Anfield é envolto por uma mística. Uma mística que se constrói somente através da história. A casa do Liverpool se torna imponente por todo o passado que sustenta, pelos grandes times que já aplaudiu, pelos triunfos memoráveis que se conquistaram ali. Porém, a fascinação provocada por Anfield não se limita às taças empilhadas naquele gramado. Ela tem uma dose fundamental de sentimento, algo que diferencia a catedral vermelha de outros estádios notáveis. É ao redor daquele quadrilátero que, semanalmente, uma multidão de fiéis pratica a sua devoção, transmitida por gerações. A fé que se renova com as vitórias, mas que também guiou os caminhos do clube em meio às incertezas e às dores. Em Anfield, o Liverpool se tornou mais forte. Em Anfield, o Liverpool se transformou em um clube único. E foi Anfield que conduziu a goleada inimaginável, que manteve a confiança do time, que engoliu o Barcelona. Uma atmosfera repleta de mística, como nunca antes se vira naquele templo da Champions League.

O papel da torcida do Liverpool, após a derrota no Camp Nou, era resgatar a crença de seus jogadores. Era empurrá-los, fazê-los acreditar. E não há uma maneira melhor de expressar esse sentimento do que entoando a canção mais arrepiante do futebol: “You’ll Never Walk Alone”. Em nenhum momento os Reds caminharam sozinhos. Aliás, eles também não correram sozinhos, também não se empenharam sozinhos. A energia do time em campo não vinha apenas do foco para concretizar a virada. Ela era motivada pelos gritos incessantes que saíam das arquibancadas.

Se o You’ll Never Walk Alone começou abafando o hino da Champions, mostrando que havia algo maior em Anfield, os torcedores jogaram junto quando o apito inicial soou. Era impressionante o urro das tribunas quando os Reds atacavam. Um grito que não demorou a se tornar muito mais forte, explosivo, quando Divock Origi abriu o placar. E, atenta, a torcida não demoraria a se concentrar novamente em seu papel. Foi só o Barcelona sair com a bola que as vaias viraram um bafo no cangote dos blaugranas. Um zumbido infindável no ouvido, que não permitiu ao time se concentrar da maneira devida.

Durante o segundo tempo, Anfield cresceu. Cresceu como o Liverpool e também permitiu que o Liverpool crescesse, numa troca infinita. Não eram mais 11 homens em campo. Eram mais de 54 mil. Enquanto isso, as arquibancadas excediam sua capacidade. Foi impossível calcular a multidão que existia ali, naqueles paredões se curvando para cima do gramado. A erupção fez os Reds entrarem em combustão e levou o Barcelona ao colapso. O time de Ernesto Valverde desabou por sua própria incapacidade e pela forma como terminou enclausurado pela marcação inglesa. Mas também houve uma simbiose entre o Liverpool e sua torcida. A fusão que explica tamanha mística, que intimida qualquer rival.

Os jogadores se unem à torcida após o jogo (Alex Livesey – Danehouse/Getty Images)

E quando a virada se consumou, romper o que acontecia pareceu impossível. Era como se o barulho se solidificasse e formasse uma barreira invisível ao redor da área vermelha. Um muro feito de som, calor, energia e fúria. O Barcelona, atordoado, sucumbiu em sua impotência. O Liverpool, inabalável em sua catedral, realizou o culto máximo à fé que se construiu ao longo de décadas. Por um momento, a noite de Champions se transportou no tempo. A emoção compartilhada por aquela gente era a mesma que se vivenciou na reconstrução empreendida por Bill Shankly, que se experimentou nas glórias com Bob Paisley, que se dedicou a Kenny Dalglish, que levantou seus irmãos após Hillsborough e que se levou a Istambul em 2005. A mesma emoção de quem vê um clube gigante recobrar toda a sua aura.

O apito final, mais do que uma confirmação, recaiu como uma forma de bênção. E não necessariamente por encerrar um embate de contornos dramáticos, de consequências apoteóticas. Abençoada era a comunhão que se formou ali, num universo à parte dentro de Anfield. O grito agora veio do âmago, incontrolável. As arquibancadas cantavam mais alto. Os jogadores se ajoelhavam, levavam as mãos aos rostos, não escondiam a gratidão pelo esforço imenso. Afinal, não eram os únicos com os olhos marejados, seja dentro do estádio ou a milhares de quilômetros dali. Unido em uma só corrente, o Liverpool se postou diante de sua torcida para celebrar. Para sorrir. Para encarnar a mística que paira naquele local e aflora na pele dos que vestem a camisa vermelha. Anfield possui inúmeras noites mágicas. Nenhuma tão mágica como esta. Só o futebol é capaz de explicar.