Morto na manhã desta sexta-feira, o ex-ditador e presidente da Argentina, Jorge Rafael Videla deixou uma marca das mais traumáticas em seu povo. Reconhecido torturador, sequestrador de bebês e um dos maiores aproveitadores (junto da mão governamental argentina) do título mundial conquistado pela seleção em 1978.

Naquele ano, o mundo sabia o que estava acontecendo na Argentina. As torturas e violações aos Direitos Humanos eram constantes e causaram até a desistência de alguns dos principais jogadores da época, como Johann Cruyff. Cruyff inclusive declarou várias vezes que se recusava a participar de um campeonato num lugar onde desapareciam tantas pessoas.

Foi com essa atmosfera que a albiceleste conquistou a primeira de suas duas taças mundiais ao derrotar a Holanda por 3 a 1, mas não sem gerar controvérsia a respeito dos meios que a levaram a tal título.

Videla foi promovido ao poder graças a um golpe militar que derrubou Isabel Perón em 1976. Assim como no Brasil entre 1964 e 1985, a Ditadura Militar sumiu com estudantes, políticos e opositores sem a mínima inibição. E quando lhe foi conveniente, sugou a popularidade de sua seleção de futebol em certo momento.

Ao ponto de que mais de 30 mil pessoas perderam a vida em atos de opressão por parte do governo. Apesar de afirmar que este número chegava a “apenas” 7,6 mil, o ex-ditador não parece menos genocida aos olhos do povo que ele tanto feriu.

Um local inapropriado para receber uma Copa do Mundo

Em 1966 ainda não havia nenhum regime ditatorial na Argentina. Foi neste ano que a decisão da Fifa por sediar sua principal competição foi tomada. Dez anos depois, a crueldade reinava nos porões e na surdina. Alinhado com João Havelange, homem forte da entidade, Videla impediu que a Copa fosse para outro país, quando por muito pouco os argentinos não sofreram uma sanção no campo esportivo. A Junta Militar local garantiu a segurança do evento, que transcorreu com alguns eventos no mínimo misteriosos.

Jorge Carrascosa, ídolo do Huracán, anunciou sua desistência de defender a seleção já em 1977, justamente por discordar do regime vigente. Ele foi o primeiro de muitos a apresentar sérias restrições ao que acontecia no país. Enquanto se especulava que a Argentina perderia o direito de sediar a Copa, Videla trabalhou para que tudo parecesse na mais perfeita ordem no mês em que sua nação (representada pelos jogadores) levantava a taça mais desejada de um futebolista.

A polêmica partida diante do Peru que acabou em goleada dos mandantes por 6 a 0 até hoje é discutida e apontada como uma marmelada. Os Argentinos precisavam golear os peruanos para superar o Brasil em pontos na chave b da segunda fase de grupos da Copa. Pelo lado brasileiro, 3 a 1 na Polônia e restava apenas esperar pelo desenrolar do jogo entre os donos da casa e os peruanos. Caso o placar fosse uma diferença de menos de três gols, a seleção comandada por Claudio Coutinho enfrentaria os holandeses na decisão.

Não fosse uma visita de Videla ao vestiário do Peru minutos antes da partida, tudo pareceria apenas uma terrível coincidência. Hector Chumpitaz, capitão peruano, teria recebido um telefonema do seu presidente, Fernando Morales Bermúdez, com um tom de apelo. E o apelo era que eles tirassem o pé.

A tendência para facilitar o jogo dos argentinos ficou clara com o arqueiro Ramón Quiroga, que falhou em pelo menos duas oportunidades cruciais durante a partida em Rosario, no Gigante de Arroyito. Rodolfo Manzo também foi outro execrado naquela fatídica noite de 21 de junho de 1978. O zagueiro havia sido negociado com o Vélez Sársfield dias antes e nunca pôde retornar à sua pátria após o 6 a 0.

Mentiras eternizadas e uma morte pontual

Outra triste “coincidência” dentro de um universo de mentiras perpetradas por Videla e sua mão de ferro foi o assassinato do Ministro da Fazenda, que se posicionou absolutamente contra a realização do Mundial. Por acreditar que o país estivesse em crise, defendendo também uma postura mais austera em seus gastos, Juan Alemann foi vítima de um atentado a bomba em sua casa durante os minutos que sucediam ao quarto gol argentino em cima dos peruanos.

Com o título diante dos holandeses, o governo aproveitou o embalo e fez parecer que a conquista de Mario Kempes, Osvaldo Ardiles e Daniel Passarella fosse também um feito das mãos que comandavam o país. Do lado derrotado, Ruud Krol acabou sendo peça de uma propaganda enganosa arquitetada por Videla e propagada pela revista El Gráfico do correspondente de Mendoza, Enrique Romero.

O jornalista inventou uma carta que foi veiculada como sendo escrita por Krol, direcionada à sua filha e que falava várias maravilhas da Argentina, numa tentativa vil de iludir o povo e o resto do mundo sobre a realidade. Até hoje o ex-jogador guarda intensa mágoa a respeito de tal carta, alegando que foi uma atitude covarde e sem a mínima dignidade pelos que a praticaram. Os atletas da delegação holandesa se recusaram a comparecer e receber as medalhas pelo vice-campeonato.

Se o povo argentino se vê livre de um de seus maiores fantasmas, o futebol também pode respirar um pouco mais leve com o falecimento de Jorge Rafael Videla. O homem que não só lesou milhares de pessoas do seu povo, como utilizou de maneira inescrupulosa uma conquista esportiva. Aos 87 anos, o ex-ditador faleceu enquanto preso, uma pena que seria branda demais para alguém que deixou cicatrizes eternas na identidade argentina.

Videla por Maradona

Sobre isso, Diego Maradona fez questão de comentar em sua autobiografia “Eu sou El Diego”: “Não sei se os tropas que estavam no governo naquela altura nos utilizavam, não sei. Certamente, sim, porque faziam o mesmo com todos. Mas uma coisa não desmerece a outra. Não se pode sujar o nosso triunfo por causa dos militares, nem devem ficar com dúvidas do que penso deles. Caras como o Videla, que fizeram desaparecer 30.000 pessoas não merecem nada. Caras como o Videla fazem com que o nome da Argentina esteja sujo lá fora.”