Já nas duas últimas rodadas das eliminatórias para a Euro 2016, quando a esperança de vaga era muito escassa, era notável a presença de jogadores novatos na seleção da Holanda. Claro, era fruto da campanha caótica na qualificação, a última aposta. Ela não deu certo, e a Oranje verá o torneio continental pela tevê. Mas as convocações para estes primeiros amistosos de 2016 (contra a França, nesta sexta, em Amsterdã; contra a Inglaterra, na próxima terça, em Londres) mostram: enfim, Danny Blind decidiu dar as chances que os novatos precisavam na equipe nacional. Não que isso importe muito: nesta quinta, a morte de Johan Cruyff fez a Holanda parar e prantear o jogador maior de sua história. Mesmo assim, com os amistosos confirmados, será curioso ver a mudança de gerações no elenco que irá a campo.

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Basta dizer que, dos 23 chamados, 12 têm menos de dez partidas com a camisa laranja. Mais do que isso: alguns deles, embora já tendo uma convocação na carreira, não eram chamados havia tempos. O índice de novidades podia até ter sido maior, se a rodada passada dos campeonatos nacionais não houvesse vitimado nada menos que cinco jogadores escolhidos por Blind pai: Daryl Janmaat, Ron Vlaar, Erik Pieters, Davy Pröpper e Jurgen Locadia lesionaram-se, e foram cortados tão logo se apresentaram à comissão técnica no hotel Huis ter Duin, em Noordwijk, clássico local de concentração da Oranje.

Ainda assim, são vários os jogadores que poderão ser experimentados – e que, se aprovados, poderão formar uma base para a nova fase do trabalho. Um deles merece destaque: o atacante Vincent Janssen faz um ano admirável pelo AZ. No primeiro turno, fizera seis gols pelo Campeonato Holandês (e um na fase de grupos da Liga Europa). Foi 2016 começar para Janssen despontar: nos onze jogos do returno até agora, 14 gols – na rodada passada, o gol contra o Twente lhe fez passar Luuk de Jong para tornar-se o goleador desta Eredivisie.

Se já era titular da seleção holandesa sub-21, nada mais merecido que sua primeira convocação para a Oranje adulta. Mas o próprio Janssen sabe que não poderá decepcionar, como reconheceu: “Ser convocado é uma coisa, ficar é outra. E farei de tudo para ficar”. Até porque seu concorrente na disputa da artilharia da liga, Luuk de Jong, também está entre os convocados. E pela maior experiência, certamente está na frente quando Danny Blind pensa numa novidade para marcar os gols. Provavelmente, De Jong será o titular no 5-3-2 com que a seleção deverá ser escalada. A seu lado, uma surpresa: Quincy Promes. O atacante do Spartak Moscou desbancou Memphis Depay e Luciano Narsingh, e até mereceu elogios do técnico pela aplicação: “Ele é um exemplo para os jovens que querem dar passos adiante”.

Também vale citar Davy Klaassen e Riechedly Bazoer, ambos titulares absolutos do meio-campo no Ajax, símbolos da melhora técnica que levou os Ajacieden a voltarem à primeira colocação do Holandês. Mais: improvisado na lateral direita com a lesão de Kenny Tete, Joël Veltman tem saído a contento nos Ajacieden. Prova disso foi o cruzamento primoroso para o gol de Arkadiusz “Arek” Milik que abriu o caminho para a vitória sobre o PSV. Com a lesão de Janmaat, é possível imaginar Veltman começando os amistosos nessa posição – até porque o reserva convocado para a vaga aberta (o estreante Rick Karsdorp, do Feyenoord) tem claros problemas na marcação.

Na lateral esquerda, sem esquecer da alternativa sempre válida que é Daley Blind, há Jetro Willems. Após uma lesão renitente no joelho, o jogador do PSV parece ter voltado melhor. Não só continua bem no apoio (aliás, está até melhor nos cruzamentos), mas parece ter minorado suas falhas antes crônicas na marcação. Para a zaga, ainda há a convocação de mais um neófito completo em Oranje: Timo Letschert, um dos pilares da ótima campanha do Utrecht na Eredivisie. Sem contar retornos de gente que ainda não foi testada suficientemente, como Virgil van Dijk (precisa reagir após as más atuações nas eliminatórias da Euro) ou Patrick van Aanholt (de volta após dois anos). E no gol, mesmo que Jasper Cillessen esteja absoluto, Jeroen Zoet tem sido elogiado no PSV.

Seja como for, com estreias ou retornos, o fato é que Danny Blind abriu espaço definitivo para a transição entre o pessoal mais novo e os veteranos. E precisava fazer isso (talvez já precisasse até durante as eliminatórias da Euro). Em queda no Fenerbahçe, Robin van Persie ficou novamente de fora da convocação.  Na entrevista coletiva em que anunciou a convocação, o treinador fez questão de ressaltar que pode chamá-lo “no futuro”, mas também reconheceu que o máximo goleador da história da Laranja segue irregular: “Eu sempre assisto aos jogos, e segue difícil. Ele joga, depois não joga. Sai do banco numa partida, é titular noutra, depois sai do banco de novo…”.

Arjen Robben é outro veterano com cuja ausência a Oranje precisará aprender rapidamente a lidar. Não seria assim em situações normais: Robben segue num bom nível técnico, e é, ora bolas, o capitão da equipe. Todavia, mais uma vez, uma lesão (coxa) o tirou de convocações. O que é quase o padrão: levantamento feito pela revista “Voetbal International” revelou que, desde a estreia do ponta-direita pela seleção (2003), ele fez 88 partidas, mas ficou fora de… 79 outras, por lesão ou opção técnica. Com seus 32 anos, cabe pensar que a propensão já alta a problemas físicos pode aumentar. Uma pena, pois Robben é ainda o único craque holandês indubitável da atualidade. Mas pensar numa alternativa para ele é imperioso.

Restam Wesley Sneijder e Klaas-Jan Huntelaar, que estão na relação. E Sneijder, 120 jogos pela Oranje, reconheceu que o momento é de reformulação: “Duas derrotas [nos amistosos] seriam o normal, mas não acho que o importante é o resultado, nesse momento. Mais importante é como poderemos atuar”. A conferir, então, como será a atuação da Oranje, a partir desta sexta, num amistoso contra a França, que deverá ser carregado de homenagens a Cruyff (aos 14 minutos, o jogo será interrompido para outro minuto de silêncio, além do inicial). Vale citar as palavras de Danny Blind para – mais uma – homenagem ao “Nummer 14”: “Ele colocou a Holanda e o Ajax no mapa do futebol mundial. Até hoje colhemos os frutos disso”. A colheita continua.