Ao longo das últimas temporadas, a Concachampions tem se resumido a uma disputa particular entre representantes da MLS e da Liga MX, na qual a balança sempre pende aos mexicanos. Os clubes panamenhos são os raros capazes de aprontar contra os adversários dos campeonatos mais fortes. São três edições consecutivas em que uma equipe do Panamá aparece entre os oito melhores do torneio continental. E a maior surpresa nas oitavas de final da Concachampions 2019 veio justamente do istmo. Estreante no certame, o Atlético Independiente protagonizou o milagre, ao despachar o Toronto FC, atual vice-campeão continental.

É fato que o Toronto não possui o time forte de algumas temporadas atrás, sobretudo após a venda de Sebastián Giovinco ao futebol árabe. Jozy Altidore também se tornou outro desfalque sentido, lesionado neste início de mata-matas da Concachampions. Ainda assim, é uma equipe rodada, com jogadores do calibre de Michael Bradley e Laurent Ciman. Pois os medalhões não foram suficientes para evitar a sacolada aplicada pelo Independiente no primeiro duelo, realizado no Panamá.

Autor de dois tentos, Ivey Romeesh comandou a inesperada goleada por 4 a 0, realizada no pequenino Estadio Agustín Sánchez – com capacidade para não mais que 3 mil espectadores. Abdiel Ayarza e Omar Browne também balançaram as redes, aumentando a diferença ao CAI. Como se não bastasse, os canadenses ainda desperdiçaram um pênalti, quando a vantagem dos anfitriões ainda era mínima. Teriam a dura missão de reverter o placar no reencontro dentro do BMO Field, nesta semana. O que não aconteceu: apesar do gol precoce do Toronto, o Independiente arrancou o empate por 1 a 1. Selou a classificação às quartas de final, desafiando o Sporting Kansas City.

O feito do CAI se torna maior diante da pouca expressividade do clube – mesmo dentro do Campeonato Panamenho. O time vem de La Chorrera, uma cidade de 160 mil habitantes ao sul da capital, na costa do Pacífico. A fama esportiva do município se concentra em Mariano Rivera, lenda do New York Yankees, e seu principal representante no futebol é o San Francisco, maior rival dos aurinegros, nove vezes campeão da liga nacional. O Independiente é o primo pobre da região e, até o ano passado, suas glórias se limitavam às divisões de acesso. No entanto, a conquista do Clausura 2018 sinalizava a ascensão dos aurinegros, um ano depois de serem promovidos na segundona.

O maior trunfo do Independiente está no investimento em suas estruturas. É um clube com boas instalações e também um trabalho amplo voltado às categorias de base. Não à toa, seu elenco se compõe basicamente por pratas da casa ou jovens contratados de outras agremiações locais. As estrelas são mais raras. O principal nome é o capitão Manuel Torres, que costumava ser convocado à seleção panamenha. O ataque possui Jorman Aguilar, que já passou pela primeira divisão do Campeonato Português. E ainda há alguns colombianos no grupo, com menção especial ao meio-campista Gustavo Bolívar, que chegou a disputar a Copa América de 2011 por seu país, em tempos nos quais se destacava pelo Tolima. De qualquer maneira, as perspectivas na equipe treinada pelo venezuelano Fran Perlo são bem mais modestas, em comparação ao que vive o Toronto FC.

Uma vantagem do Independiente em relação aos canadenses esteve no ritmo competitivo. Os aurinegros já haviam iniciado o Clausura 2019, fazendo uma campanha digna até o momento. Somam três vitórias em cinco rodadas, tratando a liga como uma forma de se preparar ao torneio continental. Fez a diferença. E, depois do que aconteceu contra o Toronto, fica claro que uma noite inspirada pode ser o suficiente para o CAI ampliar seu sucesso na Concachampions. O Sporting Kansas City está distante de ser um adversário inacessível, considerando o que os panamenhos aprontaram. Para sair da mesmice em uma competição geralmente monótona, nada melhor do que uma grande zebra. Uma honra ao Panamá, em tempos marcantes ao futebol do país.