Campeão da Eurocopa.

A coluna pede licença ao nobre leitor, à querida leitora, para fugir do convencional. Para falar de maneira não linear sobre a história escrita mais uma vez randomicamente pelo futebol, este jogo que tanto amamos – e, também por isso, amamos.

O que Portugal fez em terras francesas foi fugir do convencional. Foi mostrar ao mundo que se pode ganhar mesmo sem ser o melhor. Desde que seja suficientemente determinado. Aplicado. Disciplinado.

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Campeão da Eurocopa.

Quando Fernando Santos assumiu o comando da seleção portuguesa, o objetivo era renovar o time (ainda que ele não admitisse isso). Recebeu ao mesmo tempo o legado de um trabalho medíocre feito por Paulo Bento e uma estrutura de primeiro mundo montada pela Federação Portuguesa de Futebol.

O técnico gente boa, que costuma ser simpático com os jornalistas e avisou ao mundo que só voltaria para casa no dia 11 de julho – num momento em que a desclassificação era iminente – herdou algo mais: a paixão de um povo.

Campeão da Eurocopa.

Não é necessário ser um expert em sociologia para notar como a nação portuguesa se uniu em torno de um sonho dourado: o de ganhar um título relevante no futebol, algo que nem mesmo o gigante Eusébio havia conseguido. Ser campeão europeu representa, para os portugueses, mais do que uma conquista esportiva.

Não se trata, aqui, do velho clichê do povo sofrido que vê no futebol a única alegria capaz de dar esperança de dias melhores. Mas se trata, aqui, do povo que sofreu bastante nos últimos tempos, muito por causa de problemas econômicos graves. Uma nação que, se não vê no futebol a solução para todas as suas agruras, sabe valorizar um presente quase inimaginável que recebeu no já eterno 10 de julho de 2016.

Campeão da Eurocopa.

O enredo escrito por Portugal nesta Eurocopa foi como o roteiro daqueles filmes nada convencionais. Passar à segunda fase com três empates em três partidas disputadas e ter vencido apenas um jogo no tempo normal não tira em nada o mérito lusitano pela conquista. Apenas torna a história ainda mais incomum. O mocinho se deu bem no final do filme – como todos esperam –, mas surpreendentemente ele pouco protagonizou as cenas derradeiras.

Para ser campeão europeu, Fernando Santos precisou de situações que foram além do seu competente trabalho. Precisou da sorte que fez a bola beijar a trave de Rui Patrício e não entrar. Precisou de Rui Patrício definitivamente decisivo, firme. E viu a ousadia para a substituição que outros provavelmente não fariam ser recompensada no prêmio vindo dos improváveis pés de Éder.

Fernando Santos precisou provar que o time que dirige não era tão dependente de Cristiano Ronaldo como o mundo acreditava. Uma teoria óbvia, mas que ele combatia veementemente. O que muitas vezes parecia ser apenas um discurso politicamente correto transformou-se em verdade quando a primeira lágrima caiu dos olhos de CR7 sentado no gramado.

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Campeão da Eurocopa.

Cristiano Ronaldo não foi brilhante tecnicamente na Eurocopa. Os jogos que disputou não estarão na lista de suas maiores partidas quando encerrar a carreira. Mas sua liderança foi fundamental para a conquista.

O campeonato recém-terminado entra para a história da vida do atacante como um divisor de águas. O menino mimado que atirou para longe o microfone de um repórter foi transformando-se no homem capaz de liderar seus companheiros para a conquista épica. Sem a frescura de colocar a mão à frente da boca para falar, sem se intimidar para fazer valer sua condição de capitão, sem vergonha de chorar aos olhos do mundo, Ronaldo foi um homem maduro. Que voltou a ter olhar de garoto assim que o jogo terminou e a tão sonhada taça finalmente pôde ser, por ele, erguida.

Campeão da Eurocopa.

O povo que havia conquistado o mundo com suas caravelas jamais havia sentido o prazer de ter a Europa a seus pés com suas chuteiras. O título parece tão surreal que é necessário repetir a informação, quase como um mantra, para acreditar nela: sim, Portugal é campeão.

Campeão da Eurocopa.

Depois da festa pelo título, vem a ressaca. E quando ela acabar, será a hora de pensar no legado que a conquista europeia trará. Será a hora de os homens que cuidam do futebol lusitano decidirem se o país viverá eternamente desta conquista ou se fará dela uma alavanca para tantas outras.

Além da natural alegria, o troféu da Eurocopa pode trazer consigo o estímulo para melhorias no futebol português. Para o fim de bestas brigas entre clubes que deveriam deixar a rivalidade fluir somente dentro do campo. Para a melhoria da arbitragem, tão ruim. Para o fim dos acessos e rebaixamentos decididos nos tribunais. Para estádios lotados. Para que equipes menores consigam competir com as grandes e não sejam meras personagens de um filme que só tem três protagonistas. Para o fim da mediocridade no futebol lusitano. Enfim, para que Portugal dê passos, também fora de campo, para deixar esta espécie de segunda divisão europeia em seu futebol doméstico.

Campeão da Eurocopa.

Que o título europeu de seleções não entre para a história como apenas um acidente de percurso. Que Portugal, ora bolas, não seja a Grécia.

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