimidava pela pressão imposta em Istambul. De qualquer maneira, esperava-se que os duelos entre barcelonistas e mancunianos valessem a primeira colocação rumo aos mata-matas. Não foi o que aconteceu.

Embora tenham vencido os seus compromissos na primeira rodada, Barcelona e Manchester United tropeçaram na segunda, atuando fora de casa. Os Red Devils não passaram do 0 a 0 na Turquia, enquanto o Barça voltou com a derrota da Suécia. Resultados que aumentavam a importância do “clássico”, marcado para a terceira rodada, em Old Trafford. Seria um movimentado empate por 2 a 2. Romário começou bagunçando a defesa inglesa, mas quem anotou o primeiro gol foi Mark Hughes, em cabeçada firme após o cruzamento de Lee Sharpe. Antes do intervalo, já saiu o empate. Romário recebeu a enfiada e mandou por entre as pernas de Peter Schmeichel. No início da segunda etapa, o cruzamento perfeito de Ronald Koeman permitiu que José Mari Bakero virasse. Contudo, os anfitriões pressionaram e arrancaram a igualdade restando dez minutos para o apito final. Jogadaça de Paul Ince para Roy Keane cruzar e, dentro da área, Lee Sharpe emendar um lindo chute de calcanhar. Os mancunianos ainda lamentariam as boas chances desperdiçadas no fim, que negaram uma valiosa virada.

“Faltou precisão a Romário em alguns domínios, mas esteve mais ativo que nunca. Seu bonito gol propiciou a reação blaugrana”, avaliou o Mundo Deportivo do dia seguinte. “Depois que Hughes abriu o placar e o inferno de Old Trafford ameaçou engolir o Euro-Barça, Romário deu novos ares à partida. Foi uma ação das suas, disparando e chutando justo no momento em que Schmeichel se preparava para cobrir o ângulo. Muito tarde, porque o brasileiro havia resolvido a jogada perfeitamente, fazendo a bola passar por entre as pernas do goleiro dinamarquês. Depois, o Barça dominou o jogo quase até o final”.

Já Cruyff analisou: “Com o segundo tempo que jogaram, não posso estar aborrecido, salvo por alguns detalhes. Em alguns momentos apresentamos um futebol de altíssima qualidade. O que lamento é pelo ponto que deixamos escapar. Há momentos em que você não pode se dar ao luxo de perder o controle. Agora temos que pensar que dependemos mais do que nunca de nós mesmos e o importante é que no Camp Nou os pontos não podem escapar”. Profecia do massacre na Catalunha.

O reencontro no Camp Nou aconteceu duas semanas depois. A vitória do Göteborg sobre o Galatasaray deixava os suecos na liderança do grupo. Assim, a obrigação aumentava para Barcelona e Manchester United. Os blaugranas souberam lidar muito melhor com a responsabilidade. Hristo Stoichkov, que não havia atuado na decisão da Recopa três anos antes, mostrou todo o seu poder de fogo. Tinha ao seu lado Romário, pronto para destruir a defesa inglesa com seus dribles em velocidade. Pior a Ferguson, que, em tempos nos quais a Uefa limitava o número de estrangeiros por equipe, não contou com Schmeichel para tentar diminuir o estrago. Ao final, o Dream Team provou sua alcunha com a goleada por 4 a 0.

Diante de 114 mil no Camp Nou, o Manchester United teve um enorme choque de realidade. O futebol feroz e competitivo exibido na Premier League ainda não era suficiente para brilhar na Champions, diante da qualidade do Barcelona no trato com a bola. E quem mais sentiu isso foi a dupla de zaga, composta por Steve Bruce e Gary Pallister. Apesar da qualidade de ambos, terminaram engolidos pela combinação infernal entre Stoichkov e Romário.

“Foi um dos meus melhores jogos e estava uma fera absoluta. Perdemos por 4 a 0, mas poderia ser 14”, apontaria Bruce, tempos depois. Ou como Pallister avaliaria: “Esta foi a única vez na minha carreira em que saí de campo e tive que aceitar que não consegui chegar perto do meu adversário. Estava completamente chocado”. O Baixinho, em especial, impressionou pela maneira como caçou os dois beques. Estava sempre de olho no posicionamento. Causou eternos pesadelos a ambos, assim como aos torcedores mancunianos.

