Em 2009, fui convidado a escrever um livro sobre os 11 maiores goleiros da história do futebol brasileiro. Fiz uma lista inicial, que seria avaliada pelos editores. Nela, estavam duas apostas minhas: Manga e Félix. Dois marginais na história do futebol brasileiro: Manga, um monstro no Botafogo, ídolo no Equador e no Uruguai, onde é chamado pelos torcedores do Nacional de Manguita, El Fenômeno e Félix, número um naquele time maravilhoso que tinha craques como Carlos Alberto, Rivellino, Gérson, Tostão e Pelé. Além de Jairzinho e Clodoaldo.

Dois homens que alcançaram a glória mas que, mesmo assim, foram contestados. Nunca tiveram aprovação total. Seriam fontes para ótimos textos, na linha do herói falível. Talvez fossem personagens melhores do que foram goleiros. Mas apostei neles. E perdi. Foram limados. Entraram Raul, goleiro do melhor Flamengo de todos os tempos e do melhor Cruzeiro de todos os tempos. E entrou Julio Cesar, ainda antes da Copa, para dar um ar mais contemporâneo à coleção.

Falei com Felix para conseguir um depoimento sobre Leão, seu reserva em 1970, mas que estava no livro.

-Félix, boa tarde. Sou jornalista e estou escrevendo um livro sobre os maiores goleiros da história do Brasil. (Aí, me lembro bem, percebi que estava dando um fora, que se completaria em segundos). Gostaria de falar com o senhor sobre o Leão.

-Quem?

– O Leão, que foi campeão do mundo com o senhor.

– Você foi campeão do mundo algum dia?

– Não senhor, eu não. Sou jornalista.

– Pois é. O Leão também não foi. Não entrou um minuto em campo. O campeão fui eu. Nas Copas que ele jogou, nunca foi titular.

É evidente que não houve a entrevista.

A mágoa de Félix era evidente. Ele queria o reconhecimento pelo título conquistado. Acho que nem discutiria tantas crítica que recebeu na carreira, mas daquele título não abria mão.

Felix disputava a posição de titular na Portuguesa com Orlando, um ágil goleiro negro. Foi para o Fluminense porque rendeu um bom dinheiro à Lusa, que sabia ter um outro bom profissional na posição. No Rio, continuou jogando bem como em São Paulo e chegou à seleção.

Naquela época, a seleção brasileira era levada a sério. Pessoas discutiam por ela. E havia uma enorme rivalidade entre cariocas e paulistas. Eu me lembro de Miguel Biazzo Neto, meu amigo, em 1976, dizendo que torceria para o Paraguai, pois Osvaldo Brandão havia sido demitido. Miguel, que é palmeirense, não aceitava que Junior fosse chamado e Wladimir, do Corinthians, não.

Em um clima raivoso assim, é fácil perceber que Félix, que não era um gênio, fosse muito mais contestado do que merecia. “Só foi chamado porque agora joga no Rio. Quando estava na Portuguesa, ninguém ligava para ele. Também nem era titular, tinha o Orlando lá.”

Percebem? Criticado por não ser um gênio e criticado por estar no Rio.

Félix, com sua camisa azul e suas mãos tortas – goleiros não usavam luvas naquele tempo – não se intimidou. Fez uma Copa com um grande erro – o gol de Luís Cubilla contra o Uruguai – e duas grandes defesas, em cabeçadas na pequena área, contra Inglaterra e Uruguai (vídeos abaixo, em 0min16 e 6min22).

Essa última é impressionante. Para azar (olha ele aí de novo) de Félix, foi realizada no mesmo jogo em que Gordon Banks defendeu a cabeçada de Pelé. A melhor defesa de todas as Copa ofuscou o maior momento de Felix.

Não poderia ser diferente. Não há espaço para louvar um goleiro no time que representou o futebol-arte de maneira mais intensa. Seria muito para Félix, o anti-heroi do gol, morto hoje aos 74 anos.