O primeiro gol saiu logo aos nove minutos. Após passe de Jordi Cruyff, Romário fez uma jogadaça em que a zaga conseguiu safar no primeiro momento, mas não evitou o rebote a Stoichkov, em seu centésimo tento pelo clube. O Barça empilhava chances, até ampliar aos 45. Após um lançamento soberbo de Stoichkov, Romário matou no peito, limpou a marcação com uma finta mágica e mandou por entre as pernas do goleiro Gary Walsh. No início da segunda etapa, a torcida já aplaudia de pé. Outra tabelinha entre os dois craques terminou em gol. Romário devolveu com um sutil toque de calcanhar, antes que Stoichkov soltasse uma violenta bomba de canhota. Foi uma pena que o Baixinho não tenha assinalado mais um, depois de deixar dois adversários no chão com seus dribles estonteantes. E depois de um caminhão de oportunidades blaugranas, Albert Ferrer se juntou à festa, para dar números finais aos 43. Boa jogada pela direita, antes que o lateral tentasse duas vezes até marcar.

“O Manchester United não tinha resposta para a habilidade, velocidade e imaginação da dupla composta por Stoichkov e Romário. Por vezes, eles se movimentavam pela defesa com uma facilidade tão imprudente quanto embaraçosa. Pallister e Bruce estavam fazendo o teste para o papel de Julieta: ‘Romário, Romário! Por que és tu, Romário?’. Enquanto isso, ninguém fazia ideia do paradeiro de Stoichkov”, escreveu David Lacey, na crônica do Guardian publicada no dia seguinte. Enquanto isso, Fergie foi enfático: “Estávamos bem e fomos verdadeiramente dilacerados. No final, foi uma experiência humilhante para nós. Não pudemos seguir o ritmo de Romário e Stoichkov. A velocidade que imprimiram na partida nos destroçou. Foi a derrota mais cruel que sofri como treinador do United”. Durante o intervalo, o treinador teve uma acalorada discussão com Paul Ince. Seria praticamente o fim da passagem do meio-campista por Old Trafford.

O Mundo Deportivo, por outro lado, levantou a bola de seus heróis: “Pela enésima vez, a dupla de atacantes barcelonista voltou a desmoronar a zaga rival. Tanto o búlgaro quanto o brasileiro se agigantaram e suas ações foram mortais. Hristo voltou a ser o atacante inesgotável e quase impossível de frear. Ao seu lado teve o Romário das grandes ocasiões, que ante o Manchester brilhou mais que o habitual ao recuar e receber a bola. O brasileiro foi um verdadeiro tormento à defesa inglesa, que não soube lidar com as perigosas incursões do hábil atacante. Só o excesso de individualismo de ambos os privou de mais gols”.

No fim das contas, o maior exemplo da parceria fantástica entre Romário e Stoichkov seria também o último show da dupla. Acumulando atuações ruins, o Baixinho proporcionou o seu grand finale contra o Manchester United, antes de retornar ao Rio no início de 1995. Stoichkov também viveria seu ocaso pelos culés, sobretudo pela relação azeda com Cruyff. Mesmo a amizade entre os dois parceiros de ataque havia sofrido abalos, até aquele ato derradeiro diante dos Red Devils.

“Parece bizarro e eu me pergunto como foi possível. Ele era introvertido e eu, o contrário. Ele gostava de dormir, eu queria viver. Nós éramos a noite e o dia. Mas viramos bons amigos desde o início. Éramos inseparáveis. Nunca conheci um jogador capaz de fazer as coisas que ele conseguia dentro da área”, relembrou Stoichkov em 2017, à FourFourTwo. “Ele nunca voltou da Copa. Seu corpo estava lá, mas a cabeça ficou no Rio. Alguns brincavam que era um sósia no Barcelona, porque suas atuações eram muito ruins. Ele passou a treinar sozinho e nós mal nos falávamos. Então aconteceu outra discussão, porque eu não gostava de seus amigos. Nossa amizade nunca voltou a ser a mesma”.

Na sequência da fase de grupos da Champions, os dois gigantes sofreram. Barcelona e Manchester United perderam na rodada seguinte, em resultados que confirmaram a classificação antecipada do IFK Göteborg. E no último compromisso, os 4 a 0 que os Red Devils enfiaram no Galatasaray não adiantaram. Com o empate por 1 a 1 contra os suecos, o Barça avançou na segunda colocação da chave, graças à vantagem no confronto direto com os ingleses. Ainda assim, não teriam vida longa. O Paris Saint-Germain confirmou o bom momento e despachou os catalães, se garantindo nas semifinais. O Dream Team se arruinava, enquanto o United precisaria de mais alguns anos de tarimba até reconquistar a Orelhuda – justamente dentro do Camp Nou, na famosa decisão de 1999.